sexta-feira, junho 30, 2006

Flor de Cacto

Foto: Maria Ivone Ferreira

“ A bem dizer, ele pouco falasse. Se via que estava apreciando o ar do tempo, calado e sabido, e tudo nele era segurança em si. Eu queria que ele gostasse de mim...”

(Guimarães Rosa_ “ Grande Sertão: Veredas” )

Ele é mais contido, cuidadoso nos gestos, fala pouco e quase não se derrama.
Às vezes a olha cheio de encantamento e, prestes a pronunciar a tal frase de impacto, desiste no primeiro impulso do momento exato.
E quando sai de órbita, escreve um poema sem título.
Ela é doce e ardente, esparramada na fala, exagerada no toque.
E todos os dias negocia com a maneira que ele tem de demonstrar afeto_ nunca é o suficiente.
E do poema inteiro, só presta atenção no título ausente...
Dentro de tantas expectativas, eles seguem se amando desajeitadamente:
Ele de um jeito delicado porque não precisa dela...
Ela, com tantas carências, pensa que o ama loucamente.

(Marla de Queiroz)

*


quarta-feira, junho 28, 2006

Brasil e Ghana...com um pouco mais de emoção e erotismo!


Designers

Para minha amiga linda Juliana Varga que foi sorteada pelo Mastercard e está assistindo aos jogos na Alemanha...

Aquecimento...Eles correm no campo, as mãos dele descobrem meu corpo com a destreza que eles têm pra conduzir a bola com os pés, um giro, um drible, estou sem fôlego, ele me pega com força, estão na nossa área, talvez um chute a gol, ele enrola meu cabelo na mão, o goleiro defende, puxa-os pra trás com uma violência delicada, não machuca, foi só um susto, tiro de meta...

Um, dois gols, quero mais. Ele também. Ninguém se contenta com o gozo de dois gritos apenas, podemos muito.Quero tudo em absoluto, Freud explica, Parreira irrita.Os estampidos de champagnes sendo abertas no meu ventre e o líquido espesso borbulhando no látex...Um gole na cerveja e voltamos pro beijo: o tempo urge, a vida é curta e eu quero o HEXA...Você também?Talvez tenhamos um pouco mais de pressa nesses quarenta e cinco do primeiro tempo, mas gosto da precaução...

Não mudei de titular, os brasileiros reclamam do técnico, adoro sua técnica de tocar no canto certo, de finalizar bem os escanteios. A taça do mundo é nossa, cansados todos, suados e felizes...exausta e mole,agora é só correr pro abraço...Quase saciada e rouca...Oba! Segundo tempo?
Reclamam do toque de mão, eu não. Gosto do jeito que ele toca,pareço um instrumento; desconheço a combinação das notas e as regras do impedimento. Cartão amarelo pra quem? Deixa pra lá, é pro time adversário,tomara que seja expulso enquanto eu vibro em vermelho.
Abre aqui pela direita, FALTA (!), ia meter pela linha de fundo mas preferiu se posicionar na frente.........Falta é criatividade nesse meio de campo, aqui não...Acabem com Ghana, acabe-com-essa-minha-gana!!!Mor-DIDA SALVA OUTRA VEZ!!!!!!!!Que reflexo!!!!O rebote é nosso, a enfiada no meio de campo é sua e lá vem a oportunidade de mais um GOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLL!!!!!Eles correm pro abraço, eu permaneço no seu...
Recomeça a partida, a nossa defesa retoma o lance, posição de perigo, alguém se adianta, lançamento pela linha de fundo......... IMPEDIMENTO!!! Haja coração!.....Soa o apito, toca aqui, toca ali, “que posição legal!” , olho no lance que os meus estão fechados, agora o mérito é do triângulo mágico: “a conseqüência de jogar com gana é muito contato físico!” e o narrador conclui: “o problema é na defesa....” Concordo, as minhas estão todas abertas...
Pronta pra enfiada de bola... olha lá: "na TRAAAVE!!! O espaço é estreito com uma goleira dessas!"
Jogo suado, sofrido, mas muito boa a atuação da equipe e esse seu espetáculo particular.......

Próximo jogo: na minha casa ou na sua?

Resultado: Brasil três pra zerar essa gana_ próxima partida rumo ao HEXA!

Obs: Demitindo Galvão ou a sugerindo uma narração mais emocionante.

terça-feira, junho 27, 2006

Despedida.


Foto: Cláudia Barbosa

Para Grazi.

"...Agora é de novo madrugada.
Mas ao amanhecer eu penso que nós somos os contemporâneos do dia seguinte.
Que o Deus me ajude: estou perdida.
Preciso terrivelmente de você.
Nós temos que ser dois para que o trigo fique alto.
Estou tão grave que vou parar _
Nasci há alguns instantes e estou ofuscada
Os cristais tilintam e faíscam
O trigo está maduro: o pão é repartido
Mas repartido com doçura?É importante saber
Não penso, assim como o diamante não pensa
Brilho toda límpida
Não tenho fome nem sede: sou
Tenho dois olhos que estão abertos
Para o nada
Para o teto
Vou fazer um adágio
Leia devagar e com paz
É um largo afresco.
Nascer é assim:
Os girassóis lentamente viram suas corolas para o sol
O trigo está maduro
O pão é com doçura que se come
Meu impulso se liga ao das raízes das árvores..."
(Clarice Lispector)

Quando ele foi embora não se despediram.Juntou silenciosamente um punhado de coisas e saiu enquanto ela fingia o mais profundo dos sonos. Seu corpo ainda estava quente e nu, sua doçura adormecida e sua alma deserta...
Nem quis olhá-lo fechando a porta para não ser promovida pelo desespero.

(Marla de Queiroz)

segunda-feira, junho 26, 2006

" Algo Teu"

Foto: Helena

Tem jeito não. A lembrança dele me arranca o sono nas madrugadas com a urgência de quem quer o amor mal-feito mesmo, quando eu só precisava descansar da violência das minhas fomes_ daí eu ter posto musiquinha triste pra embalar meu sono.Mas ele me conhece e me acorda assustada com diálogos internos, imaginários ou não,e entra no meu sonho com nome e sobrenome falando das nossas questões mais truncadas com a clareza que eu precisava ao vivo e que não tive. E tudo pela demanda da sua vaidade. Se o que eu queria contar sobre nós dois eu nunca pude, porque não me deixar em paz com a caneta repousada no bloco de papel ao lado? Mas não, ele insiste em me entristecer inutilmente. Invade meus sonhos, bagunça meus planos de viver uma história possível e desanda meus sentimentos já tão enfileirados pro moço que me quer mais que tudo nesse mundo. E ele sussurra, quase que em carne e osso, as palavras mais levianas no meu ouvido.Eu fico esquisita: tem amor tão bonito dentro de mim que não consigo dar ao outro nem desperdiçar com ele. Fico abundante de coisa pra compartilhar sem poder ou querer, e aí é que tudo se complica:

Volto a dormir neste inverno, agasalhada só na saudade, com essa melodia triste, nessa madrugada fria...

sexta-feira, junho 23, 2006

Dica.


Foto: Carlos Sillero

Se você tentar dizer as coisas como eu as digo, isso vai virar um eco insuportável e eu só vou conseguir carecer da tua voz...( Não espero receber textos iguais aos que escrevo).
Eu só quero esta paisagem, os sentimentos desamarrados, um traço firme do teu desenho, uma nota bem tocada no teu contrabaixo, esse beijo bom, teu melhor pedaço de pizza e esse tempo que sobra pra sentir saudade das SUAS especialidades...
Enquanto isso, eu fuço minha memória, bolino a palavra e desenrolo meus textos só pra revisitar cada milímetro da tua pele...

(Marla de Queiroz)

P.S.: Coisa mais linda que o Luiz Antônio Gusmão me explicou, quero compartilhar com vocês:

"bellis lepdoptera perennis":
A tradução, explicação que me pediu: o nome científico da margarida é " bellis perenis" - beleza perene, duradoura, sempre-viva. "lepidoptera" é a ordem à qual pertencem as borboletas. Fiz uma mistura e deu um nome cheio de sílabas labiais, como que pra evocar um leve bater de asas. ; )

quinta-feira, junho 22, 2006

Marlarida


Eu só quero tirar o tom solene que emprego nas coisas tristes e descansar dos meus desamparos para recapitular cada átimo de segundo das milhares de vezes em que fui amplamente acariciada. Quero ser espectadora dos meus extremos e direcionar o meu vulcão interno pra devastação de um lugar em que, depois da destruição, possa haver um vasto reflorestamento. Não quero intimidar com a minha energia nem assustar com o que há de mais frágil em mim. Quero observar sossegada que o orvalho ainda não é chuva e que nem sempre o sol afasta o frio. Que pra luz ser boa ou a sombra inadequada, como numa foto, vai depender da imagem que eu quero reter...

Sei que morar numa cidade grande onde todo mundo vive tão apressado, pode fazer com que a gente se sinta mais carente que eterno.E assim como a solidão pode ser compartilhável ,amar alguém pode ser algo muito mais solitário...Mas só insiste em tropeçar nos próprios passos quem ainda não tem asas...
E eu sou uma MARLArida que virou BorboLETRA!

;-)

(Marla de Queiroz)

*

terça-feira, junho 20, 2006

Sobre o beijo.


Mas o nosso beijo não é só a boca dele se desmanchando na minha, não. Primeiro ele segura meu rosto com as duas mãos, afasta meu cabelo do olho e vai contornando os meus lábios com os dele até desenhar um coração. Depois se demora mordiscando a minha boca oferecida como a uma fruta suculenta e madura. E me olha fundo... mergulhado... bem dentro do meu olhar castanho amolecido....

E as nossas escuridões é que se beijam.

segunda-feira, junho 19, 2006

Clave de Fá...

Foto:Rick X

Teve que ser suave e lento e chegar com calma, falando macio, tocando aos poucos.
Teve que ser leve, lúdico, aconchegante e ensinar algo que eu não sabia.
Teve que ter um abraço grande, um beijo intenso, arriscar um passo de dança e escancarar no sorriso.
Teve que ser sábio e estar sóbrio.
Teve que ser debaixo de um céu indefectível com planetas que imitavam estrelas.
Teve que falar de claves, signos, sonhos e desapegos.
Teve que deixar meu corpo se afundar no dele.
Teve que ser uma brasa doce...


Eu só queria que fosse bom, e foi incrível.

*

*

(Marla de Queiroz)

quinta-feira, junho 15, 2006

Véspera


Foto: Francisco Capelo

Quando você vier haverá o encontro da sua busca com a minha espera.
E o seu abraço será a moldura do meu corpo.
E a minha boca o pretexto para o seu mais demorado beijo.
E a gente vai brincar de se desmaterializar dentro da música,
de desatar auroras,
de escrever poemas de orvalho...
E eu vou inventar uma madrugada eterna pra quando você tiver que ir embora no dia seguinte.
E você vai inventar um domingo que vai durar pra sempre porque tenho preguiça das segundas-feiras.
E a gente vai rir dessa maldade da demora do tempo pra fazer essa brincadeira de desencontro:
quase nos deixou descrentes...
A gente vai rir dessa maldade porque o nosso amor será a coisa mais bonitinha do mundo...
(Marla de Queiroz)

domingo, junho 11, 2006

Crônica de desamor

Foto: Zé Mário Passos

Passei a manhã tentando esboçar um sentimento por você porque ainda não entendi como funcionam as coisas entre a gente. Entre o querer e a repulsa, suas mãos passeando ansiosas pelo meu corpo, minha boca rejeitando a sua e, no entanto, queremos estar ali, lado a lado, tecendo calores e dúvidas num eterno coito interrompido.E quanto mais você fica mais eu preciso estar só e tranco a porta e o corpo e fico tentando entender esses esboços que eu criei pra enfiar você nos meus dias, essa nuvem densa atravessada nos meus olhos, esse carinho que mais me deixa agoniada que nutrida....Essa saudade extraviada....

Eu sempre estive só e não queria, deixei você se enfiar por entre medos e se instalar num ninho de culpas e denso silêncio que trago por dentro.Agora te rejeito de um jeito e não consigo te abandonar e você, sem querer, vai embora temporariamente só pra me obedecer, mas sofre amarrado aos meus insultos, todo inclinado pro drama e pro desespero e eu não querendo e você estando, cada vez mais atencioso, cada vez mais inseguro, mais carente, mais agarrado à minha cintura, querendo se enfiar entre meus dedos, tão disponível, plantado na palma da minha mão. Fico triste com a capacidade de coisas que tenho coragem de fazer pra te ver chorar.
Porque te sei previsível e pressinto a importância do meu desafeto na narrativa que você criou pra sua vida. E faço questão de confirmar sua descrença e quando penso que você cansou, continua tentando roubar o melhor dos meus verbos, me conjugar num tempo certo quando nem estamos próximos, embora lado a lado...

Não deixei você me penetrar, me tocar por dentro, nem fazer parte da lista de coisas que mais gosto de fazer por mim.Fico inquieta com sua presença, mas preciso SIM da sua resignação e dessa sua falta de amor próprio quando volto pra casa assustada porque tudo deu errado naquele dia...Entenda sobre a minha falta de novidade, de perspectiva, dessa prótese que você se tornou e de como a minha autoflagelação pode ser menos dolorosa já que não consigo me livrar desse sufoco , dessa mania de auto-agressão, já não consigo aceitar a amplidão do quarto vazio, da cama espaçosa.É como um pacto com o vácuo.

(Você não passa de uma metáfora errada que usei pra rasurar o texto, pra enfeitar meu egoísmo, pra insuflar meu ego).

Mas não há desistência de ambas as partes. Você sobrevive de migalhas, viciado que está em maus tratos, convivendo bem com as minhas crueldades e, na sua doença, compactuando com a minha.

Seguiremos juntos até que alguma espécie de amor nos separe.
*
(Marla de Queiroz)
P.S.: Texto baseado em fatos (alheios) reais...Tantos, tantos.
*
*
*

quinta-feira, junho 08, 2006

Notícias minhas...


Ainda que as mudanças sejam lentas e quase imperceptíveis, elas estão ocorrendo...Percebo isso numa inquietação minha em mudar o cabelo, experimentar outro estilo de roupa, escolher lingeries com cores mais alegres... Tenho falado mais manso, dito “não” com mais tranqüilidade quando acho que é o melhor a ser feito no momento...Até praia que antes era um imperativo nos dias de sol, posso recusar se eu achar que dormir até mais tarde ou ficar simplesmente enrolada no edredon feito um charutinho vai me dar mais prazer...Deixar um livro de lado e ver um filme atrás do outro...Abrir mão de uma dieta e comer um doce bom depois do almoço, topar o chope recheado de papos bons com um amigo em plena segunda-feira para que ela fique mais plena ainda...Não responder um e-mail imediatamente porque prefiro escrever algo mais elaborado ...Ser delicada com quem me irrita só pra desconcertar...Nada de muito especial tem me acontecido, tudo tem se movido sem qualquer fiapo de alvoroço ou paixão...Tenho cumprido as tarefas cotidianas, tenho dormido só nas horas em que caio de sono, tenho escrito recadinhos breves com palavras doces pra algumas pessoas só pra fazer um afago simples e não tenho me magoado com silêncios, solitudes e ausências...Às vezes faço uma bijouteria pra exercitar meu lado criativo...E construo frases sem sentido só pra ampliar minhas vivências...E salpico lavanda sobre os lençóis antes de dormir pra acordar recendendo a flores...Não tenho sentido falta do amor romântico, nem de nada que me tire o fôlego...E, embora eu possa me sentir entediada com a aparente falta de novidades, volto a pé do trabalho, pela orla, vendo o mar e prestando atenção nessas tardes frescas quase frias atravessadas por filetes de sol ameno sendo lindamente iluminadas...Vez ou outra esses filetes me atravessam também e meus cabelos explodem em cores incríveis...E continuo andando, indo, indo calmamente como um poente que sorri timidamente...

Caminhando dentro da paisagem, sou simplesmente uma pessoa em meio à multidão, mas toda em tons degradês...

;-)

(Marla de Queiroz)

quinta-feira, junho 01, 2006

Cafuné...



Foto:Marília Campos

Seus dedos
percorrendo a minha nuca
abrem fendas
nos lugares mais improváveis
do meu corpo
e a água
brota da minha boca
como a nascente do desejo
*
*
(Marla de Queiroz)
*
" Ela era simples e mulher, e ele podia rir dela_e como outra forma de rir, ele pela primeira vez acariciou seu rosto, afastou com muita delicadeza a espécie de bandóis entrançados que lhe emolduravam a cara fina. E a cara que apareceu, despida e forte, fê-lo de súbito retirar as mãos como se ele tivesse pisado sem querer no rabo de um bicho."
*
Ainda:
*
" E se não tinha ação, tinha o grande amor.Um homem podia não saber nada; mas sabia como se virar, por exemplo, para o lado do poente:um homem tinha o grande recurso da altitude. Se não tivesse medo de ser mudo."
( " A Maçã no Escuro"_ Clarice Lispector)
*

sexta-feira, maio 26, 2006

Uma história de tanto amor...


Foto: Pedro

Para Lua Leça.

Minha Menina desata a brisa e contorna o vento e dissolve da paisagem o nublado pra me incendiar do sol que eu preciso, pra me adornar com cores, pra me adereçar com brilho. Minha Lua Particular contém todos os banhos de mar que me permiti e todo alívio de apertos no peito que me assaltaram. Ela me traz de volta num abraço com o encaixe mais perfeito que já houve...Tudo que há entre nós contém calor e renova e fertiliza e compõe a minha vida. E essa morenice dela é cheia de detalhes, de profundidades e desses abraços que me enfeitam e acalmam.
E quando estou bem quieta, afundadinha numa cadeira, nem me pergunta o por quê, apenas encaixa sua cabeça no meu pescoço com toda a força da sensibilidade que ela tem pra me energizar respeitando profundamente o meu silêncio. E me chama pra dormir junto, oferece vinho, colo e conversas longas e o cheirinho aconchegante da sua casa e beija meus olhos úmidos segurando meu rosto com aquelas mãozinhas de cura... Ninguém soube com tanta eficácia transformar em tranqüilidade esses nós que às vezes ficam presos na minha garganta.
E é por ser minha Lua Particular cheinha de Mel, que saímos por aí de mãos dadas: conjugando flores, declamando ventos,desmembrando palavras,descosturando estrelas, ...


Nem um poeta teria uma vida tão marlavilhosamente lírica.

*
*
(Marla de Queiroz)

quarta-feira, maio 24, 2006

REFORMAS


Foto:Ilana Lerner

Estou reformando minha casa enquanto a inspiração tira férias.
Não quero postar aqui textos empoeirados de gavetas antigas
nem catar palavras nos escombros das minhas angústias.
Quero reformular meus espaços, ampliar meu ambiente interno
e preparar o meu ventre para o poema novo...
Não quero a palavra precipitada nem a repetição dos fatos.
Estou mudando a casa de sentimento, abrindo as cortinas
para o sol e para o vento que passeia entre as coisas
renovando.
(Quero água limpa pra regar minhas flores).
Vou escrever dentro de outro tempo, em outro ritmo
até que o poema me contemple novamente
com afeto e vire feto
até que se torne nova-mente um novo-amante
até que desabroche em meu ventre.

(Porque é preciso paciência, dedicação e uma espécie de delicadeza
para se parir uma coisa viva.)

Vou demolir minha casa para esculpir minuciosamente o duradouro ...
Cansei de morar eternamente no efêmero...
*
*
*

(Marla de Queiroz)

terça-feira, maio 23, 2006

segunda-feira, maio 22, 2006

Minguante


Foto:Geoffroy Demarquet


Eu estava com um poema do Drummond no colo
enquanto o mar ao fundo debruçava violento em nenhuma pegada.
Meu corpo tremia com o beijo frio do vento.
O coração confrangido, o soluço no peito.
O ambulante ofereceu brincos, pulseiras, colares:
” Não obrigada, não me enfeito quando estou triste”...,
respondi com a voz embargada e o olhar ensopado de ausências.

*
(Marla de Queiroz)

quinta-feira, maio 18, 2006

Descoberta e Desencanto

Foto: Helena

DESENCONTRO
(Mia Couto)
*
*
Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces
*
(Raiz de Orvalho e outros poemas)

terça-feira, maio 16, 2006

Mais do Mesmo...(trecho de carta)


Foto: Errante

vontade de ficar sozinha
só para saber
se você ia
ou vinha
quando deixou
esse bagaço
no meu peito
pedaço estreito
defeito na mercadoria
do jeito que você queria

(Alice Ruiz)


Se eu fosse escrever pra você,falaria do amor que chega violento nos entupindo de gestos delicados. Falaria de reticências, de inspiração, da poética da saudade e do esquecimento. Da perseguição do poeta pelo que ainda não foi dito: a palavra exata, o lugar onde haja a realização plena da metáfora. Falaria da música que está tocando agora, do cabelo molhado de chuva, da lágrima salgada de mar.Falaria dos olhos cor de folha seca que algumas pessoas têm...

Falaria de como consegui esquecer de coisas que eu julgava inesquecíveis. E como consegui me lembrar de outras irrelevantes por causa de um aroma perdido no ar. Falaria de algumas desilusões também_ das vezes em que chorei um choro compulsivo e sentido esfregando o peito com a palma da mão. Contaria dos medos que tenho, que são muitos. Das pessoas que eu amei e que se foram me deixando com a alegria suspensa, com a solidão de Deus...

Eu falaria do Universo, da dança, da vagina cósmica, do pênis de Zeus, da tragédia de Édipo, da loucura de Medéia, do mito de Sísifo. Do grito rouco dos livros de Clarice Lispector, da barriguinha das rãs de Manoel de Barros, das cores primárias de Miró,das mãos em concha de quem quer receber amor. Do Fernando Pessoa iconoclasta, descrente e filosófico. Da lucidez de Drummond; do que há de mais lúdico em Quintana. Eu falaria da vida também que é a matéria-prima disso tudo...

(Marla de Queiroz)

segunda-feira, maio 15, 2006

Recado

Não consigo imaginar como era o mundo antes das tuas flores nestes muros...Mas as paredes do meu quarto são tristes, tristes: apesar de verdes, nada brota delas....
(Marla de Queiroz)


Foto: Valter Elias

PAIXÃO
De vez em quando
Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos,
não é a bola bonita caminhando
solta no espaço.
(Adélia Prado_Poesia Reunida, p.199.)

sexta-feira, maio 12, 2006

Onírico

Maria Júlia [Maju]
fome e vento sacodem,
sede e fogo me queimam
e eu nado no nada
da tua ausência
_cabeça aérea_
querência
de tuas mãos
etéreas
(e e-ternas.)
Foto: Helena

Você apareceu dentro do meu sonho como a única coisa que compunha aquela estrada tão deserta de tudo... Você me disse solene: “Às vezes, meu amor, um raio de sol é suficiente pra iluminar uma alegria inteira...E as noites de lua cheia nada mais são que dias embrulhados em papel de seda azul...”
*
*
*
( Final-de-semana cheio de propostas incandescentes...Ainda por cima tem essa Lua Cheia deixando loucos todos os meus hormônios sãos...Isso não vai prestar!)
*
(Marla de Queiroz)


quinta-feira, maio 11, 2006

Clarice



" E como um velho que não aprendeu a ler ele mediu a distância que o separava da palavra. E a distância que de repente o separou de si mesmo. Entre o homem e a sua própria nudez haveria algum passo possível a ser dado? (...) E ali estava ele. Que pretendera apenas anotar, nada mais que isto. E cuja inesperada dificuldade era como se ele tivesse tido a presunção de querer transpor em palavras o relance com que dois insetos se fecundam no ar. Mas quem sabe_ perguntou-se então na perfeita escuridão do absurdo_ quem sabe se não é na expressão final que está o nosso modo de transpor os insetos se glorificando no ar(...) Assim, pois, sentado, quieto, Martim falhara. O papel estava em branco..."

( A Maçã no Escuro_ Clarice Lispector)

Foto: Catarina Paramos

VERSO ABSTRATO, POESIA CONCRETA*

Foto: Diogo Sarmento

É dentro do seu quarto, seu mundo provisório, que se inquieta sem querer sair. Faz um rabo-de-cavalo, põe uma roupa velha e lambuza as mãos de tinta ou de cola. Espalha pelo chão recortes de revistas que são mãos e bocas e braços abraçando. É dentro do seu quarto que as palavras lhe interrompem e ela lava as mãos de tinta e corre pra caneta. Nada sai e se agonia. Vai pra sala e busca um livro: lê um pouco mas ainda não é isso.Corre novamente pra caneta e o papel em branco a assusta. Trepa em cima da folha, se sacode toda: nada sai, nem uma moedinha sequer. Senta-se humilde, pedindo à palavra "uma esmolinha peloamordedeus!!!" E alguém de dentro dela abre uma porta e deposita na mão vazia um versinho miserável pro almoço. Tá tão desnutrida que não nega e agradece; como aquilo devagar fingindo que é bom, mas a fome volta em pouco tempo.
E esse quarto vai ficando tão pequeno que recolhe as gravuras espalhadas. De volta às tintas mergulha as duas mãos sentindo a viscosidade na pele como uma espécie de carícia. E é tão bom que fecha os olhos de estremecimento. Lembra do toque daquele moço bonito que ela não diz o nome porque finge que esqueceu. E com os respingos de tinta na calcinha, espalha versos eróticos pelas pernas perdendo a razão e se fazendo de tela com as mãos-pincéis das cores prediletas. Desenha no seu corpo imagens abstratas vestidas de vários azuis e amarelos e vermelhos. Lê na caixinha de tinta "não tóxico" e continua a extravagância. Ao seu lado, o branco repousa imóvel no papel; acha sem-graça e senta em cima. Vai desenhando, sem as mãos, sua bunda, seus joelhos, um seio, a curva tímida da sua cintura. Fica escrita, colorida, no papel.

" Pintei um verso abstrato, falta a poesia concreta", pensou. E termina a cena escrevendo no espaço que sobrou:

A
MA
NHE
CI
PESSOA
EN
TAR
DE
CI
ARCO-ÍRIS...

. (Marla de Queiroz_ Brasília, 2000.)

quarta-feira, maio 10, 2006

"Teclado sem fio"


Foto: Carlos Neto

Comecei a escrever uma história:
Faltam personagens, enredo, cenário, tempo e espaço.
Apenas uma máquina de escrever quebrada ocupa o primeiro ato.
Há, talvez, um título:
" A Incrível e Triste História de um Objeto".


(Marla de Queiroz)

terça-feira, maio 09, 2006

Só Palavras


Foto:Sweetcharade

Cansada das minhas palavras esvaziadas de novidade. Tão as mesmas, tão elas mesmas! Descritivas, saudosas de um dono mais ousado, vestidas de roupa velha nem se enfeitam mais de tão pobrezinhas, as coitadas.
Queria-as adoecidas que fossem, surtadas, caóticas, em movimento...

Queria-as febris e pulsantes, desarvoradas na página, descontroladas de revolta.
Mas há a mesmice. A mesma expressão calma. A indiferença...
Desaprenderam a dizer, perderam o fôlego e o ritmo.
Elas que já me tiraram o sono, repousam sossegadas no silêncio espesso e pegajoso dos meus dedos...Não há sequer angústia, mas cansaço e pena.
Elas que já tiveram vida própria, submetem-se às velhas narrativas e influências;
imitam, plagiam e só. Relatam as mesmas paisagens, dores, alegrias e saudades.Fazem os mesmos elogios. Desejam as mesmas coisas a pessoas diferentes, tão acostumadas e mecânicas que estão.
Elas que já foram beijo, afago, flor.

Elas que já compuseram desabafos e foram insulto e cura.
Elas que já fizeram rir, chorar, que fizeram companhia...
Agora tão enfraquecidas e banais...
Tão repetidas que foram, não fazem mais eco.
Se ainda assim soubessem ir embora, teriam ido...mas emburrecidas aceitam tudo. E seguem compondo só mais um texto, um texto só, solitário...

Cansada das minhas palavras: tão comportadas que dormem cedo...

( TPM da piores, esterilidade literária e uma saudade absurda completamente inoportuna... Já é Lua Cheia???)

Marla de Queiroz

segunda-feira, maio 08, 2006

Carta do Não-Querer


Foto:Alexandre P.

Amou-me um dia como pôde dentro do desconforto de que eu poderia sair por aquela porta até nunca mais. Agarrou-se ao cheiro que deixava no seu edredon verde pra embalar sua insônia.E eu voltava pra pedir chokito de madrugada.Bebeu comigo do vinho que eu gostava, aprendeu a escolhê-los por minha causa.Desejou meia dúzia de amigas minhas pra me fazer ciúmes e nada adiantava.Eu tinha um coração ocupado por uma ausência, eu ainda era toda a espera por alguém ido.

E os dias não se abriam em meu peito, não cabiam neles o seu sol...Mas ele trocou lágrimas por suor e eu permaneci colada ao seu corpo querendo mais e mais do gozo puro e cru. Ele me dava afeto e eu não tinha como expelir nada em mim pra dar. Só tinha vontades de outro alguém, saudades de um outro amor e vontade de me enroscar no seu corpo até cair no sono e esquecer de tudo. E as unhas dos seus lençóis só me prendiam pelas noites, pelas madrugadas afora_ no dia claro eu ia embora com passos largos sem olhar pra trás.

Foi privado do melhor que havia em mim e, com a minha efemeridade, perdeu toda a disposição pro abraço. E quando ele parecia distante, eu voltava fazendo metáforas de chuva, reclamando cartas e longas conversas olhando nos olhos. Fui perdendo a graça com a minha confusão, fui enchendo seu querer de ressentimento e, se antes dançávamos lúdicos, depois ele me tomava nos braços com uma expressão dura e magoada de quem quer ir embora mas não consegue ainda.Não sei até que ponto teve que reunir forças dentro dele quando disse que não me queria mais, mas ele o fez e resistiu até quando pôde.

Nossos encontros tornaram-se escassos e esporádicos, e eu já não podia ligar de madrugada pra falar de lagartixas, planetas, desilusões ou o que quer que fosse. Ele que abria a porta pra eu entrar, trancou-se por dentro e não atendeu mais aos meus pedidos. Resistiu a todas as minhas formas de sedução e a qualquer encanto...

Um dia eu descobri que se soubesse que já gostava dele, teria feito tudo diferente. Teria compartilhado quando só eu recebia. Teria deixado meus olhos brilharem pra ele...
Eu que tinha nele a certeza de um abrigo de paz, de um abraço acolhedor, tive depois um olhar ferido e acusador em minha direção.

Ele que me quis quando eu não o queria, eu que o quero quando já não me quer.
Seguimos assim: desencontrados...

( Texto republicado a pedido da Elenita)

Marla de Queiroz


sábado, maio 06, 2006

Esboço de uma chuva crônica 2


Foto: Marco Paulo
( À maneira de Manoel de Barros)

Ontem a noite choveu agoniada por todos os lados.
A chuva foi botando silêncio no bico dos pássaros, desenhando uma voz para as plantas,
escurecendo a face das pedras.
A vida foi ficando cheia de barulhos líquidos e de palavras fluidas e escorregadias.
E a chuva deixou tudo tão encharcado, que agorinha mesmo, essa crônica goteja verbos:
mais um pouco, era capaz do mar lamber os carros no asfalto e a asinhas fechadas das borboletas.
Penso que dias assim desobedecem a euforia dos que se alimentam de sol;
talvez porque os encontros fiquem mais breves, assim como os azuis
ou porque algumas pessoas se esquecem que é debaixo dessa mesma chuva que nascem alguns encontros...
E algumas flores.
O resultado disso tudo foi Maria ter ido embora , toda salpicada de água doce e antes do combinado, fazendo Bernardo chegar em casa com o abandono deitado no rosto.
Quanto a mim, assistia a tudo pela janela.
Talvez porque quisesse ver vaga-lumes brotando no ar que agora estava fértil:
assim como fazem as estrelas.
Ou porque eu entendesse que em algum lugar, girassóis apareciam...
Porque beberam chuva.

Mas quando a chuva cessou, nossa casa estava alagada de silêncio...
E os nossos vaga-lumes eram lâmpadas acesas.
(Marla de Queiroz)

sexta-feira, maio 05, 2006

Qualquer Coisa


O sol tecendo a manhã e
a música desenhando a minha voz...
Eu cantarolo enquanto ando
pensando em supermercados, praia, festas e alguma desavença.
Tenho lido muito e assimilado muito pouco;
minha memória anda rouca, com falhas no meio da frase.
Quando saio à noite
converso deveras e quase não tenho dançado.
Reduzi minhas saudades ao que posso ter imediatamente
e isto não me tira o tom melancólico vezenquando.
Sou uma pessoa muito feliz,
mas completamente dramática nas horas vagas...
E quando escrevo.
(Marla de Queiroz)

quinta-feira, maio 04, 2006

Da traição...


Foto: Kristinna
Odiou saber que ele se rendeu aos apetites urgentes fazendo em pé a refeição que comumente se faz deitado, tamanha era sua fome desses amores paralelos e levianos....Havia algo sagrado entre os dois que a fazia cumprir o acordo inicial enquanto ele se saciava vorazmente de cada centímetro daquela carne clandestina...
Andava, depois disso, “ruminante como os próprios bois”
embora a raiva que sentisse fosse a de um touro...
(Marla de Queiroz)

quarta-feira, maio 03, 2006

"Ah, Bruta Flor do Querer..."

"Os livros na estante já não têm mais tanta importância
Do muito que eu li, do pouco que eu sei
nada me resta
A não ser a vontade de te encontrar,
o motivo eu já nem sei..."
*********************************************************
Alguma canção ficou e ele queria esquecer.
Não podia.
Havia o cheiro perpétuo em sua memória olfativa.
Havia também a fome inexplicável, mas definida:
Queria-a com urgência
naquele dia outonal amarelecido pela saudade.

(Marla de Queiroz)

segunda-feira, maio 01, 2006

Para ti....


Foto: Kristinna

E se eu não acreditava em mais nada aprendi , pelo menos, a dizer um TALVEZ quando o SIM me pareceu muito ameaçador...Porque sou/estou muito plural pra ser conclusiva....E ainda há pendências...Há UMA pendência.

(Marla de Queiroz)

domingo, abril 30, 2006

Marluquices


Foto:Isah

Hoje eu enlouqueci
era a minha última chance.
Então escrevi entrelinhas
e virei uma licença poética.
Quem quiser saber sobre mim
que abra uma garrafa de vinho
ou um livro da Clarice.
Quem quiser me encontrar
que aceite o DEVANEIO,
A INSENSATEZ e A LUXÚRIA.
Quem quiser saber por quê...

Já me perdeu de vista!

sábado, abril 29, 2006

Mundo Interior


Foto: Kristinna

Mundo interior?
Eu não.
Tenho um planetinha que ainda
nem foi descoberto pelo meu mapa astral...


(E se às vezes eu sinto falta até das tardes entulhadas de som das cigarras de Brasília, ontem eu agradeci imensamente por morar aqui e ter amigas como a Jú Varga, que abarrotam minha vida de gargalhadas daquelas bem satisfeitas que fazem a gente se agachar de tanto rir...E, segundo ela, a fórmula mágica é: 10 latinhas de cerveja, 3 de coca-cola e algumas doses roubadas(!) de Bayleis...Esqueceu, é claro, dos 3 pães na chapa e a bola de queijo com maionese. Ainda teve o picolé na Praça Mauá (abafa o caso).Resultado: Chegar em casa às 9:30h da manhã, DOIS QUILOS E MEIO mais gordinha, todas as endorfinas e serotoninas em atividade e o mundo inteiro acordar e a gente dormir...Pro dia nascer feliz).

quinta-feira, abril 27, 2006

Olá Candanguim!


(Esta carta foi escrita aos amigos de Brasília em Setembro de 2003. Hoje eu acordei de madrugada com tanta saudade de todos que resolvi publicá-la aqui.)

Hoje eu acordei bem cedinho pra escrever pra vocês. Saudade também interrompe o sono da gente. O pior é que nem vai dar praia hoje_ a meteorologia tem acertado na mosca, ultimamente. Aqui a gente tá sempre ligado na meteorologia. E eu aprendi a identificar os ventos. Sei que quando é o "sudoeste" é porque vem chuva. E fico na praia toda descabelada com os primeiros sopros do sudoeste dizendo cheia de propriedade: " É... o tempo vai virar!". Mas "sudoeste" eu digo assim mesmo, não digo "sudoexxxte". E aqui pensam que eu sou baiana...Eu reclamo: "Eu disse Brasília, não Bahia!" .

E eu que tenho estado tão seduzível...E dia desses, sentada num degrau enquanto conversava com um poeta, perguntei a ele: " Você gosta de mim?" e ele todo comovido sentou ao meu lado e me abraçou forte só pra responder que sim. Não que eu esteja carente, mas ser gostável é uma das coisas que mesmo quando se sabe é bom ouvir a frase toda dita em LETRAS MAÍSUCULAS. E ele disse assim: "CLARO QUE EU GOSTO DE VOCÊ!!!" com exclamação e letra maiúscula... E agora eu tenho uma certa simpatia por ele e tenho sido digna de alguns de seus poemas. E olho pra ele sempre orgulhosa de tanta "dignidade poética" que ele me deu. Isso me deixa tão bonita! E porque eu tenho uma amiga que se chama Lua, tenho sido íntima da Lua e deixado muita gente cheia de inveja com essa coisa de ter uma Lua particular. "Puxa, ela é amiga da Lua!", eles dizem. Isso me dá um certo romantismo que complementa a minha dignidade poética. E faz tempo que eu não choro chôro sentido... Nem tanto tempo assim, mas parece que faz tempo. É que vivo tudo tão depressa...

E ontem eu amanheci numa casa cercada de árvores que falam e fiquei observando os macaquinhos cheia de livros de poemas no colo. E um dos livros eu abracei quando terminei de ler porque fiquei toda comovida com ele: era do Manoel de Barros que tem o dom de me fazer ficar agarrada com o livro dele sem entender como é que uma rã com a barriguinha colada na pedra pode ser tão silenciosamente comovente... Dá até inveja de quem escreve assim.

E eu lembro dos amigos de Brasília. E de algumas ruas retamente desertas que Brasília tem aos domingos... Fiquei achando bom estar morando aqui. Ruim mesmo é o deserto fazendo curvas dentro de mim que os amigos de Brasília_ estando em Brasília e eu estando aqui_ me provocam. São poucos os que escrevem longamente, mas quando escrevem, me dão mais dignidade poética do que já tenho. E quando algum amigo novo me visita, aponto o dedo para cada foto do meu mural e ponho a outra mão no peito enquanto digo: " Estes são os meus amigos de lá..." E quase não consigo terminar a frase sem dar uma engasgada na saudade... E fico com uma cara reticente que eu não explicar como é. Imaginem uma cara reticente: :-.... Manoel de Barros saberia explicá-la...

E eu sempre tomo umas cervejas depois da aula com os meus amigos e tenho me divertido e estado leve, leve. Me deixo gargalhar das coisas mais pueris. E aprendi a gostar tanto de "Itaipava" ( uma cerveja daqui ) que quando tomo Skol nem acho tão bom!!! E a tal da "nova Schin", convenhamos, continua a mesma merda! Quem ainda não experimentou, nem precisa se dar ao trabalho: já fiz isso por vocês e garanto que não vale a pena. E o meu novo "Arleudo" (garçon predileto) se chama "Carlinhos"... (Alguém tem notícias do Arleudo?! Que saudade dele!!!) E o meu novo " Beirute" se chama "Baixo Gávea" e "Farani".E o "Feijão da Ed" daqui, não mata minha fome com tanta "honestidade" como o "Feijão de Bandido" daí. E os meus antigos amigos de Brasília se chamam "insubstituíveis", porque os daqui eu chamo de "novos amigos".

Se soubessem como sinto a falta de vocês, se envergonhariam de não terem se mudado pra cá comigo. Coisa chata é essa de que a escolha de uma alternativa implica no abandono de outra. E eu posso fazer aqui tudo que vocês ficam esperando pra fazer nas férias, mas com a "sem-graceza" de não tê-los por perto desfrutando disso tudo comigo...

Vou indo antes que eu assuma um tom lamentoso. Hoje eu nem acordei triste! E tem café ficando pronto. Hoje não vai dar praia. Itaipava é boa e barata; a nova Schin continua a mesma merda. Feijão da Ed não é tão bom porque não é "Feijão de Bandido". Saudade interrompe o sono. Brasília não é Bahia. Cheia de dignidade poética. Amiga íntima da Lua. Apenas novos amigos. Saudades eu tenho sempre... SIM, EU GOSTO MUUUUUUITO DE VOCÊS........ INSUBSTITUÍVEIS...

quarta-feira, abril 26, 2006

Música



Mais Simples
(José Miguel Wisnik)

É sobre-humano amar
Cê sabe muito bem
É sobre-humano amar, sentir,
Doer, gozar
Ser feliz

Vê que sou eu quem te diz
Não fique triste assim
É soberano e está em ti querer até
Muito mais

A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?

Mas deixa tudo e me chama
Eu gosto de te ter
Como se já não fosse a coisa mais humana
Esquecer

É sobre-humano viver
E como não seria
Sinto que fiz essa canção em parceria
Com você

A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?

*************************************************************************************

Seu violão, a minha bateria fraca, nossos órgãos...

"Sem música, a vida seria um erro."
(Nietzsche)

terça-feira, abril 25, 2006

A pedidos...


EU NÃO SEI
FAZER POESIA
MAS
EU SEI
CABER (NESTE) VERSO...
(Na foto: Mel, Eu e minha Jujuzinha: enloucrescidas de marluquices...)

Deixando ir...


Foto:Joana Muge

PARA MINHA KAKÁ.........


De repente é noite e você está tão só...O meu dia foi lindo, mas eu sei que o seu te doeu até agora e eu não posso amenizar nada com palavras que pretendam ser abraços porque elas te falariam obviedades sobre tempo, paciência e espera_ quase uma crueldade quando o que a gente quer é uma premonição, uma certeza, alguma frase cheia de sabedoria que norteie nossa vida...
De repente a semana está começando de novo, mas só se passaram alguns dias e todos foram tão abarrotados de ausência e medo e confusão interna, de uma busca quase estéril de se sentir melhor ,de fazer coisas por si mesma....E o buraco insistindo no meio de dentro do corpo, o abismo gelado, o choro engrossado de escuridão e descrença...
E eu te vejo encolhida num canto, o desespero nos olhos, o peito abafado, a vontade do grito e a falta de fôlego...E eu não sei a coisa mais bonita que eu poderia te escrever....Sei que já vi borboletas voarem faltando um pedaço da asa e rosas incríveis desabrocharem num copo com água: e é disso que me nutro pra acreditar que a meteorologia nem sempre está certa e que dias tão cinzentos podem ser prefácios de noites com sol...Sei que se eu estivesse aí,certamente estaríamos juntas no cantinho mais confortável de qualquer lugar escolhido por você e eu te daria um abraço com tanto encaixe e amor que você, por pelo menos alguns minutos, encontraria
“ um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”...
E mesmo que o seu corpo todo doa numa súplica e que “ele” seja toda sua ferida... Meu amor, eu espero ,sinceramente, que o pedacinho que falta na tua asa, não te impeça o vôo...

( Minha Neguinha,minha flor, o que eu tenho pra te dar é colo, não conselho...E todo amor que transborda em mim, vai ser seu até que nada mais te doa...)

segunda-feira, abril 24, 2006

"E quando da vida se leva só a história, não viveu..."

Foto:Elizete Nascimento

_ Eu vou morar em você...
_ Em mim? Mas essa casa precisa de tantas reformas!
_ Mas enquanto você dormia eu fiz um “puxadinho” aí dentro!
_ E a gente vai viver de quê?
_ De arredondar palavras...

( Mais tarde, deitada em cima das costas dele):

_ O que você está fazendo aí em cima, Marlarida???
_ Estou tomando sol na laje!


(Eu vou morar em você com toda a minha intensidade até essa casa se expandir e virar um país, uma cidade).

sexta-feira, abril 21, 2006

" Carta para alguém bem perto"


Foto:Isah

Ainda estou absorvendo seu último texto pra mim, ainda estou tecendo mentalmente o seu; digo mentalmente no sentido de refletir sobre cada palavra que você me deu... Porque quero te escrever algo despretensioso e doce como são as coisas vindas do fundo do coração.Quero cometer delicadezas como bordar a palavra AMOR nos travesseiros com os fios mais dourados do meu cabelo...

Estou com saudades de algumas coisas. Saudades de você, de escrever pra você no meio daquela furiosa inspiração,saudades das palavras que nunca usei por não conhecê-las ainda. Sei que tenho lido e lido e lido, mas nada de novo tem se revelado a mim, por enquanto.Sinto saudades da insônia produtiva, do domingo enclausurada com uma garrafa de vinho e mil coisas pra passar pro papel. Saudades das frases de efeito, do efeito do vazio que fica quando se esvai em palavras intermináveis e borbulhantes que se envia imediatamente como que para se livrar daquilo tudo que foi violentamente sentido de uma só vez. Uma coisa de cada vez não funciona comigo: tudo ao mesmo tempo é que faz vibrar. Eu só consigo sussurrar depois do grito. E pra me sentir viva, eu tenho pequenas mortes diárias.

O que tenho pra te escrever já está pronto, o que falta são asas impermeáveis que possam suportar o sal do mar_ é que é na praia que me vêem as frases que compõe meus mais nobres sentimentos. E o que sinto, quando for até você, chegará banhado de sol, brotado do solo do peito.

Hoje é feriado aqui e o dia está lindo: em dia de praia o sol escorrega pelas paredes da página em branco manchando tudo de azul...

Te escrevo porque nesses últimos dias meu peito latejou de amor por você. E fiquei contemplando seus passarinhos_ paradoxalmente livres dentro dos seus poemas.

O que eu tenho pra contar é pouco: nos feriados as coisas correm distraidamente e falta motivo pra refletir sobre elas. E a gente fica querendo lamber o sol e pular onda e beber cerveja, enfim, viver tudo com um vestido florido bem levinho que é pra ser bem leve mesmo e poder dançar com o vento com aquela cara boa bem corada e os cabelos desgrenhados denunciando a descontração. Quando chove, bem, quando chove a gente aproveita pra fertilizar alguma área da nossa vida. E muitas vezes quase me apaixonei, mas como não desenrolou, o sentimento ainda está à espera... Às vezes fico triste e, logo depois, feliz. Nessa oscilação, no meio desses extremos, ás vezes só um vácuo, outras um grande fio embaraçado. Clarice eu releio sempre e bem devagar que é pra não terminar o livro. Música eu ouço as do rádio que é pra ter a surpresa da próxima. Continuo sensível, sensível e chorando nas despedidas. Têm dias que tudo que eu mais queria era estar em Brasília. Têm dias que tudo que eu mais queria é ter o que já tenho_ aí fica bem mais fácil. Têm também aqueles dias que são só dias e que não há qualquer opinião pra se formar sobre eles... têm vidas que se parecem muito com esses dias.

No mais, hoje eu acordei tão bonita que me vesti de branco. No mais, eu sinto você presente numa doce lembrança de abraço, afago, amor, poesia.
No mais... não há mais.
E você, como está?

quinta-feira, abril 20, 2006

E por falar em saudade...


Foto: Kristinna

Então ele veio me falar em saudade...E usou os superlativos que eu usava. Veio falar em saudade para mim que o esperei tanto enquanto ele se fechava em círculo como uma serpente que engoliu o próprio rabo; enquanto tecia em torno de si uma teia com fios de aço.
Para esquecê-lo tive que parar de falar em víceras, em hormônios safados, em faíscas nos olhos, em estrelas no céu da boca....
Tive que silenciar até o oco do sentimento, da expectativa.E ele veio, depois de tanto tempo, me falar em saudade...
Não que tivesse sido fria a nossa história: ardia como bola de fogo, mas devastava nossas florestas internas, enquanto eu sonhava com águas litorâneas e uterinas.

(Por diversos dias eu quis tê-lo e não o tive...Hoje eu quero da vida exatamente o que ela tem me dado:
mesmo que isso inclua saudade...e ausência).



Clareza 2

Porque,
às vezes,
o que chamamos de AMOR
não passa de um amontoado
de coisas velhas
que não
conseguimos
jogar fora...

Foto: Nelson Faria

quarta-feira, abril 19, 2006

Celebração


Foto:Graça

E é exatamente essa atmosfera úmida e fria que me dá vontade de falar alguma coisa. Mas o quê???Chove gordamente lá fora, e no entanto, Meu Deus, a vida é tão boa. E foi essa sensação que me fez um dia escrever uma carta basicamente assim:

(...)Que diariamente eu chego a simples conclusão de que a vida é tão maravilhosa porque também é feita de colos, de feridas que cicatrizam,de amigos que celebram ou choram junto,de café coado com coador de pano, de gente que pega ônibus ou faz caminhada pela manhã, de quem planta o que se pode comer, de "Seus Saluns" que presenteiam seus vizinhos com laranjas que ele mesmo colheu e que alimenta seus gatos com comida de gente. Que a vida é feita de algumas pessoas que direcionam todo o seu potencial criativo para melhorar a qualidade de vida de gente que eles nem conhecem. Que é feita de e-mails que chegam recheados de saudade e de cartas extraviadas solitárias numa gaveta de um correio qualquer.De muros e pontes e cais. De aviões que suprimem distâncias e de barcos que chegam. De bicicletas que atravessam cidades. De redes que balançam gente. De rostos que recebem beijos. De bocas que beijam. De mãos que se dão. Que existem pessoas altamente gostáveis, altamente rabugentas,altamente generosas, pessoas distraídas que perdem as coisas, mal-educadas que buzinam sem necessidade, pessoas conectadas que se preocupam com o lixo, pessoas apaixonadas e apaixonantes, possíveis e impossíveis, pessoas que se entregam, pessoas que se privam, pessoas que machucam, pessoas que chegam pra curar; desencadeadores de poemas, de sorrisos,de lições de vida que ficarão guardadas para sempre...

A vida é tão maravilhosa porque ela nos compensa com ela mesma.

(Bons ventos sopram por aqui. Nada de espetacular, nem específico, mas ando em boa onda de otimismo, cheia de uma alegria sincera por dentro,toda acolhedora,com uma vontade imensa de tomar conta do mundo...É claro que me torno mais piegas nessas fases, mas se os meus melhores textos precisarem doer, espero ser medíocre por um bom e longo tempo até retomar o fôlego necessário pra mergulhar de novo nas minhas questões mais existenciais_pois a leveza não é bem uma característica da minha personalidade, mas um presente que me é dado vezenquando...Aceito e agradeço.)

E viva a caipirinha! (Hehehehehe........brincadeirinha!!!)

terça-feira, abril 18, 2006

Continuação


Foto: Vitor Shalom

Desconfortável quando você se espreme toda pra tentar escrever, fica cheia de vontade de vestir a página nua,tem cenas e diálogos inéditos pra contar e não consegue passar pro papel nem com todo o seu contorcionismo. Aí você escolhe uma foto linda dessas, fica achando que ela merece o seu melhor texto e quando pensa em alguma coisa de impacto pra casar com a foto vem a seguinte frase:

HOJE É TERÇA-FEIRA E APENAS CHOVE...


P.S.:
Meus leitores,minhas DIVAS,
Obrigada pelos comentáros, pelos elogios, pelas sugestões, pela divulgação dos meus textos, enfim, obrigada por participarem tão intensamente desse blog,vocês são o que há de mais essencial aqui.
Elenita, Su, Bela, Jordana, Thaís, Elisa,Henrique,Samanta,Felipe, Simone, Jujú, Jan,Camilla,Mariana,Pablo, Mário César,Nell, Dé,Bruno, Alex...etc, etc,etc...

Vcs são meu combustível!Ainda não aprendi a linkar outros blogs aqui, talvez eu tenha que mudar o modelo, mas em breve eu resolvo isto.

Só pra descontrair...


Foto: Marleninha

_Quando você me olha, o que vê?
_Vejo uma mulher linda, intensa, cheia de vida, inteligente, culta, sensual...
_Hum...
_E você, quando olha pra mim,vê o quê?
_O inimigo número UM do futuro pai dos meus dois filhos!
(Brincadeirinha...)
;-)

segunda-feira, abril 17, 2006

Clareza


Foto:Johnny Pulcherio


O amor nasce na alegria,
não nesse drama disfarçado de poesia...

sábado, abril 15, 2006

Sábado de Aleluia


Foto: Carlos Neto

Escuta, Judas.
Antes que você parta pro teu baile.
A morte nos absorve inteiramente.
Tudo é aconchego árido.
Cheiro eterno de Proderm.
Mesa posta, e as garras da vontade.
A gana de procurar um por um
e pronunciar o escândalo.
Falar sem ser ouvida.
Desfraldar pendengas: te desejo.
Indiferença fanática ao ainda não.


(Ana Cristina César_” A Teus Pés” )


Novamente em paz...
Sem os resquícios dos ecos do teu cheiro, sem a cor da tua voz tatuada na partitura dos meus desejos.
Tudo que ouço de ti é oco e nada mais recende em mim naquela cor avermelhada que me arrepiava inteira e me deixava insone.
Novamente em paz, sem saudade alguma do sorriso que você plantava no meu rosto ou daquela cara de choro que ficava quando dizia que não viria inaugurar comigo aquele dia.
Estou em paz, sem querer você, numa relação intensa de compromisso com a alegria,tomando banhos demorados pra apagar do meu corpo, sem ternura, o restinho das suas digitais.
Nada me afaga mais do que o cuidado que tenho tido comigo, nada me alegra mais do que o tempo todo que me sobra e que antes eu guardava pra esperar por você... em vão.
Sem ansiedades.
Retirei do pronome a posse e a mania de ser proprietária.
Nada que vem de você me comove, excita ou machuca.
Estou em paz...novamente.

sexta-feira, abril 14, 2006

Eu espero...



Foto: Miguel

Eu espero pelo dia em que a tecnologia transforme pensamentos em coisas imediatamente viáveis e que numa espécie de mágica as distâncias se encurtem e que simplesmente a gente possa fechar os olhos e, num átimo de segundo, estar abraçado a quem se deseja ou dançando de olhos fechados naquele lugar tão nosso onde foram tecidas nossas histórias mais reais.
Espero pelo dia em que a palavra me faça companhia como uma pessoa que conversa e ouve e retruca e silencia e diz ao contrário desdizendo o próprio eco do que proferi.
Espero que a gente transforme a própria vida mudando as vírgulas do texto, acrescentando advérbios, encontrando sinônimos mais adequados e adjetivos tão positivos que nos façam acreditar que somos essa explosão luminosa de cores e brilho. Espero que a nossa boca cuspa gliter! E que os olhos cintilem e espelhem cristalinamente de tal forma, que a nossa imagem refletida no outro seja clara e melhorada e a gente saiba a hora exata de consertar o sorriso.
Espero que as mudanças sejam aceitas e que, por serem inevitáveis, sejam conscientes e eficazes, e que movimentos sejam feitos pra se melhorar ao redor além de dentro, que o outro seja não só uma parte, mas uma extensão e que possamos cuidar nele da mesma ferida que curamos em nós quando dói.
Espero pelo bom ouvinte, pelo meu bom ouvido, pela expressão de confiança que desata o nó do medo e acalma e acalenta.
Espero que meus olhos sejam, inclusive, colo prum desconhecido qualquer que olhei de relance por aí se for disto que ele estiver precisando. E que a minha vida seja um exemplo de fluidez e totalidade e de uma vitória sobre a batalha contra qualquer espécie de preconceito que, secretamente, talvez, eu ainda esteja cultivando contra mim, contra o outro.
Espero que a falta de assunto não me cale e que a vontade de me comunicar seja o próprio motivo pra vir aqui e escrever: numa esperança de tocar, numa despretensão de tocar, numa transparência de dizer pelo simples fato de tentar e, às vezes, conseguir fazê-lo. Porque quem vive uma história de amor irremediável com a literatura e aprendeu a relatar dias, dores, orgasmos, saudades e angústias, não tem espaço suficiente dentro de si para trancafiar isto e nem deve_ se alguém além de mim ainda vem aqui para ler o que eu tenho a dizer...é porque faz sentido.

Espero ainda que Chico Buarque, Mia Couto e Manoel de Barros nunca morram.E que todos vcs tenham, brevemente, as maiores alegrias que jamais imaginaram ter.E que se já foram machucados, que tenham ainda muito conforto emocional, que sejam muito amados por várias pessoas, que possam confiar plenamente na vida, que não manchem seus corações com rancores passados. E que não procurem artifícios pra embotar as próprias emoções quando tudo doer agudamente porque isso também faz parte do processo, e é tão precioso quanto o que nos alegra.Eu espero que vcs sejam ótimas companhias pra vcs mesmos, que se sintam à vontade dentro do próprio corpo, esse espaço sagrado, e que cuidem bem dele...Espero que a vida seja boa com vcs e que quando tudo estiver muito difícil, que vcs encontrem as forças necessárias pra prosseguir sem hesitação e que nenhuma angústia seja vivida em vão. Espero que vcs tenham vários momentos de entusiasmos (que em grego significa: ter um deus dentro)...

Eu espero......mas se preciso for, vou ao encontro.

quinta-feira, abril 13, 2006

Felicidade



"Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer."

(Mia Couto_"Caminho", 2000)

_ De onde vem esse sorrisão, moça?
_De um jeito meio rebelde que eu arranjei de desobedecer a tristeza...
_E funciona?
_A minha segunda resposta está na sua primeira pergunta.

quarta-feira, abril 12, 2006

Dia Neutro

Foto: Yuri F. Messas


Sempre achei as quartas-feiras librianas_dia neutro em que a preguiça da segunda já se dissipou e em que temos a impressão de que a terça-feira foi engolida.
Elas ficam bem no meio dos dias úteis, não são o prefácio do final-de-semana como as quintas nem vestem a euforia das sextas, mas são alegres de futebol e gente passional nas ruas.
São elas que geralmente guardam as chegadas das frentes frias ou do estio: pelo clima da quarta a gente calcula se no sábado estará na praia ou verá um filme debaixo do edredom.
Não se chora nas manhãs de quarta, não se abandona ninguém, não se é abandonado.
Elas são feitas de espera e rotina.
São dias sem data.
São como uma ponte em que se atravessa a semana de um início para o outro...

terça-feira, abril 11, 2006

Vida Real

Foto: Felipe Pierre

A vida real, muitas vezes, nos é apresentada pulsante,
sem maquiagem, com as veias todas à mostra:
o que pode ser desagradável de se ver
ou emocionante como um parto.