Foto:isahEu não sabia, mas morava no seu mais profundo segredo
como alguém que rouba uma história que já tem dono.
Tinha cinco pedras na mão quando foi ao meu encontro...
Mas no meio do caminho, tinha uma flor.
(Marla de Queiroz)
Licenças Poéticas, prosa incerta, poesia em linha reta, versos que dançam fora da forma do poema, mas dentro do corpo do poeta.


Foto:isahPorque algumas músicas apertam meu coração numa dorzinha boa, sabe? Aquela saudade de alguma coisa, alguém ou algum lugar que você não conhece?
E ainda este solo de gaita : instrumento dos mais solitários que conheço e que quando faz um solo, assola meu coração num mergulho longe, fundo, num desconhecido tão familiar.
Aquela solitudezinha que me faz cruzar os braços de olhos fechados pra abraçar a mim mesma. Sem tristeza.
O corpo todo reagindo , sob o efeito da harmonia.Um monte de coisas borbulhando por dentro.
E os olhos fechados visualizando as notas numa partitura dançante.
Tudo é movimento e entrega.
E eu caso tão perfeitamente com a música, que quase me transformo num instrumento.
Porque algumas músicas, tiram nossa alma pra dançar.
(P.S.: né, Cassinha?!)
(P.S.2: Escutando Stevie Wonder e Marvin Gaye e etc e tal que minha Borboleta Verde gravou pra mim)
Marla de Queiroz
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(Foi preciso que eu estivesse aberta pro que pudesse doer ou fazer rir. E lembrasse da criatividade que oferece diversas mil outras possibilidades. Foi preciso que eu soubesse seduzir pra poder falar de coisas sérias sem nenhuma sensualidade. Foi preciso, mais do que qualquer coisa, que eu me achasse merecedora da alegria e do amor que estavam disponíveis. Porque ser feliz é um aprendizado).
Eu nunca fiz amigos tentando ser interessante. Todos os amigos mais íntimos que fiz foi porque me interessei verdadeiramente por eles. Me interessei pelo que doía, pelo que o fazia gargalhar, pela forma como banalizava histórias tristes, pelo jeito com que dramatizava fatos aparentemente banais...Todo mundo quando descobre certa receptividade no outro abre seu coração com tamanha generosidade, que fica difícil não fazer o mesmo. Porque a escolha é sempre nossa. A gente se abre, o outro percebe e se abre simultaneamente_ sempre nessa expectativa do encontro. E quando flui, tudo nos parece mágico.Mas depois vem o que fazemos com tanta informação, com aquela confissão, com aquele momento de entrega. É isso que vai solidificar o que quer que tenha começado. E quando isso não é um dom, é um exercício.
Sempre tenho a impressão de que meus amigos têm talento para sê-los. Que são pessoas que nasceram pra essa troca incrível, com esse jeito maravilhoso de encher de sagrado qualquer encontro. Sempre lembro que se fulano (que para mim vive em outro patamar espiritual, emocional, intelectual, etc) me es-colheu, é meu termômetro pra pensar: “vá em frente, você está vibrando na energia certa”!...Isso me faz acreditar mais em mim e a ter vontade de me melhorar diariamente porque sei que o quer que eu faça ou fale, nunca será o suficiente para parar de investir numa relação: o ser humano é dinâmico, está em constante processo de mutação e carecendo de novas trocas.
Com minhas amizades aprendo, inclusive, a me relacionar afetivamente com pessoas mais saudáveis quando reflito: “beltrano, (por quem estou fortemente atraída), seria alguém que eu indicaria para minha melhor amiga ou uma filha?”Quando a resposta é NÃO! O que me fez pensar que seria o melhor para mim???É o tipo de amor que não me deixa estagnar na consciência, mas me leva à ação.
Tudo que eu sou eu devo ao que fui, à minha criação, ao que me doeu longamente, às alegrias que tive, às pessoas que conviveram comigo,aos valores que me passaram e ao que transcendi. Tenho tanta consciência da importância do outro na minha vida que digo que sou viciada em gente: com seus problemas, suas virtudes, sua simplicidade, ou complexidade, com sua disposição pro amor ou a sua dificuldade de. Porque eu sempre vou encontrar casa numa característica, qualidade ou defeito do outro, nem que seja pra rejeitar naquele momento e me sentir superior ou inferior. Tudo é instrumento para que eu me trabalhe quando me deixo vir à tona através das projeções que faço.
Não sou uma pessoa fácil, embora quem me veja, ache que sim. Às vezes me alimento das belezas que as pessoas me dão ou me desprezo quando me rejeitam.Sou exagerada em tudo:oscilo demais, fico melancólica demais, alegre demais, agressiva demais, doce demais, carente ao extremo, independente além da conta. Mas sempre tento estar atenta a minha responsabilidade, a ter o cuidado de dizer ao outro que o processo é meu, o problema é meu ...que ele me trouxe à tona e que às vezes no primeiro impacto isso pode ser assustador. Porque a honestidade sempre salvou as minhas relações e me permitiu ser amada sendo quem eu estava, porque somos o que estamos.
Depois descobri que a gente se desilude com amigos sim, mas que ninguém tem tanta força pra me ferir. Só terá se eu der a ele esse poder. E que quando abraço uma pessoa inteira( porque eu, sinceramente, não consigo abraçar sem entrega), sei que estou trazendo pra minha vida uma pessoa com tudo o que ela tem dentro: seu passado e tudo o mais que a formou além da essência. E acredito tanto na minha intuição e na minha sensibilidade que confio que sempre haverá a troca_ de um jeito torto, truncado ou fluido_ eu só dependo da minha criatividade: com ela eu escolho se usarei meus vazios e minhas decepções pra me lamentar ou como espaços que eu tenho pra crescer ou, ainda, se saberei aceitar amor e confiar simplesmente.
É por isso que críticas podem até me baquear, mas não me desnorteiam e que elogios me nutrem, mas não me envaidecem (mais)...
Porque nunca fiz amigos tentando ser interessante...nem bebendo leite....hahahahahahaha (brincadeira das mais tolas num texto sério como este, mas eu não resisti! Porque é verdade!hahahaha)
Marla de Queiroz



COM-JUNÇÕES
Ainda...
O mesmo senão do quando
Sempre um talvez no tanto
Sempre um por quê no quanto.
Quando...
Da poesia já se sorveu tanto
Há latência da carne enquanto.
Portanto...
Sempre que o começo é o mesmo fim
Quase nunca é tanto
Nenhum tempo é quando.
Contudo...
A febre arde em mim:
Eminência da saudade_ única presença_
Essa ausência acumulada
No entanto.
Embora...
Tudo indique a ferida finda
Há que se cuidar das madrugadas
Que a trazem na insônia
Ainda.
Mas...
Conectados ou conectivos
Sempre surgem conjunções
pra nos dizer que há mais...
(Aliás)
Marla de Queiroz
*(aguardando a parceria do Marcão...)





Foto: Nino Mascardi
Foto:Ugly Capricorniana com ascendente em touro e a lua em escorpião.
Era pra ter os pés plantados na Terra mas a Água dessa tríade me fez ascender a Manoel de Barros, me enamorar por Rosa, traí-lo com Mia e Lispectorar qualquer delicadeza que venha da gravidade dos meus desejos.
(Sou um touro no sentido estrito da falta de razão. Capricórnio que se atira em precipícios. Escorpião que dispensa fogos e artifícios).
Já me deitei com Drummond e acordei com Schopenhauer. Idealizei meus príncipes e os deletei no primeiro capítulo pra me embriagar com um desnorteado plebeu. Já disse "adeus" no auge da minha paixão e me desesperei com o “até mais” daquele moço breve que eu não queria nem no sonho, mas que me pareceu tão mais definitivo quando o disse, que foi quem me rendeu a melhor metáfora.
Eu sei como devorar uma história .Diversas foram as vezes em que escrevi uma carta de amor catando elementos pro poema da despedida. E chorei por não sentir saudade quando escutei PECADO em espanhol, cantado por Caetano, com aquele solo de violoncelo que se parece tanto com uma história tragicamente desencontrada. Que eu esqueci.
(Nenhum final de relacionamento amoroso me deixou mais inquieta do que quando estive longe de casa e senti sono, fome ou frio... vezenquando eu minto quando escrevo!)
Mas alguma coisa em Vênus brilha em meus olhos com suavidade. E faz de mim casta dentro do enorme despudor que tenho... Porque moro nos ventos, danço alegremente durante a mais assustadora tempestade, tenho medo de lagartixas,borboletas amarelas pousam em meu corpo quando encontram segurança, esqueço de regar minhas flores e sou conduzida, induzida e seduzida a viver e a escrever por esse paradoxo que fez casa em meu ser e que eu chamo do mais puro e irremediável amor.
(Mas não sei viver em doses homeopáticas: o calor só me penetra quando arde no que há de mais líquido em mim.)
Marla de Queiroz
Foto: Daniel Camacho Sei que o dia será bonito quando me proponho a acordar mais cedo e vou andando tranqüilamente para o trabalho ,participando da paisagem acordada pelos dourados do sol ameno do inverno_ eu me aventurando pelas ruas como quem passeia dentro de um quadro de Miró. Ou quando inauguro o meu dia chuvoso no ônibus lendo um poema do Manoel de Barros, sentindo ainda o cheiro de xampu nos cabelos do banho recém-tomado. E quando chego lá, mesmo meio enjoada daquilo tudo e faço aquela brincadeira que faz todo mundo rir pra descontrair, sei que o resto do dia vai ser mais bonito.



Foto: Jana Perrone Machado
PARADA CARDÍACA
(Paulo Leminski)
Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.
*
_Se é verdade o que te digo?
_São as minhas "meias-verdades" mais sinceras...
(Marla de Queiroz)








Foto: Maria Ivone Ferreira “ A bem dizer, ele pouco falasse. Se via que estava apreciando o ar do tempo, calado e sabido, e tudo nele era segurança em si. Eu queria que ele gostasse de mim...”
(Guimarães Rosa_ “ Grande Sertão: Veredas” )
Ele é mais contido, cuidadoso nos gestos, fala pouco e quase não se derrama.
Às vezes a olha cheio de encantamento e, prestes a pronunciar a tal frase de impacto, desiste no primeiro impulso do momento exato.
E quando sai de órbita, escreve um poema sem título.
Ela é doce e ardente, esparramada na fala, exagerada no toque.
E todos os dias negocia com a maneira que ele tem de demonstrar afeto_ nunca é o suficiente.E do poema inteiro, só presta atenção no título ausente...
Dentro de tantas expectativas, eles seguem se amando desajeitadamente:
Ele de um jeito delicado porque não precisa dela...
Ela, com tantas carências, pensa que o ama loucamente.
(Marla de Queiroz)
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Foto: Helena Tem jeito não. A lembrança dele me arranca o sono nas madrugadas com a urgência de quem quer o amor mal-feito mesmo, quando eu só precisava descansar da violência das minhas fomes_ daí eu ter posto musiquinha triste pra embalar meu sono.Mas ele me conhece e me acorda assustada com diálogos internos, imaginários ou não,e entra no meu sonho com nome e sobrenome falando das nossas questões mais truncadas com a clareza que eu precisava ao vivo e que não tive. E tudo pela demanda da sua vaidade. Se o que eu queria contar sobre nós dois eu nunca pude, porque não me deixar em paz com a caneta repousada no bloco de papel ao lado? Mas não, ele insiste em me entristecer inutilmente. Invade meus sonhos, bagunça meus planos de viver uma história possível e desanda meus sentimentos já tão enfileirados pro moço que me quer mais que tudo nesse mundo. E ele sussurra, quase que em carne e osso, as palavras mais levianas no meu ouvido.Eu fico esquisita: tem amor tão bonito dentro de mim que não consigo dar ao outro nem desperdiçar com ele. Fico abundante de coisa pra compartilhar sem poder ou querer, e aí é que tudo se complica:
Volto a dormir neste inverno, agasalhada só na saudade, com essa melodia triste, nessa madrugada fria...


Eu só quero tirar o tom solene que emprego nas coisas tristes e descansar dos meus desamparos para recapitular cada átimo de segundo das milhares de vezes em que fui amplamente acariciada. Quero ser espectadora dos meus extremos e direcionar o meu vulcão interno pra devastação de um lugar em que, depois da destruição, possa haver um vasto reflorestamento. Não quero intimidar com a minha energia nem assustar com o que há de mais frágil em mim. Quero observar sossegada que o orvalho ainda não é chuva e que nem sempre o sol afasta o frio. Que pra luz ser boa ou a sombra inadequada, como numa foto, vai depender da imagem que eu quero reter...
Sei que morar numa cidade grande onde todo mundo vive tão apressado, pode fazer com que a gente se sinta mais carente que eterno.E assim como a solidão pode ser compartilhável ,amar alguém pode ser algo muito mais solitário...Mas só insiste em tropeçar nos próprios passos quem ainda não tem asas...
E eu sou uma MARLArida que virou BorboLETRA!
;-)
(Marla de Queiroz)
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Mas o nosso beijo não é só a boca dele se desmanchando na minha, não. Primeiro ele segura meu rosto com as duas mãos, afasta meu cabelo do olho e vai contornando os meus lábios com os dele até desenhar um coração. Depois se demora mordiscando a minha boca oferecida como a uma fruta suculenta e madura. E me olha fundo... mergulhado... bem dentro do meu olhar castanho amolecido....
E as nossas escuridões é que se beijam.