quarta-feira, julho 26, 2006

PERFIL 2

Foto:Ugly

Capricorniana com ascendente em touro e a lua em escorpião.
Era pra ter os pés plantados na Terra mas a Água dessa tríade me fez ascender a Manoel de Barros, me enamorar por Rosa, traí-lo com Mia e Lispectorar qualquer delicadeza que venha da gravidade dos meus desejos.

(Sou um touro no sentido estrito da falta de razão. Capricórnio que se atira em precipícios. Escorpião que dispensa fogos e artifícios).

Já me deitei com Drummond e acordei com Schopenhauer. Idealizei meus príncipes e os deletei no primeiro capítulo pra me embriagar com um desnorteado plebeu. Já disse "adeus" no auge da minha paixão e me desesperei com o “até mais” daquele moço breve que eu não queria nem no sonho, mas que me pareceu tão mais definitivo quando o disse, que foi quem me rendeu a melhor metáfora.

Eu sei como devorar uma história .Diversas foram as vezes em que escrevi uma carta de amor catando elementos pro poema da despedida. E chorei por não sentir saudade quando escutei PECADO em espanhol, cantado por Caetano, com aquele solo de violoncelo que se parece tanto com uma história tragicamente desencontrada. Que eu esqueci.

(Nenhum final de relacionamento amoroso me deixou mais inquieta do que quando estive longe de casa e senti sono, fome ou frio... vezenquando eu minto quando escrevo!)

Mas alguma coisa em Vênus brilha em meus olhos com suavidade. E faz de mim casta dentro do enorme despudor que tenho... Porque
moro nos ventos, danço alegremente durante a mais assustadora tempestade, tenho medo de lagartixas,borboletas amarelas pousam em meu corpo quando encontram segurança, esqueço de regar minhas flores e sou conduzida, induzida e seduzida a viver e a escrever por esse paradoxo que fez casa em meu ser e que eu chamo do mais puro e irremediável amor.


(Mas não sei viver em doses homeopáticas: o calor só me penetra quando arde no que há de mais líquido em mim.)

Marla de Queiroz



terça-feira, julho 25, 2006

LIBIDO



Foto: Luiz Alberto de Almeida Freitas

(Como um novelo desenrolado
pela mão distraída
vou deslizando entre dedos
desfazendo-me em curvas e círculos
_ esparramada e macia_
seduzida pela superfície
que me prenderá num abraço).

Marla de Queiroz





segunda-feira, julho 24, 2006

Lascívia


Foto: Kevin Summer
Não vi o seu rosto
_ ele estava mergulhado entre as minhas coxas_
Não beijei sua boca
_ ela estava ocupada me beijando os lábios...
*
(Marla de Queiroz)
*
*
*

sexta-feira, julho 21, 2006

ECLIPSE



Foto: Paulo Serra

Quando eu sou aquele longo segundo aprisionado no seu olhar,
há um eclipse:
A fusão do sol do meu corpo com a sua pupila dilatada.
(Marla de Queiroz)

quinta-feira, julho 20, 2006

De como transformo a rotina em dias bonitos...

Foto: Daniel Camacho

Sei que o dia será bonito quando me proponho a acordar mais cedo e vou andando tranqüilamente para o trabalho ,participando da paisagem acordada pelos dourados do sol ameno do inverno_ eu me aventurando pelas ruas como quem passeia dentro de um quadro de Miró. Ou quando inauguro o meu dia chuvoso no ônibus lendo um poema do Manoel de Barros, sentindo ainda o cheiro de xampu nos cabelos do banho recém-tomado. E quando chego lá, mesmo meio enjoada daquilo tudo e faço aquela brincadeira que faz todo mundo rir pra descontrair, sei que o resto do dia vai ser mais bonito.

Na hora do almoço, daquela comida de sempre, quando resolvo que comeremos alguma coisa que esperamos pra comer aos domingos ou nos dias em que recebemos o salário, e tomamos uma tacinha de vinho escondido pra relembrar como o proibido moderado pode ser gostoso e que faz toda a diferença, a beleza se revela gratuita.

Se eu passar no sebo no final da tarde e ganhar 3 horas fuçando livros e perder 40 reais levando-os pra casa barganhando preços ou pré-datando um cheque, ou se eu encontrar aquela raridade do Guimarães Rosa recém-chegada que ainda nem colocaram preço e está em cima do balcão...será lindo, tão lindo.


Quando eu voltar pra casa, se eu me abandonar meia horinha na cama sem pensar em nada, olhando pro teto, sem tirar a roupa do trabalho, sem me preocupar com a arrumação do quarto ou qualquer coisa desse tipo só pra apertar o play daquele CD que já estava rolando antes de sair cedo, o refrão pela metade, escutando atentamente, sentindo cada acorde daquela musiquinha que penetra todos os ambientes da minha casa e da minha alma, sei que a beleza do resto do dia está garantida.

Depois tomar aquele banho demorado, usar o óleo delicioso ou o hidratante perfumado, a camisola de cetim limpinha... Ligar o computador , ter as palavras arreganhadas escorrendo pelos dedos no teclado até sentir que é isso, que tá pronto, ler aquele e-mail do amigo saudoso, mandar outro mais saudoso ainda e gostar tanto da minha vida assim, com meu coração sossegado, escolhendo minhas surpresas e sentindo aquele sono na hora em que sei que vai me permitir acordar super bem no dia seguinte...ou receber o telefonema convidando a transgredir e cair no samba pra chegar de madrugada e acordar na mesma hora de sempre, ressaqueada, sonolenta e feliz...não importa.

Sei que o dia será mais bonito quando lembro de determinar certas coisas, como fazer do cansaço um cantinho de silêncio e repouso pra dormir pesado e do edredon o abraço mais caloroso enrolando o meu corpo com cuidado dentro dele pra que tudo pareça afago, conforto, aconchego. Quando me proponho a melhorar os ambientes por onde passo ou, pelo menos, me predisponho a estar bem dentro deles.Quando me permito transgredir sem culpas, sem dramas.

Gosto de saber que a minha criatividade serve, principalmente, para arranjar outras alternativas e driblar meu fastio, minhas angústias, meus conflitos, amenizar minhas crises e fazer dos meus dias invejavelmente deliciosos: desses que tornam uma autobiografia bem mais gostosa de ser escrita ou mais propensa à censura...;-)


(Marla de Queiroz)



terça-feira, julho 18, 2006

"Eterno Retorno do Mesmo"



O toque inusitado do telefone mudo há tempos, rasgou o meu dia em duas metades.E, de repente, alguma coisa densa se instalou no ar viciado dessas janelas fechadas do meu quarto.Não era um peso, era a saudade avolumando os resquícios de vento.Era pra ser bom, mas não como antes. Tinha calor, mas dessa vez vinha com mais ternura, sem tanta força_ pra mexer na ferida propondo curas e falar de coisas tristes num tom saudável.A voz mansa do outro lado me convidava pro antigamente.Mas eu com a surpresa dele entulhando a minha voz de sustos, só conseguia respirar fundo no início.

Não declamou poemas dessa vez, mas desatou em mim um monte deles, como sempre. E fui dormir mesmo sem sono, porque somente nos meus sonhos a nossa história acaba bem.

(Marla de Queiroz)

segunda-feira, julho 17, 2006

Pra compartilhar


Foto:David Marcos Vazquez

Tudo foi especialmente bonito, inclusive o cenário: os dias estavam irretocáveis mesmo no inverno. Corei as bochechas no sol pra depois vestir branco e casaco colorido e me proteger da agulha fria do vento_ eu parecia uma borboleta com asas patchwork.
Especialmente bonito também foi o momento em que o assunto se estendeu até alcançar a raiz das minhas palavras e desenterrar uma história antiga pra sanar uma curiosidade alheia e curar uma ferida minha. Então vieram as flores em cima da mesinha do computador com a carta mais doce que dizia:


“ Abriste teu mundo pra mim com tamanha doação...Continuo vendo que não és uma privilegiada e, sim, uma buscadora de tons novos para tua caminhada. Teu colorido encanta, essas flores são ‘vermelho-marla’, vermelho para combinar com todo amor que é teu...e de mais ninguém...”

Tomei um banho quente de 25 minutos, lavei cuidadosamente os cabelos e aproveitei pra chorar... É que tem cores novas que surgem na minha vida e que por falta de alguma ousadia em saber simplesmente aceitar, choro pra aprender a receber sem tentar retribuir imediatamente. Eu fico constrangida com presentes muito grandes porque me desmantelam, me deixam mole, derretida, vulnerável.
O que ficou disso tudo além da beleza, foi a promessa de que abrirei meu coração pra essa coisa que evito por ser desconhecida, assustadora e necessária.

E nem quero pensar na solidão desses meus primeiros passos.

(Marla de Queiroz)

Que a semana comece bem pra todos nós. Que as experiências nos alarguem por dentro e nos melhorem...sempre. E que haja alegria. E serenidade quando houver dor.Porque isso tudo é só uma parte do processo.Desse eterno processo. Não percam o foco, nem a esperança. A meteorologia nem sempre está certa.

domingo, julho 16, 2006

Da amizade.


Foto: Isah

Eu sei dos meus privilégios.Convivo muito bem com a minha solitude porque, quando estou acompanhada como hoje, num sábado de sol com vento numa praia quase vazia,sou nutrida pelo mais delicado e intenso amor. Eu queria muito que vocês pudessem ver o que acontece quando os meus amigos aparecem pra conversar me olhando nos olhos: a gente se declara, se emociona. A gente se toca com uma profundidade de esquentar o coração e fica quase sem entender o que está acontecendo naquele momento que é de pura adoração.E a gente fala muito, elaborando cuidadosamente as frases que explicitam o nosso amor.Emanando poesia.Porque a gente tem um cuidado enorme com essa coisa especial que nos aconteceu. A gente sabe que não se economiza amor nem elogios.

Eu queria que vocês vissem como fico bonita nesses olhares que me fitam sinceramente.Eu queria que vocês vissem como são bonitos os que me cercam. Eu queria que vocês pudessem ser tocados assim: com fundura,naquilo que a gente tem de mais lapidado e que não esperou uma ocasião mais apropriada pra compartilhar porque é gratuito e emerge súbita e naturalmente...


Sabe quando amanhece e era pra ser só mais um dia de praia e esse dia vem recheado de coisas tão grandiosas que você precisa de ajuda pra sentir? Espero que saibam. Eu não conheço sensação melhor.

(P.S.:Ângela, Kátia, Marina, Letícia, André e Jordana, vocês trazem à tona o que tenho de mais genuíno,de mais autêntico. E eu adoro ser quem eu sou quando estou com vocês).



sábado, julho 15, 2006

Trecho de um diálogo.




Foto: Jana Perrone Machado

PARADA CARDÍACA
(Paulo Leminski)

Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.

Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

*

_Se é verdade o que te digo?

_São as minhas "meias-verdades" mais sinceras...

(Marla de Queiroz)


sexta-feira, julho 14, 2006

DE-LÍRIOS...


Foto: Graça

Eis que novamente surge aquela fome doida de ti. O apetite súbito que intumesce o sexo e abarrota o corpo de hormônios safados. Uma vontade atroz de tê-lo entre os braços, coxas, seios, entrelinhas, entre as flores do meu vestido pela metade do corpo. A saudade de nós dois entre tantos copos , nossos corpos tontos e ensandecidos pela febre que nos deixa afoitos e quase aflitos, mas que não nos apressa. A querência tão familiar e sempre inédita.


E me recordo de quando te recebo e acolho dentro: no espaço febril do meu ventre onde nem eu tenho acesso, e que você transita com a naturalidade de quem passeia pelo próprio quarto...

E novamente surge essa fome doida de ti nessa cama cheia de nós, dos nossos laços e do espaço que sobra, entrelaçados que ficamos entre os lençóis. E a vontade de flutuar pelos ares, nos teus braços, esquecendo até que tenho medo de altura......


Porque nesse encontro do seu corpo com o meu desejo e do seu desejo com o meu corpo, há essa explosão: DE-LÍRIOS.

(Marla de Queiroz)

P.S.: Esse foi um dos primeiros textos que publiquei neste blog, mas ele combina tanto com essa Lua Cheia e com o meu estado de espírito nessa fase que resolvi trazê-lo aqui pra cima...

P.S.2: Final-de-semana chegando....Lembrem-se: em alguns aspectos, juízo é tudo que nos atrapalha.
*
*
*

quinta-feira, julho 13, 2006

Belezuras catadas na fala de Felipe...


Marla diz:
Você é o poeta das palavras invisíveis. Um canceriano dramático completamente influenciado pela lua cheia desse inverno...

Felipe diz:
E você sabe como soul e despluga minha guitarra!!!

P.S.: Nós dois num desses momentos boêmios que não têm preço porque o boteco fuleiro não aceita Mastercard...


*

quarta-feira, julho 12, 2006

Um história breve...ou página arrancada de um diário antigo.


Foto:Pedro Flávio

Esse é o início de uma história breve. Terminada. Resumida em tudo. Bem pequenininha.Uma história comum, mas brutalizada pelas palavras. Uma história desencontrada que sucumbiu antes do tempo, antes de tudo.
Essa é quase uma história de amor...dentro de uma página em branco.

Quando ele apareceu foi tomada por uma alegria tão desconhecida que pensou que era amor. Quando ele mergulhou dentro dela pela primeira vez, tinham um mar atrás de si e uma lua gorda, precipitada no final da tarde.O barulho das ondas imitavam trovões e o vermelho-poente esparramava luxúria em seus corpos.Seus dedos entrelaçados afundaram na areia durante o mais comprido gozo.E a mesma felicidade que os despira, também os agasalhara naquele fiapo de noite...

Mas, num dia estragado, ele saiu com passos lentos e largos: deixou pra trás a silhueta dos prédios na diagonal, um resto de sol no mar, a areia suja, alguém correndo lá longe... Foi deixando um cheiro, uma lacuna, saudade por todos os cantos e uma dor oceânica atrás dele pra mergulhar no horizonte seco e calmo. Foi embora deixando a paisagem intacta e alguém despedaçado, com os olhos marejados, contemplando ondas que quebravam violentas _como seus seios estiveram um dia... na boca dele.
"Foi pra bem longe...", pensou... "pra bem longe de todas as minhas pretensões."

Bsb, 2001

(Marla de Queiroz)

terça-feira, julho 11, 2006

Trechos de um diário abandonado 2


Foto:Augusto Peixoto

P.,
(...)E esse diário que não é antigo, mas abandonado. Ficou ali num canto, interrompido bruscamente, no meio não de uma frase, mas de uma palavra, como tudo que ficou pelo caminho relatado dentro dele. Parei porque as minhas frases perderam o ritmo da respiração e restou um grande sufoco .Coisas que eu tentava aliviar com os vários e vários suspiros profundos, a mão no peito. Era um grito abafado. Era dor pungente. Uma angústia latejando de um amor(?) cheio de farpas.Uma vontade de você tão violenta que me deixava trêmula e tola. Ficava tão nervosa contigo ao meu lado que esquecia de ser interessante... e os meus comentários eram sempre sem consistência e o meu humor infantil e bobo... Depois a tentativa de perdoar a mim mesma por tudo: por ter me apaixonado, por não ter te seduzido o bastante, por não conseguir esquecer e, agora, por te dizer essas coisas todas. Mas precisava me livrar disso, sei que precisava (...)

Marla de Queiroz

segunda-feira, julho 10, 2006

Trechos de um diário abandonado...


Foto: Helena

P.,

(...)Ainda adoro você. Não sei por quê. Talvez seja porque o seu olhar me fazia dançar melhor. Ou porque ninguém mais me chegou com um cheiro adocicado no meio da tarde ensolarada, em harmonia com todos os azuis(...)E, atrás dos seus passos largos,no jardim de insônia que você deixou, foi onde melhor escrevi as minhas saudades. Hoje, debaixo do sol e com o mar ao fundo, ainda é por você que eu espero.E se eu pudesse dizer tudo o que já escrevi e calei, seria com uma voz mansa e aveludada: sem os suspiros de horror do início, mas com o mesmo desejo, embora um pouco mais sossegado com o tempo. Tempo que só encheu de poeira sem conseguir apagar(...)

Marla de Queiroz
RJ, 2002.

*(“Terminar é como morrer devagar, sem ninguém por perto”).

* Fernanda Young

sábado, julho 08, 2006

Pergunta


Foto:Nuno Direitinho

Por que esperei tanto tempo se já me sentia pronta?
Porque sou fruta madura que só cai em solos
que tenham melodias harmônicas...
(Marla de Queiroz)

sexta-feira, julho 07, 2006

Resposta à proposta


Foto: Karula


Eu respondi que, intuitivamente, me enfeitei toda pro amor que ele preparou pra mim. Que se ele plantar sementes no meu ventre nascerão crisântemos, gérberas, tulipas, orquídeas,lírios e algum poema inédito.
Que sempre que ele tocar a minha pele com aquela boca carnuda, eu vou me amoldar ao seu corpo feito água no jarro ou me enrolar feito serpente. E que enquanto estivermos de mãos dadas caminhando pelo lado mais ensolarado do dia, nós habitaremos no Eterno.

(Porque coisas assim me fazem acordar, todos os dias, a mulher mais adorável do mundo).


Marla de Queiroz

P.S.: Resposta ao post abaixo.

quinta-feira, julho 06, 2006

Proposta


Foto: Márcio Alves


Ele disse que preparou esse amor pra ser meu. Quer que eu viva com ele de parir poesia e filhos com nome de flor. Prometeu que quando tocar a minha pele com aquela boca vermelha cheia de carne, vai desabotoar meus sentimentos até me deixar mansa e desajuizada. E que enquanto estivermos de mãos dadas, sempre caminharemos pelo lado mais ensolarado do dia...

(Marla de Queiroz)

quarta-feira, julho 05, 2006

Uma forma de olhar...


O OLHAR
(Manoel de Barros)

Ele era um andarilho.
Ele tinha um olhar cheio de sol
de águas
de árvores
de aves.
Ao passar pela Aldeia
Ele sempre me pareceu a liberdade em trapos.
O silêncio honrava a sua vida.
*
*
*
Essa tempestade, meu amor, é só uma chuva que desabrochou...
(Marla de Queiroz)

segunda-feira, julho 03, 2006

Rio de Janeiro, Brasília...Saudades.



Porque eu adoro escrever na praia que quando tento descrever um dia muito azul digo:
"céu e mar se emendavam..."
Se eu ainda morasse no cerrado, certamente diria:

"este céu amanheceu azul assim só pra destacar o amarelinho daquele ipê..."

( E quando volto do mergulho lambendo o sal dos lábios, sempre lembro que de onde eu venho a água é doce, doce...)

P.S.: Este post nasceu de um texto lindo que a Bela escreveu falando dos ipês de Brasília...Fiquei toda saudosa...

sexta-feira, junho 30, 2006

Flor de Cacto

Foto: Maria Ivone Ferreira

“ A bem dizer, ele pouco falasse. Se via que estava apreciando o ar do tempo, calado e sabido, e tudo nele era segurança em si. Eu queria que ele gostasse de mim...”

(Guimarães Rosa_ “ Grande Sertão: Veredas” )

Ele é mais contido, cuidadoso nos gestos, fala pouco e quase não se derrama.
Às vezes a olha cheio de encantamento e, prestes a pronunciar a tal frase de impacto, desiste no primeiro impulso do momento exato.
E quando sai de órbita, escreve um poema sem título.
Ela é doce e ardente, esparramada na fala, exagerada no toque.
E todos os dias negocia com a maneira que ele tem de demonstrar afeto_ nunca é o suficiente.
E do poema inteiro, só presta atenção no título ausente...
Dentro de tantas expectativas, eles seguem se amando desajeitadamente:
Ele de um jeito delicado porque não precisa dela...
Ela, com tantas carências, pensa que o ama loucamente.

(Marla de Queiroz)

*


quarta-feira, junho 28, 2006

Brasil e Ghana...com um pouco mais de emoção e erotismo!


Designers

Para minha amiga linda Juliana Varga que foi sorteada pelo Mastercard e está assistindo aos jogos na Alemanha...

Aquecimento...Eles correm no campo, as mãos dele descobrem meu corpo com a destreza que eles têm pra conduzir a bola com os pés, um giro, um drible, estou sem fôlego, ele me pega com força, estão na nossa área, talvez um chute a gol, ele enrola meu cabelo na mão, o goleiro defende, puxa-os pra trás com uma violência delicada, não machuca, foi só um susto, tiro de meta...

Um, dois gols, quero mais. Ele também. Ninguém se contenta com o gozo de dois gritos apenas, podemos muito.Quero tudo em absoluto, Freud explica, Parreira irrita.Os estampidos de champagnes sendo abertas no meu ventre e o líquido espesso borbulhando no látex...Um gole na cerveja e voltamos pro beijo: o tempo urge, a vida é curta e eu quero o HEXA...Você também?Talvez tenhamos um pouco mais de pressa nesses quarenta e cinco do primeiro tempo, mas gosto da precaução...

Não mudei de titular, os brasileiros reclamam do técnico, adoro sua técnica de tocar no canto certo, de finalizar bem os escanteios. A taça do mundo é nossa, cansados todos, suados e felizes...exausta e mole,agora é só correr pro abraço...Quase saciada e rouca...Oba! Segundo tempo?
Reclamam do toque de mão, eu não. Gosto do jeito que ele toca,pareço um instrumento; desconheço a combinação das notas e as regras do impedimento. Cartão amarelo pra quem? Deixa pra lá, é pro time adversário,tomara que seja expulso enquanto eu vibro em vermelho.
Abre aqui pela direita, FALTA (!), ia meter pela linha de fundo mas preferiu se posicionar na frente.........Falta é criatividade nesse meio de campo, aqui não...Acabem com Ghana, acabe-com-essa-minha-gana!!!Mor-DIDA SALVA OUTRA VEZ!!!!!!!!Que reflexo!!!!O rebote é nosso, a enfiada no meio de campo é sua e lá vem a oportunidade de mais um GOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLL!!!!!Eles correm pro abraço, eu permaneço no seu...
Recomeça a partida, a nossa defesa retoma o lance, posição de perigo, alguém se adianta, lançamento pela linha de fundo......... IMPEDIMENTO!!! Haja coração!.....Soa o apito, toca aqui, toca ali, “que posição legal!” , olho no lance que os meus estão fechados, agora o mérito é do triângulo mágico: “a conseqüência de jogar com gana é muito contato físico!” e o narrador conclui: “o problema é na defesa....” Concordo, as minhas estão todas abertas...
Pronta pra enfiada de bola... olha lá: "na TRAAAVE!!! O espaço é estreito com uma goleira dessas!"
Jogo suado, sofrido, mas muito boa a atuação da equipe e esse seu espetáculo particular.......

Próximo jogo: na minha casa ou na sua?

Resultado: Brasil três pra zerar essa gana_ próxima partida rumo ao HEXA!

Obs: Demitindo Galvão ou a sugerindo uma narração mais emocionante.

terça-feira, junho 27, 2006

Despedida.


Foto: Cláudia Barbosa

Para Grazi.

"...Agora é de novo madrugada.
Mas ao amanhecer eu penso que nós somos os contemporâneos do dia seguinte.
Que o Deus me ajude: estou perdida.
Preciso terrivelmente de você.
Nós temos que ser dois para que o trigo fique alto.
Estou tão grave que vou parar _
Nasci há alguns instantes e estou ofuscada
Os cristais tilintam e faíscam
O trigo está maduro: o pão é repartido
Mas repartido com doçura?É importante saber
Não penso, assim como o diamante não pensa
Brilho toda límpida
Não tenho fome nem sede: sou
Tenho dois olhos que estão abertos
Para o nada
Para o teto
Vou fazer um adágio
Leia devagar e com paz
É um largo afresco.
Nascer é assim:
Os girassóis lentamente viram suas corolas para o sol
O trigo está maduro
O pão é com doçura que se come
Meu impulso se liga ao das raízes das árvores..."
(Clarice Lispector)

Quando ele foi embora não se despediram.Juntou silenciosamente um punhado de coisas e saiu enquanto ela fingia o mais profundo dos sonos. Seu corpo ainda estava quente e nu, sua doçura adormecida e sua alma deserta...
Nem quis olhá-lo fechando a porta para não ser promovida pelo desespero.

(Marla de Queiroz)

segunda-feira, junho 26, 2006

" Algo Teu"

Foto: Helena

Tem jeito não. A lembrança dele me arranca o sono nas madrugadas com a urgência de quem quer o amor mal-feito mesmo, quando eu só precisava descansar da violência das minhas fomes_ daí eu ter posto musiquinha triste pra embalar meu sono.Mas ele me conhece e me acorda assustada com diálogos internos, imaginários ou não,e entra no meu sonho com nome e sobrenome falando das nossas questões mais truncadas com a clareza que eu precisava ao vivo e que não tive. E tudo pela demanda da sua vaidade. Se o que eu queria contar sobre nós dois eu nunca pude, porque não me deixar em paz com a caneta repousada no bloco de papel ao lado? Mas não, ele insiste em me entristecer inutilmente. Invade meus sonhos, bagunça meus planos de viver uma história possível e desanda meus sentimentos já tão enfileirados pro moço que me quer mais que tudo nesse mundo. E ele sussurra, quase que em carne e osso, as palavras mais levianas no meu ouvido.Eu fico esquisita: tem amor tão bonito dentro de mim que não consigo dar ao outro nem desperdiçar com ele. Fico abundante de coisa pra compartilhar sem poder ou querer, e aí é que tudo se complica:

Volto a dormir neste inverno, agasalhada só na saudade, com essa melodia triste, nessa madrugada fria...

sexta-feira, junho 23, 2006

Dica.


Foto: Carlos Sillero

Se você tentar dizer as coisas como eu as digo, isso vai virar um eco insuportável e eu só vou conseguir carecer da tua voz...( Não espero receber textos iguais aos que escrevo).
Eu só quero esta paisagem, os sentimentos desamarrados, um traço firme do teu desenho, uma nota bem tocada no teu contrabaixo, esse beijo bom, teu melhor pedaço de pizza e esse tempo que sobra pra sentir saudade das SUAS especialidades...
Enquanto isso, eu fuço minha memória, bolino a palavra e desenrolo meus textos só pra revisitar cada milímetro da tua pele...

(Marla de Queiroz)

P.S.: Coisa mais linda que o Luiz Antônio Gusmão me explicou, quero compartilhar com vocês:

"bellis lepdoptera perennis":
A tradução, explicação que me pediu: o nome científico da margarida é " bellis perenis" - beleza perene, duradoura, sempre-viva. "lepidoptera" é a ordem à qual pertencem as borboletas. Fiz uma mistura e deu um nome cheio de sílabas labiais, como que pra evocar um leve bater de asas. ; )

quinta-feira, junho 22, 2006

Marlarida


Eu só quero tirar o tom solene que emprego nas coisas tristes e descansar dos meus desamparos para recapitular cada átimo de segundo das milhares de vezes em que fui amplamente acariciada. Quero ser espectadora dos meus extremos e direcionar o meu vulcão interno pra devastação de um lugar em que, depois da destruição, possa haver um vasto reflorestamento. Não quero intimidar com a minha energia nem assustar com o que há de mais frágil em mim. Quero observar sossegada que o orvalho ainda não é chuva e que nem sempre o sol afasta o frio. Que pra luz ser boa ou a sombra inadequada, como numa foto, vai depender da imagem que eu quero reter...

Sei que morar numa cidade grande onde todo mundo vive tão apressado, pode fazer com que a gente se sinta mais carente que eterno.E assim como a solidão pode ser compartilhável ,amar alguém pode ser algo muito mais solitário...Mas só insiste em tropeçar nos próprios passos quem ainda não tem asas...
E eu sou uma MARLArida que virou BorboLETRA!

;-)

(Marla de Queiroz)

*

terça-feira, junho 20, 2006

Sobre o beijo.


Mas o nosso beijo não é só a boca dele se desmanchando na minha, não. Primeiro ele segura meu rosto com as duas mãos, afasta meu cabelo do olho e vai contornando os meus lábios com os dele até desenhar um coração. Depois se demora mordiscando a minha boca oferecida como a uma fruta suculenta e madura. E me olha fundo... mergulhado... bem dentro do meu olhar castanho amolecido....

E as nossas escuridões é que se beijam.

segunda-feira, junho 19, 2006

Clave de Fá...

Foto:Rick X

Teve que ser suave e lento e chegar com calma, falando macio, tocando aos poucos.
Teve que ser leve, lúdico, aconchegante e ensinar algo que eu não sabia.
Teve que ter um abraço grande, um beijo intenso, arriscar um passo de dança e escancarar no sorriso.
Teve que ser sábio e estar sóbrio.
Teve que ser debaixo de um céu indefectível com planetas que imitavam estrelas.
Teve que falar de claves, signos, sonhos e desapegos.
Teve que deixar meu corpo se afundar no dele.
Teve que ser uma brasa doce...


Eu só queria que fosse bom, e foi incrível.

*

*

(Marla de Queiroz)

quinta-feira, junho 15, 2006

Véspera


Foto: Francisco Capelo

Quando você vier haverá o encontro da sua busca com a minha espera.
E o seu abraço será a moldura do meu corpo.
E a minha boca o pretexto para o seu mais demorado beijo.
E a gente vai brincar de se desmaterializar dentro da música,
de desatar auroras,
de escrever poemas de orvalho...
E eu vou inventar uma madrugada eterna pra quando você tiver que ir embora no dia seguinte.
E você vai inventar um domingo que vai durar pra sempre porque tenho preguiça das segundas-feiras.
E a gente vai rir dessa maldade da demora do tempo pra fazer essa brincadeira de desencontro:
quase nos deixou descrentes...
A gente vai rir dessa maldade porque o nosso amor será a coisa mais bonitinha do mundo...
(Marla de Queiroz)

domingo, junho 11, 2006

Crônica de desamor

Foto: Zé Mário Passos

Passei a manhã tentando esboçar um sentimento por você porque ainda não entendi como funcionam as coisas entre a gente. Entre o querer e a repulsa, suas mãos passeando ansiosas pelo meu corpo, minha boca rejeitando a sua e, no entanto, queremos estar ali, lado a lado, tecendo calores e dúvidas num eterno coito interrompido.E quanto mais você fica mais eu preciso estar só e tranco a porta e o corpo e fico tentando entender esses esboços que eu criei pra enfiar você nos meus dias, essa nuvem densa atravessada nos meus olhos, esse carinho que mais me deixa agoniada que nutrida....Essa saudade extraviada....

Eu sempre estive só e não queria, deixei você se enfiar por entre medos e se instalar num ninho de culpas e denso silêncio que trago por dentro.Agora te rejeito de um jeito e não consigo te abandonar e você, sem querer, vai embora temporariamente só pra me obedecer, mas sofre amarrado aos meus insultos, todo inclinado pro drama e pro desespero e eu não querendo e você estando, cada vez mais atencioso, cada vez mais inseguro, mais carente, mais agarrado à minha cintura, querendo se enfiar entre meus dedos, tão disponível, plantado na palma da minha mão. Fico triste com a capacidade de coisas que tenho coragem de fazer pra te ver chorar.
Porque te sei previsível e pressinto a importância do meu desafeto na narrativa que você criou pra sua vida. E faço questão de confirmar sua descrença e quando penso que você cansou, continua tentando roubar o melhor dos meus verbos, me conjugar num tempo certo quando nem estamos próximos, embora lado a lado...

Não deixei você me penetrar, me tocar por dentro, nem fazer parte da lista de coisas que mais gosto de fazer por mim.Fico inquieta com sua presença, mas preciso SIM da sua resignação e dessa sua falta de amor próprio quando volto pra casa assustada porque tudo deu errado naquele dia...Entenda sobre a minha falta de novidade, de perspectiva, dessa prótese que você se tornou e de como a minha autoflagelação pode ser menos dolorosa já que não consigo me livrar desse sufoco , dessa mania de auto-agressão, já não consigo aceitar a amplidão do quarto vazio, da cama espaçosa.É como um pacto com o vácuo.

(Você não passa de uma metáfora errada que usei pra rasurar o texto, pra enfeitar meu egoísmo, pra insuflar meu ego).

Mas não há desistência de ambas as partes. Você sobrevive de migalhas, viciado que está em maus tratos, convivendo bem com as minhas crueldades e, na sua doença, compactuando com a minha.

Seguiremos juntos até que alguma espécie de amor nos separe.
*
(Marla de Queiroz)
P.S.: Texto baseado em fatos (alheios) reais...Tantos, tantos.
*
*
*

quinta-feira, junho 08, 2006

Notícias minhas...


Ainda que as mudanças sejam lentas e quase imperceptíveis, elas estão ocorrendo...Percebo isso numa inquietação minha em mudar o cabelo, experimentar outro estilo de roupa, escolher lingeries com cores mais alegres... Tenho falado mais manso, dito “não” com mais tranqüilidade quando acho que é o melhor a ser feito no momento...Até praia que antes era um imperativo nos dias de sol, posso recusar se eu achar que dormir até mais tarde ou ficar simplesmente enrolada no edredon feito um charutinho vai me dar mais prazer...Deixar um livro de lado e ver um filme atrás do outro...Abrir mão de uma dieta e comer um doce bom depois do almoço, topar o chope recheado de papos bons com um amigo em plena segunda-feira para que ela fique mais plena ainda...Não responder um e-mail imediatamente porque prefiro escrever algo mais elaborado ...Ser delicada com quem me irrita só pra desconcertar...Nada de muito especial tem me acontecido, tudo tem se movido sem qualquer fiapo de alvoroço ou paixão...Tenho cumprido as tarefas cotidianas, tenho dormido só nas horas em que caio de sono, tenho escrito recadinhos breves com palavras doces pra algumas pessoas só pra fazer um afago simples e não tenho me magoado com silêncios, solitudes e ausências...Às vezes faço uma bijouteria pra exercitar meu lado criativo...E construo frases sem sentido só pra ampliar minhas vivências...E salpico lavanda sobre os lençóis antes de dormir pra acordar recendendo a flores...Não tenho sentido falta do amor romântico, nem de nada que me tire o fôlego...E, embora eu possa me sentir entediada com a aparente falta de novidades, volto a pé do trabalho, pela orla, vendo o mar e prestando atenção nessas tardes frescas quase frias atravessadas por filetes de sol ameno sendo lindamente iluminadas...Vez ou outra esses filetes me atravessam também e meus cabelos explodem em cores incríveis...E continuo andando, indo, indo calmamente como um poente que sorri timidamente...

Caminhando dentro da paisagem, sou simplesmente uma pessoa em meio à multidão, mas toda em tons degradês...

;-)

(Marla de Queiroz)

quinta-feira, junho 01, 2006

Cafuné...



Foto:Marília Campos

Seus dedos
percorrendo a minha nuca
abrem fendas
nos lugares mais improváveis
do meu corpo
e a água
brota da minha boca
como a nascente do desejo
*
*
(Marla de Queiroz)
*
" Ela era simples e mulher, e ele podia rir dela_e como outra forma de rir, ele pela primeira vez acariciou seu rosto, afastou com muita delicadeza a espécie de bandóis entrançados que lhe emolduravam a cara fina. E a cara que apareceu, despida e forte, fê-lo de súbito retirar as mãos como se ele tivesse pisado sem querer no rabo de um bicho."
*
Ainda:
*
" E se não tinha ação, tinha o grande amor.Um homem podia não saber nada; mas sabia como se virar, por exemplo, para o lado do poente:um homem tinha o grande recurso da altitude. Se não tivesse medo de ser mudo."
( " A Maçã no Escuro"_ Clarice Lispector)
*

sexta-feira, maio 26, 2006

Uma história de tanto amor...


Foto: Pedro

Para Lua Leça.

Minha Menina desata a brisa e contorna o vento e dissolve da paisagem o nublado pra me incendiar do sol que eu preciso, pra me adornar com cores, pra me adereçar com brilho. Minha Lua Particular contém todos os banhos de mar que me permiti e todo alívio de apertos no peito que me assaltaram. Ela me traz de volta num abraço com o encaixe mais perfeito que já houve...Tudo que há entre nós contém calor e renova e fertiliza e compõe a minha vida. E essa morenice dela é cheia de detalhes, de profundidades e desses abraços que me enfeitam e acalmam.
E quando estou bem quieta, afundadinha numa cadeira, nem me pergunta o por quê, apenas encaixa sua cabeça no meu pescoço com toda a força da sensibilidade que ela tem pra me energizar respeitando profundamente o meu silêncio. E me chama pra dormir junto, oferece vinho, colo e conversas longas e o cheirinho aconchegante da sua casa e beija meus olhos úmidos segurando meu rosto com aquelas mãozinhas de cura... Ninguém soube com tanta eficácia transformar em tranqüilidade esses nós que às vezes ficam presos na minha garganta.
E é por ser minha Lua Particular cheinha de Mel, que saímos por aí de mãos dadas: conjugando flores, declamando ventos,desmembrando palavras,descosturando estrelas, ...


Nem um poeta teria uma vida tão marlavilhosamente lírica.

*
*
(Marla de Queiroz)

quarta-feira, maio 24, 2006

REFORMAS


Foto:Ilana Lerner

Estou reformando minha casa enquanto a inspiração tira férias.
Não quero postar aqui textos empoeirados de gavetas antigas
nem catar palavras nos escombros das minhas angústias.
Quero reformular meus espaços, ampliar meu ambiente interno
e preparar o meu ventre para o poema novo...
Não quero a palavra precipitada nem a repetição dos fatos.
Estou mudando a casa de sentimento, abrindo as cortinas
para o sol e para o vento que passeia entre as coisas
renovando.
(Quero água limpa pra regar minhas flores).
Vou escrever dentro de outro tempo, em outro ritmo
até que o poema me contemple novamente
com afeto e vire feto
até que se torne nova-mente um novo-amante
até que desabroche em meu ventre.

(Porque é preciso paciência, dedicação e uma espécie de delicadeza
para se parir uma coisa viva.)

Vou demolir minha casa para esculpir minuciosamente o duradouro ...
Cansei de morar eternamente no efêmero...
*
*
*

(Marla de Queiroz)

terça-feira, maio 23, 2006

segunda-feira, maio 22, 2006

Minguante


Foto:Geoffroy Demarquet


Eu estava com um poema do Drummond no colo
enquanto o mar ao fundo debruçava violento em nenhuma pegada.
Meu corpo tremia com o beijo frio do vento.
O coração confrangido, o soluço no peito.
O ambulante ofereceu brincos, pulseiras, colares:
” Não obrigada, não me enfeito quando estou triste”...,
respondi com a voz embargada e o olhar ensopado de ausências.

*
(Marla de Queiroz)

quinta-feira, maio 18, 2006

Descoberta e Desencanto

Foto: Helena

DESENCONTRO
(Mia Couto)
*
*
Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces
*
(Raiz de Orvalho e outros poemas)

terça-feira, maio 16, 2006

Mais do Mesmo...(trecho de carta)


Foto: Errante

vontade de ficar sozinha
só para saber
se você ia
ou vinha
quando deixou
esse bagaço
no meu peito
pedaço estreito
defeito na mercadoria
do jeito que você queria

(Alice Ruiz)


Se eu fosse escrever pra você,falaria do amor que chega violento nos entupindo de gestos delicados. Falaria de reticências, de inspiração, da poética da saudade e do esquecimento. Da perseguição do poeta pelo que ainda não foi dito: a palavra exata, o lugar onde haja a realização plena da metáfora. Falaria da música que está tocando agora, do cabelo molhado de chuva, da lágrima salgada de mar.Falaria dos olhos cor de folha seca que algumas pessoas têm...

Falaria de como consegui esquecer de coisas que eu julgava inesquecíveis. E como consegui me lembrar de outras irrelevantes por causa de um aroma perdido no ar. Falaria de algumas desilusões também_ das vezes em que chorei um choro compulsivo e sentido esfregando o peito com a palma da mão. Contaria dos medos que tenho, que são muitos. Das pessoas que eu amei e que se foram me deixando com a alegria suspensa, com a solidão de Deus...

Eu falaria do Universo, da dança, da vagina cósmica, do pênis de Zeus, da tragédia de Édipo, da loucura de Medéia, do mito de Sísifo. Do grito rouco dos livros de Clarice Lispector, da barriguinha das rãs de Manoel de Barros, das cores primárias de Miró,das mãos em concha de quem quer receber amor. Do Fernando Pessoa iconoclasta, descrente e filosófico. Da lucidez de Drummond; do que há de mais lúdico em Quintana. Eu falaria da vida também que é a matéria-prima disso tudo...

(Marla de Queiroz)

segunda-feira, maio 15, 2006

Recado

Não consigo imaginar como era o mundo antes das tuas flores nestes muros...Mas as paredes do meu quarto são tristes, tristes: apesar de verdes, nada brota delas....
(Marla de Queiroz)


Foto: Valter Elias

PAIXÃO
De vez em quando
Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos,
não é a bola bonita caminhando
solta no espaço.
(Adélia Prado_Poesia Reunida, p.199.)

sexta-feira, maio 12, 2006

Onírico

Maria Júlia [Maju]
fome e vento sacodem,
sede e fogo me queimam
e eu nado no nada
da tua ausência
_cabeça aérea_
querência
de tuas mãos
etéreas
(e e-ternas.)
Foto: Helena

Você apareceu dentro do meu sonho como a única coisa que compunha aquela estrada tão deserta de tudo... Você me disse solene: “Às vezes, meu amor, um raio de sol é suficiente pra iluminar uma alegria inteira...E as noites de lua cheia nada mais são que dias embrulhados em papel de seda azul...”
*
*
*
( Final-de-semana cheio de propostas incandescentes...Ainda por cima tem essa Lua Cheia deixando loucos todos os meus hormônios sãos...Isso não vai prestar!)
*
(Marla de Queiroz)


quinta-feira, maio 11, 2006

Clarice



" E como um velho que não aprendeu a ler ele mediu a distância que o separava da palavra. E a distância que de repente o separou de si mesmo. Entre o homem e a sua própria nudez haveria algum passo possível a ser dado? (...) E ali estava ele. Que pretendera apenas anotar, nada mais que isto. E cuja inesperada dificuldade era como se ele tivesse tido a presunção de querer transpor em palavras o relance com que dois insetos se fecundam no ar. Mas quem sabe_ perguntou-se então na perfeita escuridão do absurdo_ quem sabe se não é na expressão final que está o nosso modo de transpor os insetos se glorificando no ar(...) Assim, pois, sentado, quieto, Martim falhara. O papel estava em branco..."

( A Maçã no Escuro_ Clarice Lispector)

Foto: Catarina Paramos

VERSO ABSTRATO, POESIA CONCRETA*

Foto: Diogo Sarmento

É dentro do seu quarto, seu mundo provisório, que se inquieta sem querer sair. Faz um rabo-de-cavalo, põe uma roupa velha e lambuza as mãos de tinta ou de cola. Espalha pelo chão recortes de revistas que são mãos e bocas e braços abraçando. É dentro do seu quarto que as palavras lhe interrompem e ela lava as mãos de tinta e corre pra caneta. Nada sai e se agonia. Vai pra sala e busca um livro: lê um pouco mas ainda não é isso.Corre novamente pra caneta e o papel em branco a assusta. Trepa em cima da folha, se sacode toda: nada sai, nem uma moedinha sequer. Senta-se humilde, pedindo à palavra "uma esmolinha peloamordedeus!!!" E alguém de dentro dela abre uma porta e deposita na mão vazia um versinho miserável pro almoço. Tá tão desnutrida que não nega e agradece; como aquilo devagar fingindo que é bom, mas a fome volta em pouco tempo.
E esse quarto vai ficando tão pequeno que recolhe as gravuras espalhadas. De volta às tintas mergulha as duas mãos sentindo a viscosidade na pele como uma espécie de carícia. E é tão bom que fecha os olhos de estremecimento. Lembra do toque daquele moço bonito que ela não diz o nome porque finge que esqueceu. E com os respingos de tinta na calcinha, espalha versos eróticos pelas pernas perdendo a razão e se fazendo de tela com as mãos-pincéis das cores prediletas. Desenha no seu corpo imagens abstratas vestidas de vários azuis e amarelos e vermelhos. Lê na caixinha de tinta "não tóxico" e continua a extravagância. Ao seu lado, o branco repousa imóvel no papel; acha sem-graça e senta em cima. Vai desenhando, sem as mãos, sua bunda, seus joelhos, um seio, a curva tímida da sua cintura. Fica escrita, colorida, no papel.

" Pintei um verso abstrato, falta a poesia concreta", pensou. E termina a cena escrevendo no espaço que sobrou:

A
MA
NHE
CI
PESSOA
EN
TAR
DE
CI
ARCO-ÍRIS...

. (Marla de Queiroz_ Brasília, 2000.)

quarta-feira, maio 10, 2006

"Teclado sem fio"


Foto: Carlos Neto

Comecei a escrever uma história:
Faltam personagens, enredo, cenário, tempo e espaço.
Apenas uma máquina de escrever quebrada ocupa o primeiro ato.
Há, talvez, um título:
" A Incrível e Triste História de um Objeto".


(Marla de Queiroz)

terça-feira, maio 09, 2006

Só Palavras


Foto:Sweetcharade

Cansada das minhas palavras esvaziadas de novidade. Tão as mesmas, tão elas mesmas! Descritivas, saudosas de um dono mais ousado, vestidas de roupa velha nem se enfeitam mais de tão pobrezinhas, as coitadas.
Queria-as adoecidas que fossem, surtadas, caóticas, em movimento...

Queria-as febris e pulsantes, desarvoradas na página, descontroladas de revolta.
Mas há a mesmice. A mesma expressão calma. A indiferença...
Desaprenderam a dizer, perderam o fôlego e o ritmo.
Elas que já me tiraram o sono, repousam sossegadas no silêncio espesso e pegajoso dos meus dedos...Não há sequer angústia, mas cansaço e pena.
Elas que já tiveram vida própria, submetem-se às velhas narrativas e influências;
imitam, plagiam e só. Relatam as mesmas paisagens, dores, alegrias e saudades.Fazem os mesmos elogios. Desejam as mesmas coisas a pessoas diferentes, tão acostumadas e mecânicas que estão.
Elas que já foram beijo, afago, flor.

Elas que já compuseram desabafos e foram insulto e cura.
Elas que já fizeram rir, chorar, que fizeram companhia...
Agora tão enfraquecidas e banais...
Tão repetidas que foram, não fazem mais eco.
Se ainda assim soubessem ir embora, teriam ido...mas emburrecidas aceitam tudo. E seguem compondo só mais um texto, um texto só, solitário...

Cansada das minhas palavras: tão comportadas que dormem cedo...

( TPM da piores, esterilidade literária e uma saudade absurda completamente inoportuna... Já é Lua Cheia???)

Marla de Queiroz

segunda-feira, maio 08, 2006

Carta do Não-Querer


Foto:Alexandre P.

Amou-me um dia como pôde dentro do desconforto de que eu poderia sair por aquela porta até nunca mais. Agarrou-se ao cheiro que deixava no seu edredon verde pra embalar sua insônia.E eu voltava pra pedir chokito de madrugada.Bebeu comigo do vinho que eu gostava, aprendeu a escolhê-los por minha causa.Desejou meia dúzia de amigas minhas pra me fazer ciúmes e nada adiantava.Eu tinha um coração ocupado por uma ausência, eu ainda era toda a espera por alguém ido.

E os dias não se abriam em meu peito, não cabiam neles o seu sol...Mas ele trocou lágrimas por suor e eu permaneci colada ao seu corpo querendo mais e mais do gozo puro e cru. Ele me dava afeto e eu não tinha como expelir nada em mim pra dar. Só tinha vontades de outro alguém, saudades de um outro amor e vontade de me enroscar no seu corpo até cair no sono e esquecer de tudo. E as unhas dos seus lençóis só me prendiam pelas noites, pelas madrugadas afora_ no dia claro eu ia embora com passos largos sem olhar pra trás.

Foi privado do melhor que havia em mim e, com a minha efemeridade, perdeu toda a disposição pro abraço. E quando ele parecia distante, eu voltava fazendo metáforas de chuva, reclamando cartas e longas conversas olhando nos olhos. Fui perdendo a graça com a minha confusão, fui enchendo seu querer de ressentimento e, se antes dançávamos lúdicos, depois ele me tomava nos braços com uma expressão dura e magoada de quem quer ir embora mas não consegue ainda.Não sei até que ponto teve que reunir forças dentro dele quando disse que não me queria mais, mas ele o fez e resistiu até quando pôde.

Nossos encontros tornaram-se escassos e esporádicos, e eu já não podia ligar de madrugada pra falar de lagartixas, planetas, desilusões ou o que quer que fosse. Ele que abria a porta pra eu entrar, trancou-se por dentro e não atendeu mais aos meus pedidos. Resistiu a todas as minhas formas de sedução e a qualquer encanto...

Um dia eu descobri que se soubesse que já gostava dele, teria feito tudo diferente. Teria compartilhado quando só eu recebia. Teria deixado meus olhos brilharem pra ele...
Eu que tinha nele a certeza de um abrigo de paz, de um abraço acolhedor, tive depois um olhar ferido e acusador em minha direção.

Ele que me quis quando eu não o queria, eu que o quero quando já não me quer.
Seguimos assim: desencontrados...

( Texto republicado a pedido da Elenita)

Marla de Queiroz


sábado, maio 06, 2006

Esboço de uma chuva crônica 2


Foto: Marco Paulo
( À maneira de Manoel de Barros)

Ontem a noite choveu agoniada por todos os lados.
A chuva foi botando silêncio no bico dos pássaros, desenhando uma voz para as plantas,
escurecendo a face das pedras.
A vida foi ficando cheia de barulhos líquidos e de palavras fluidas e escorregadias.
E a chuva deixou tudo tão encharcado, que agorinha mesmo, essa crônica goteja verbos:
mais um pouco, era capaz do mar lamber os carros no asfalto e a asinhas fechadas das borboletas.
Penso que dias assim desobedecem a euforia dos que se alimentam de sol;
talvez porque os encontros fiquem mais breves, assim como os azuis
ou porque algumas pessoas se esquecem que é debaixo dessa mesma chuva que nascem alguns encontros...
E algumas flores.
O resultado disso tudo foi Maria ter ido embora , toda salpicada de água doce e antes do combinado, fazendo Bernardo chegar em casa com o abandono deitado no rosto.
Quanto a mim, assistia a tudo pela janela.
Talvez porque quisesse ver vaga-lumes brotando no ar que agora estava fértil:
assim como fazem as estrelas.
Ou porque eu entendesse que em algum lugar, girassóis apareciam...
Porque beberam chuva.

Mas quando a chuva cessou, nossa casa estava alagada de silêncio...
E os nossos vaga-lumes eram lâmpadas acesas.
(Marla de Queiroz)

sexta-feira, maio 05, 2006

Qualquer Coisa


O sol tecendo a manhã e
a música desenhando a minha voz...
Eu cantarolo enquanto ando
pensando em supermercados, praia, festas e alguma desavença.
Tenho lido muito e assimilado muito pouco;
minha memória anda rouca, com falhas no meio da frase.
Quando saio à noite
converso deveras e quase não tenho dançado.
Reduzi minhas saudades ao que posso ter imediatamente
e isto não me tira o tom melancólico vezenquando.
Sou uma pessoa muito feliz,
mas completamente dramática nas horas vagas...
E quando escrevo.
(Marla de Queiroz)

quinta-feira, maio 04, 2006

Da traição...


Foto: Kristinna
Odiou saber que ele se rendeu aos apetites urgentes fazendo em pé a refeição que comumente se faz deitado, tamanha era sua fome desses amores paralelos e levianos....Havia algo sagrado entre os dois que a fazia cumprir o acordo inicial enquanto ele se saciava vorazmente de cada centímetro daquela carne clandestina...
Andava, depois disso, “ruminante como os próprios bois”
embora a raiva que sentisse fosse a de um touro...
(Marla de Queiroz)

quarta-feira, maio 03, 2006

"Ah, Bruta Flor do Querer..."

"Os livros na estante já não têm mais tanta importância
Do muito que eu li, do pouco que eu sei
nada me resta
A não ser a vontade de te encontrar,
o motivo eu já nem sei..."
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Alguma canção ficou e ele queria esquecer.
Não podia.
Havia o cheiro perpétuo em sua memória olfativa.
Havia também a fome inexplicável, mas definida:
Queria-a com urgência
naquele dia outonal amarelecido pela saudade.

(Marla de Queiroz)

segunda-feira, maio 01, 2006

Para ti....


Foto: Kristinna

E se eu não acreditava em mais nada aprendi , pelo menos, a dizer um TALVEZ quando o SIM me pareceu muito ameaçador...Porque sou/estou muito plural pra ser conclusiva....E ainda há pendências...Há UMA pendência.

(Marla de Queiroz)