Foto: Zé Mário PassosPassei a manhã tentando esboçar um sentimento por você porque ainda não entendi como funcionam as coisas entre a gente. Entre o querer e a repulsa, suas mãos passeando ansiosas pelo meu corpo, minha boca rejeitando a sua e, no entanto, queremos estar ali, lado a lado, tecendo calores e dúvidas num eterno coito interrompido.E quanto mais você fica mais eu preciso estar só e tranco a porta e o corpo e fico tentando entender esses esboços que eu criei pra enfiar você nos meus dias, essa nuvem densa atravessada nos meus olhos, esse carinho que mais me deixa agoniada que nutrida....Essa saudade extraviada....
Eu sempre estive só e não queria, deixei você se enfiar por entre medos e se instalar num ninho de culpas e denso silêncio que trago por dentro.Agora te rejeito de um jeito e não consigo te abandonar e você, sem querer, vai embora temporariamente só pra me obedecer, mas sofre amarrado aos meus insultos, todo inclinado pro drama e pro desespero e eu não querendo e você estando, cada vez mais atencioso, cada vez mais inseguro, mais carente, mais agarrado à minha cintura, querendo se enfiar entre meus dedos, tão disponível, plantado na palma da minha mão. Fico triste com a capacidade de coisas que tenho coragem de fazer pra te ver chorar.
Porque te sei previsível e pressinto a importância do meu desafeto na narrativa que você criou pra sua vida. E faço questão de confirmar sua descrença e quando penso que você cansou, continua tentando roubar o melhor dos meus verbos, me conjugar num tempo certo quando nem estamos próximos, embora lado a lado...
Não deixei você me penetrar, me tocar por dentro, nem fazer parte da lista de coisas que mais gosto de fazer por mim.Fico inquieta com sua presença, mas preciso SIM da sua resignação e dessa sua falta de amor próprio quando volto pra casa assustada porque tudo deu errado naquele dia...Entenda sobre a minha falta de novidade, de perspectiva, dessa prótese que você se tornou e de como a minha autoflagelação pode ser menos dolorosa já que não consigo me livrar desse sufoco , dessa mania de auto-agressão, já não consigo aceitar a amplidão do quarto vazio, da cama espaçosa.É como um pacto com o vácuo.
(Você não passa de uma metáfora errada que usei pra rasurar o texto, pra enfeitar meu egoísmo, pra insuflar meu ego).
Mas não há desistência de ambas as partes. Você sobrevive de migalhas, viciado que está em maus tratos, convivendo bem com as minhas crueldades e, na sua doença, compactuando com a minha.
Seguiremos juntos até que alguma espécie de amor nos separe.
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(Marla de Queiroz)
P.S.: Texto baseado em fatos (alheios) reais...Tantos, tantos.***