
Foto: Tatas del Gosto
Você é um MARCO na minha vida, a síntese mais completa dos melhores adjetivos do AURÉLIO.
Licenças Poéticas, prosa incerta, poesia em linha reta, versos que dançam fora da forma do poema, mas dentro do corpo do poeta.


Foto: Nino Mascardi
Foto:Ugly Capricorniana com ascendente em touro e a lua em escorpião.
Era pra ter os pés plantados na Terra mas a Água dessa tríade me fez ascender a Manoel de Barros, me enamorar por Rosa, traí-lo com Mia e Lispectorar qualquer delicadeza que venha da gravidade dos meus desejos.
(Sou um touro no sentido estrito da falta de razão. Capricórnio que se atira em precipícios. Escorpião que dispensa fogos e artifícios).
Já me deitei com Drummond e acordei com Schopenhauer. Idealizei meus príncipes e os deletei no primeiro capítulo pra me embriagar com um desnorteado plebeu. Já disse "adeus" no auge da minha paixão e me desesperei com o “até mais” daquele moço breve que eu não queria nem no sonho, mas que me pareceu tão mais definitivo quando o disse, que foi quem me rendeu a melhor metáfora.
Eu sei como devorar uma história .Diversas foram as vezes em que escrevi uma carta de amor catando elementos pro poema da despedida. E chorei por não sentir saudade quando escutei PECADO em espanhol, cantado por Caetano, com aquele solo de violoncelo que se parece tanto com uma história tragicamente desencontrada. Que eu esqueci.
(Nenhum final de relacionamento amoroso me deixou mais inquieta do que quando estive longe de casa e senti sono, fome ou frio... vezenquando eu minto quando escrevo!)
Mas alguma coisa em Vênus brilha em meus olhos com suavidade. E faz de mim casta dentro do enorme despudor que tenho... Porque moro nos ventos, danço alegremente durante a mais assustadora tempestade, tenho medo de lagartixas,borboletas amarelas pousam em meu corpo quando encontram segurança, esqueço de regar minhas flores e sou conduzida, induzida e seduzida a viver e a escrever por esse paradoxo que fez casa em meu ser e que eu chamo do mais puro e irremediável amor.
(Mas não sei viver em doses homeopáticas: o calor só me penetra quando arde no que há de mais líquido em mim.)
Marla de Queiroz
Foto: Daniel Camacho Sei que o dia será bonito quando me proponho a acordar mais cedo e vou andando tranqüilamente para o trabalho ,participando da paisagem acordada pelos dourados do sol ameno do inverno_ eu me aventurando pelas ruas como quem passeia dentro de um quadro de Miró. Ou quando inauguro o meu dia chuvoso no ônibus lendo um poema do Manoel de Barros, sentindo ainda o cheiro de xampu nos cabelos do banho recém-tomado. E quando chego lá, mesmo meio enjoada daquilo tudo e faço aquela brincadeira que faz todo mundo rir pra descontrair, sei que o resto do dia vai ser mais bonito.



Foto: Jana Perrone Machado
PARADA CARDÍACA
(Paulo Leminski)
Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.
*
_Se é verdade o que te digo?
_São as minhas "meias-verdades" mais sinceras...
(Marla de Queiroz)








Foto: Maria Ivone Ferreira “ A bem dizer, ele pouco falasse. Se via que estava apreciando o ar do tempo, calado e sabido, e tudo nele era segurança em si. Eu queria que ele gostasse de mim...”
(Guimarães Rosa_ “ Grande Sertão: Veredas” )
Ele é mais contido, cuidadoso nos gestos, fala pouco e quase não se derrama.
Às vezes a olha cheio de encantamento e, prestes a pronunciar a tal frase de impacto, desiste no primeiro impulso do momento exato.
E quando sai de órbita, escreve um poema sem título.
Ela é doce e ardente, esparramada na fala, exagerada no toque.
E todos os dias negocia com a maneira que ele tem de demonstrar afeto_ nunca é o suficiente.E do poema inteiro, só presta atenção no título ausente...
Dentro de tantas expectativas, eles seguem se amando desajeitadamente:
Ele de um jeito delicado porque não precisa dela...
Ela, com tantas carências, pensa que o ama loucamente.
(Marla de Queiroz)
*


Foto: Helena Tem jeito não. A lembrança dele me arranca o sono nas madrugadas com a urgência de quem quer o amor mal-feito mesmo, quando eu só precisava descansar da violência das minhas fomes_ daí eu ter posto musiquinha triste pra embalar meu sono.Mas ele me conhece e me acorda assustada com diálogos internos, imaginários ou não,e entra no meu sonho com nome e sobrenome falando das nossas questões mais truncadas com a clareza que eu precisava ao vivo e que não tive. E tudo pela demanda da sua vaidade. Se o que eu queria contar sobre nós dois eu nunca pude, porque não me deixar em paz com a caneta repousada no bloco de papel ao lado? Mas não, ele insiste em me entristecer inutilmente. Invade meus sonhos, bagunça meus planos de viver uma história possível e desanda meus sentimentos já tão enfileirados pro moço que me quer mais que tudo nesse mundo. E ele sussurra, quase que em carne e osso, as palavras mais levianas no meu ouvido.Eu fico esquisita: tem amor tão bonito dentro de mim que não consigo dar ao outro nem desperdiçar com ele. Fico abundante de coisa pra compartilhar sem poder ou querer, e aí é que tudo se complica:
Volto a dormir neste inverno, agasalhada só na saudade, com essa melodia triste, nessa madrugada fria...


Eu só quero tirar o tom solene que emprego nas coisas tristes e descansar dos meus desamparos para recapitular cada átimo de segundo das milhares de vezes em que fui amplamente acariciada. Quero ser espectadora dos meus extremos e direcionar o meu vulcão interno pra devastação de um lugar em que, depois da destruição, possa haver um vasto reflorestamento. Não quero intimidar com a minha energia nem assustar com o que há de mais frágil em mim. Quero observar sossegada que o orvalho ainda não é chuva e que nem sempre o sol afasta o frio. Que pra luz ser boa ou a sombra inadequada, como numa foto, vai depender da imagem que eu quero reter...
Sei que morar numa cidade grande onde todo mundo vive tão apressado, pode fazer com que a gente se sinta mais carente que eterno.E assim como a solidão pode ser compartilhável ,amar alguém pode ser algo muito mais solitário...Mas só insiste em tropeçar nos próprios passos quem ainda não tem asas...
E eu sou uma MARLArida que virou BorboLETRA!
;-)
(Marla de Queiroz)
*

Mas o nosso beijo não é só a boca dele se desmanchando na minha, não. Primeiro ele segura meu rosto com as duas mãos, afasta meu cabelo do olho e vai contornando os meus lábios com os dele até desenhar um coração. Depois se demora mordiscando a minha boca oferecida como a uma fruta suculenta e madura. E me olha fundo... mergulhado... bem dentro do meu olhar castanho amolecido....
E as nossas escuridões é que se beijam.
Foto:Rick XTeve que ser suave e lento e chegar com calma, falando macio, tocando aos poucos.
Teve que ser leve, lúdico, aconchegante e ensinar algo que eu não sabia.
Teve que ter um abraço grande, um beijo intenso, arriscar um passo de dança e escancarar no sorriso.
Teve que ser sábio e estar sóbrio.
Teve que ser debaixo de um céu indefectível com planetas que imitavam estrelas.
Teve que falar de claves, signos, sonhos e desapegos.
Teve que deixar meu corpo se afundar no dele.
Teve que ser uma brasa doce...
Eu só queria que fosse bom, e foi incrível.
*
*

Foto: Zé Mário Passos
Ainda que as mudanças sejam lentas e quase imperceptíveis, elas estão ocorrendo...Percebo isso numa inquietação minha em mudar o cabelo, experimentar outro estilo de roupa, escolher lingeries com cores mais alegres... Tenho falado mais manso, dito “não” com mais tranqüilidade quando acho que é o melhor a ser feito no momento...Até praia que antes era um imperativo nos dias de sol, posso recusar se eu achar que dormir até mais tarde ou ficar simplesmente enrolada no edredon feito um charutinho vai me dar mais prazer...Deixar um livro de lado e ver um filme atrás do outro...Abrir mão de uma dieta e comer um doce bom depois do almoço, topar o chope recheado de papos bons com um amigo em plena segunda-feira para que ela fique mais plena ainda...Não responder um e-mail imediatamente porque prefiro escrever algo mais elaborado ...Ser delicada com quem me irrita só pra desconcertar...Nada de muito especial tem me acontecido, tudo tem se movido sem qualquer fiapo de alvoroço ou paixão...Tenho cumprido as tarefas cotidianas, tenho dormido só nas horas em que caio de sono, tenho escrito recadinhos breves com palavras doces pra algumas pessoas só pra fazer um afago simples e não tenho me magoado com silêncios, solitudes e ausências...Às vezes faço uma bijouteria pra exercitar meu lado criativo...E construo frases sem sentido só pra ampliar minhas vivências...E salpico lavanda sobre os lençóis antes de dormir pra acordar recendendo a flores...Não tenho sentido falta do amor romântico, nem de nada que me tire o fôlego...E, embora eu possa me sentir entediada com a aparente falta de novidades, volto a pé do trabalho, pela orla, vendo o mar e prestando atenção nessas tardes frescas quase frias atravessadas por filetes de sol ameno sendo lindamente iluminadas...Vez ou outra esses filetes me atravessam também e meus cabelos explodem em cores incríveis...E continuo andando, indo, indo calmamente como um poente que sorri timidamente...
Caminhando dentro da paisagem, sou simplesmente uma pessoa em meio à multidão, mas toda em tons degradês...
;-)
(Marla de Queiroz)




Foto: Helena

Foto: Valter Elias
Foto: Helena

Foto: Diogo Sarmento É dentro do seu quarto, seu mundo provisório, que se inquieta sem querer sair. Faz um rabo-de-cavalo, põe uma roupa velha e lambuza as mãos de tinta ou de cola. Espalha pelo chão recortes de revistas que são mãos e bocas e braços abraçando. É dentro do seu quarto que as palavras lhe interrompem e ela lava as mãos de tinta e corre pra caneta. Nada sai e se agonia. Vai pra sala e busca um livro: lê um pouco mas ainda não é isso.Corre novamente pra caneta e o papel em branco a assusta. Trepa em cima da folha, se sacode toda: nada sai, nem uma moedinha sequer. Senta-se humilde, pedindo à palavra "uma esmolinha peloamordedeus!!!" E alguém de dentro dela abre uma porta e deposita na mão vazia um versinho miserável pro almoço. Tá tão desnutrida que não nega e agradece; como aquilo devagar fingindo que é bom, mas a fome volta em pouco tempo.
E esse quarto vai ficando tão pequeno que recolhe as gravuras espalhadas. De volta às tintas mergulha as duas mãos sentindo a viscosidade na pele como uma espécie de carícia. E é tão bom que fecha os olhos de estremecimento. Lembra do toque daquele moço bonito que ela não diz o nome porque finge que esqueceu. E com os respingos de tinta na calcinha, espalha versos eróticos pelas pernas perdendo a razão e se fazendo de tela com as mãos-pincéis das cores prediletas. Desenha no seu corpo imagens abstratas vestidas de vários azuis e amarelos e vermelhos. Lê na caixinha de tinta "não tóxico" e continua a extravagância. Ao seu lado, o branco repousa imóvel no papel; acha sem-graça e senta em cima. Vai desenhando, sem as mãos, sua bunda, seus joelhos, um seio, a curva tímida da sua cintura. Fica escrita, colorida, no papel.
" Pintei um verso abstrato, falta a poesia concreta", pensou. E termina a cena escrevendo no espaço que sobrou:
A
MA
NHE
CI
PESSOA
EN
TAR
DE
CI
ARCO-ÍRIS...
. (Marla de Queiroz_ Brasília, 2000.)


Marla de Queiroz
