quinta-feira, abril 23, 2009

Quando o tiro sai pela culatra



Esquecer alguém é tão difícil, mas como é triste deixar de gostar. Fica uma espécie de falta de assunto. Você cumpre sua rotina, faz tudo que deveria fazer, mas sente que te falta algo, além de assunto. Talvez aquela dorzinha latejante que te fazia consciente do teu coração pulsando o dia inteiro. E você tinha um objetivo tão grandioso: fazê-la cessar. E um dia você nem percebe que ela se foi. O desconforto é outro: parece que não sinto nada. Meu corpo inóspito, sem habitação. Tenho minha alma larga, mas ainda sobra este espaço prum amor eterno que ele ocupava e que não existe mais. E eu tenho todo esse potencial amoroso entre as mãos e ninguém pra me ajudar a desenvolvê-lo. E conviver com esse “não gosto mais” vai ficando pegajoso. Não há como recolher o que foi deliberadamente esvaziado de significado. Então é isso: Nunca mais vou sonhar com uma reconciliação, um reencontro ao som de violinos. Nunca mais vou imaginar que nos esbarraremos por aí, eu no meu melhor vestido, com meu cabelo incrível e um ar sereno. Ele todo lindo com os olhos salivando de vontade de mim. Nunca mais vou delirar que subo num palco repentinamente e canto só pra ele com uma voz perfeita em meio a uma platéia equivalente a um Maracanã cheio: todo mundo emocionado com o nosso amor.Nunca mais serei piegas.
Mas o que eu faço com esse “não gosto mais”? E se ele fizer tudo pra me trazer de volta eu simplesmente vou olhar nos olhos dele como quem tem os dedos presos entre a porta que se fecha e dizer sem rodeios: Não!? Assim como quem não sabe o que fazer com algo que se esperou tanto e que aconteceu somente quando perdeu completamente o sentido? Esquecer alguém é tão difícil, mas deixar de gostar traz um vazio absoluto. Porque até que outra coisa tão real e surpreendente aconteça, parece demorado e dá preguiça demais. E quando estiver carente e me fizer deslumbrante e disponível terei que esperar que alguém interessante apareça com o mesmo blábláblá dos primeiros instantes, com a mesma perfomance das máscaras sociais. Ele já sabia tanto quando eu nem precisava dizer. Era tão delicioso a gente só se olhar, cúmplices, e seguir por aí, de mãos dadas, tão donos do mundo. Era tão maravilhoso saber que meu projeto de vida era acordar ao seu lado todos os dias. Era tão excitante ficar atualizando a caixa de e-mails esperando o dele, saber do telefonema no meio da tarde, das mensagens sacanas que me faziam ouvir sua voz ao meu ouvido.Quer dizer que isso tudo ficou no passado? Que meu corpo está completamente destituído de afeto por ele? Foi pra isso que fiz tanto esforço? Foi pra isso que me desvencilhei de todos os resquícios dele num tratamento de choque radical de quem simplesmente rompe com tudo que possa levar a uma recaída? E se eu quiser gostar de novo, não tem mais jeito? Mesmo que ele, finalmente, mereça (!) eu não vou querer mais?
Porque a nossa relação me ocupava plenamente.E, agora, nas horas vagas e sem ocupação emocional, eu sigo mais vaga que as horas todas.(Nem a minha autosuficiência tem me bastado).

Esquecer alguém é muito difícil, mas não lembrar pode ser ainda mais doloroso.
*
*
Marla de Queiroz
P.S.: Isto faz parte do processo....e nem é a parte mais importante.Há muito mais adiante.
P.S.2: Vocês me superam nos e-mails que elogiam meus textos. Vocês me deixam boquiaberta e sem ter como agradecer.Sou privilegiada por tanto, tanto amor. Transbordo de amparo.Transbordo de vontade de que nunca me falte inspiração e que eu possa continuar, por aqui. OBRIGADA é palavra que já não comporta tanta gratidão. Tenho tido alegrias indescritíveis com o que tenho recebido.
P.S.3: Meu livro com dedicatória: marlegria@gmail.com

segunda-feira, abril 20, 2009

Um novo capítulo


Posso ver a claridade além do sol, antes disso, nuvens se aconchegam juntas sem nenhum trovão. São delicados os ventos do outono.Caminho em direção à chuva que desabrocha adiante e entrego meu corpo às águas que o céu despeja em uníssono com meus derramamentos.Todas as minhas expectativas frustradas escoando pela terra.Tenho tudo que preciso e abro o peito e os braços e digo um SIM sonoro para o que meus olhos alcançam, o meu peito suporta e o mistério penetra.Eu me sinto em casa: tenho a imensidão do mar e horizontes inalcançáveis. E o que me faz caminhar é essa sucessão de desafios que não cessam, para que eu conheça meu poder de superação.

Eu construo minhas estradas e meus navios.E depois os aprimoro.E para que navegue ébria ou caminhe resoluta numa linha torta, preciso estar forte feito rocha. Eu moro nos mirantes quando preciso montar a trajetória dos meus próximos mapas. E abraço cada sensação que tenho ao apontar com o dedo meu próximo lugar sem um provável endereço.E, em vez de cidades, encontro sentimentos_ países inteiros a serem explorados: Amor, Medo, Confiança, Insegurança, Solidão... Meu destino é a Sabedoria. Não procuro atalhos, sei que é longa a travessia.

Estou virgem e confiante para que nada corrompa minha inocência, o que não significa ingenuidade. Não guardei memórias de dores ou desesperos passados. Eu me apeguei ao aprendizado. Eu me perdoei faz muito tempo. Sinto apenas que vivi as escolhas que fiz e não há erro nisso. Eu só tinha maturidade para experiências específicas e foram elas que me conduziram ao meu coração, a minha fonte criadora. Tenho tanta força em mim que não poderia guardá-la apenas para momentos adversos, tive que usá-la também na experimentação de um prazer exagerado, na minha sede pelo gozo absoluto.

No meu trabalho interno pelo desapego foi quando descobri que sempre me faltou fome, mas me sobravam apetites. Agora já percebo quando ainda não é a hora do mergulho, mas a de me encharcar sobre as superfícies. Percebo quando não sou eu quem tem de penetrar a água, mas de deixar que ela escorra sobre mim. Aprendi a me oferecer mordomias emocionais como adiar decisões dolorosas e a de ter a disciplina de cumprir rigidamente meus prazos.

Antes eu pensava que nunca havia tempo suficiente, hoje eu percebo que o melhor emprego do meu tempo é neste desvelar de mim mesma, nesta busca por uma orientação interior tão nítida que nada se misture à inquietude dos meus desejos. (Nem sempre se deseja o que é melhor) Não há mais lamentos, sou eu quem governa a minha vida e o meu tempo. Sou eu que escolho quem vai conviver comigo e participar da minha (auto)biografia, ser o foco da minha poesia ou desfrutar comigo apenas um breve e intenso momento.


(Posso ver com clareza além do sol...agora.)


*

Marla de Queiroz


P.S.: Clique no flye acima para saber os detalhes da festa.

P.S.: OBRIGADA A TODOS VOCÊS PELO QUE ME DÃO DE AFETO, PELAS COISAS ÍNTIMAS QUE COMPARTILHAM POR CONFIANÇA


VOCÊS ME APRIMORAM.




Vendas do livro pelo site da http://www.editoramultifoco.com.br/ ou com dedicatória pelo e-mail: marlegria@gmail.com

sexta-feira, abril 17, 2009

Sobre a renúncia

Foto:Raquel Alexandra



Renunciar a algo que amamos muito e que desejamos com toda a força do coração é uma das decisões mais cruéis de se tomar que conheço. Porque a perda equivale a uma morte dupla: morrer para alguém e matar a pessoa na gente. É como se sobrasse por dentro apenas um casarão vazio com um jardim morto. E, de repente, tudo tão subitamente anoitecido sem previsões de dia novo. É um caminhar lento e arrastado numa espera sombria de que as horas passem e o tempo leve essa febre alta sem medicação possível. É preciso que haja tanta paciência e firmeza por dentro pra não entrar em desespero, que a sensação que se tem é de estar meio fora do ar, com tanto esforço. E até chorar fica difícil, teme-se que nunca mais o choro cesse.
Há muitas perdas quando se termina algo que não se queria ter terminado: muda-se a auto-imagem, alegrias ficam suspensas, sonhos desaparecem por um tempo e nenhuma cor na paisagem. O cotidiano fica obscurecido por aquela lacuna aberta no meio do que era a parte mais interessante dos dias.
Com o tempo, você analisa que abrir mão de algo muito importante, só se faz quando se tem um motivo maior que esse algo: seja um propósito, uma crença, um valor íntimo, uma obstinação qualquer que te oriente para essa escolha que já se sabia tão dolorosa. É um sacrifico voluntário por algo mais pleno, mais grandioso em Beleza. E, nestas análises, você descobre outras perdas que são positivas: perde-se também a ansiedade, a insegurança e a ilusão. E você aprende a recomeçar agradecendo por vitórias tão pequenininhas...
Como quando é noite e antes de dormir você se enche de gratidão:
“Deus, obrigada, porque é noite e eu tenho o sono... Que venha um sonho novo, então.”



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Marla de Queiroz

terça-feira, abril 14, 2009

O medo do amor


Foto: Marta Ferreira

Eu não tenho medo do amor.Eu tenho medo é de amar quem tem medo dele.Amar quem teme o amor é como se apaixonar por uma sucessão de desistências. É como viver apenas a possibilidade de algo, mas com a sensação de que ela nunca se estabelecerá.É ficar intranqüilo não com o amanhã, mas com os próximos minutos. Quem teme o amor vai embora antes de fazer as pazes com ele.Antes de saber que surpresas ele reservava. Quem teme o amor teme caminhar de mãos vazias em direção ao desconhecido.Está sempre baseado numa repetição do passado.E acha que a vida será como todos aqueles dias idos.Quem teme o amor não vê a pessoa que conheceu, não se dá a oportunidade de ser amado de outra forma.Quem teme o amor se envolve é com o drama de todas as feridas que vieram à tona porque ele não se permitiu ficar sozinho e confuso o suficiente para curá-las.Quem teme o amor não aprendeu a pedir ajuda nem a receber a cura do Universo.Ele se acha maior que o amor e não conjuga o verbo.Quem teme o amor consegue ser mais perverso do que quem o magoou.

Quem tem medo do amor , pra se preservar, não se permite delirar lindamente....e perde a parcela mais deliciosa que o amor prometeu....por medo de amar.

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Marla de Queiroz

P.S.: Obrigada, obrigada, obrigada! Vcs me dão muito! Amo os e-mails, os recados no orkut, as homenagens nos blogs e no youtube....Que vcs tenham sempre, com urgência, aquilo que o coração de vcs deseja de mais saudável pra vcs e pro Universo.



quarta-feira, abril 08, 2009

Um presente...no outro

Foto: Joe Taroga
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Rio de Janeiro, Mirante do Leme, num desses dias em que.
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Para você, meu amor.
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"Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar essa pessoa de nossos sonhos e abraçá-la. "
[ Clarice Lispector ]
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Há tanta delicadeza nos finais das tardes de outono, que quando o sol encerra o seu expediente, caminho em direção à paisagem que quero reter e enviar pra você em pensamento, como quem embrulha um presente. (Mas me desconcerto toda quando a onda lambe a rocha: é sensual demais, não há como não lembrar a tua boca).

E o dia se despede suave feito um colo. E o verde intenso da mata que se aproxima a cada passo meu, dispensa outras harmonias. (Mas me desconcentro inteira quando vejo a ave mergulhando em captura: impossível não lembrar os apetites teus).

Segura entre as mãos, então, esta cena: agora uma onda ergue-se lentamente, numa letargia fascinante, parecendo desinteressar-se pelo próprio movimento. Vagarosa, curva-se como que num espreguiçar até que seja possível ver com tranqüilidade a parede de água que se forma lisa de tão esticada, antes da debruçada repentina sobre a areia. (Você perceberia dentro deste mesmo tempo).

No meio disso tudo, uma saudade indiscreta da tua cara de insônia pelas manhãs. (Por não dormirmos juntos esta noite, a noite já cai farta de si mesma). E eu fico toda lamentosa de saudade sem tristeza, querendo reclamar da nostalgia...
Mas só consigo agradecer por você ser real... me dá tanta alegria!



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Marla de Queiroz

terça-feira, março 31, 2009

Tua ausência

Foto: MARIAH

Tua ausência cala o mundo. Só há silêncio debruçado nos caminhos. Nenhuma música, buzina ou voz.Não há flores, gemidos, mordidas na boca. Não há gargalhadas, trovões ou gritos_ apenas relâmpagos imaturos que acendem um céu sem lua, sem estrela, sem chuva, sem qualquer coisa que me tire a atenção da falta.Tua ausência cala o mundo, o mar, os ventos.Tua ausência desaba silenciosamente sobre meus dias, soterrando meu outono... Ela magoa demais o meu sossego.
(Tua ausência é essa substância densa.)
Tua ausência é tão presente que é pessoa...
e me abraça.


*


Marla de Queiroz


P.S.: Vendas do meu livro com dedicatória pelo e-mail: marlegria@gmail.com


ou através do site da http://www.editoramultifoco.com.br/



sábado, março 21, 2009

Iansã dos Ventos

Foto: Luís Trancoso


Entre um cigarro e uma fresta de desespero, eu escolho a palavra. Tenho raiva de dores que me calam fundo. Filha de Iansã dos Ventos, eu mudo a direção das chuvas se pretendo outro tempo ou momento. Meu corpo é cais e mar aberto. Meu coração é caos, céu encoberto. Minha mente, esse relâmpago de luz.A escolha é sempre extrema.Não me comovem tuas palavras tão amenas.Então que minha sede traga tempestades e que meus seios incitem teus maiores incêndios. Não gosto de superfícies ilesas, eu busco o de dentro. Posso transformar tristeza em raiva pra sentir mais força. Posso afogar minha doçura num rio de águas tão enjoativas. Mas sei reverenciar o mar que temo.
E quando eu te tiver nos braços, Obaluaiê, me escuta: você terá a realidade dos teus sonhos. Não pretenda minha fúria, queira-me mansa.Não pretenda minha mansidão, queira-me intensa. Perceba quando eu digo um sim dentro de um não.
E quando eu te tiver nos braços, Obaluaiê, me escuta: só te restará a escolha entre a tempestade e o furacão.

*

Marla de Queiroz

P.S.:Vendas do meu livro " Flores de Dentro" com dedicatória pelo e-mail marlegria@gmail.com ou pelo site da Editora Multifoco.
P.S.2: Pros que moram no Rio de Janeiro ou estiverem passando por aqui, vamos nos encontrar? Quero saber que rosto vcs têm, o que fazem, do que gostam...Dia desses fui entregar um livro pra Bebel Clark....Foi uma tarde inesquecível! Viramos melhores amigas de infância.Tenho muita curiosidade em saber quem são vcs que vêm aqui e me dão tanto afago de longe. Eu quero mais de vcs.Eu tomo chope, água de côco, faço caminhadas homéricas, adoro falar, ouvir. Vamos? Quem se habilitar me manda e-mail.
Obrigada pra sempre.

sexta-feira, março 13, 2009

Por que eu amo o nosso amor?



Foto: Michelle

Porque você chegou assim
Derramando poesia em mim
Inaugurando meu caderno
De pressentimentos bons

Por todas as noites e tardes
E amanheceres intensos
Pelos longos dias que passaram rápido
Pela história de prosperidade incerta
Mas de tanta inteireza e entrega
Eu te guardo na lembrança mais bonita

(Por todas as páginas que vestimos pra nos desnudarmos)

Meu menino bom
Meu poeta particular
Meu amante voraz
Por você se derramar
Até eu ficar molhada
Jamais esquecerei tuas incandescências
E esse amor que acendeu em mim
Novas exuberâncias

E se nunca havia me comprometido com tanta certeza
É porque eu tentava caminhar onde não havia espaço

(E no seu abraço eu encontrei o caminho mais perfeito pro meu próximo passo)

*

*

Marla de Queiroz

P.S.: Vendas do meu livro " Flores de Dentro" com dedicatória pelo e-mail marlegria@gmail.com

Obrigada pelos e-mails incríveis, pelos afagos eternos, por todo o interesse pelo meu trabalho.

Isso me faz caminhar com mais disposição e alegria.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Paiságina

Foto: Gabriel Angra

Observo por um tempo o comportamento solitário das palavras e espero até que elas queiram se relacionar. Se encosto uma ao lado da outra e há estranhamento, talvez nasça um texto bom.Se as aproximo e o abraço imediato, talvez eu só consiga chegar ao lugar comum do romantismo.Tenho procurado em mim mais rebeldia poética.Eu queria conseguir dizer algo tão inusitado que mudasse a minha própria leitura de mundo, meus relacionamentos. Minha inquietação vem dessa vontade de me aprofundar no desconhecido sem a pretensão de conhecê-lo. E me embrenhar com entrega na coisa viscosa que é o escuro das coisas. Como um amante viril, queria adentrar o corpo do conteúdo do mundo por puro instinto, sem essa preocupação com a delicadeza. O dizível não tem me seduzido ao ponto da insônia. Eu não quero namorar o marinheiro, eu pretendo o maremoto_ criar num corpo um cais e deixar que tudo seja engolido até que eu não tenha novamente chão...e mergulhe.Ando habitada por redemoinhos e alguns versos de água doce que eu ainda não chamaria de chuva.É mais perene do que isso e fluido como um rio.Mas é meu e solitário.
Usei todos os meus recursos estilísticos até aqui porque pretendia contar uma história. Mas ela foi tão rasurada que, percebi, não pode mais ser salva.

É composta por desertos esta paiságina...

*

Marla de Queiroz

P.S.: Meu livro com dedicatória comigo pelo e-mail: marlegria@gmail.com ou pela Editora Multifoco.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Acasos Literários


Meu livro com dedicatória comigo no dia do evento ,ou pelo e-mail: marlegria@gmail.com
ou pelo site da Editora Multifoco.

P.S.: Clique na imagem para vê-la ampliada.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

FERVEreiros


Foto: Alexandre Ferrer

Na explosão do verbo,
minhas palavras vestem-se de lábios e línguas.
Na construção do enredo
meu corpo inteiro exerce a função
de explodir em gozo, anunciando carnavais
e intenções lascivas.

(Somos dois adolescentes abraçados na chuva
desaguando versos, verbos, luas e ventos.
Estar com ele é ter a medida exata do meu desejo:
desabito minha solidão
e atravesso a cidade submersa para tê-lo dentro).

Ele sabe que tenho pressa
em tecer amor nas tardes.
Ele sabe:
tenho urgência em principiar alegorias
de intensos amores
em poemas que ardem.

*

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Marla de Queiroz


P.S.: Vendas do meu livro " Flores de Dentro pela Editora Multifoco ou autografado por mim pelo e-mail: marlegria@gmail.com.

P.S.2: Meus amores, nem sei como agradecer pelos comentários sobre o livro no meu orkut, pelos e-mails incríveis que tenho recebido diariamente...Tenho recebido tanto, tanto afago que preciso de ajuda pra sentir.Obrigada também a todos que vêm sempre aqui e comentam, divulgam ou simplesmente mantêm-se no anonimato.

Estou vivendo uma primavera espiritual! Desejo o mesmo a vocês!

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Carta

É fato que fomos. Mas seria muito esquisito me despedir de você cumprindo todos os pré-requisitos dos dramas clássicos. Prefiro acreditar que você foi uma chuva precipitada que eu só tive coragem de experimentar por detrás da vidraça. Assim, como já fizemos tantas vezes com outras pessoas.Também queria te dizer que só vou me entregar à outra narrativa quando ela se tornar uma história coesa, coerente, bem elaborada. Renuncio desde agora às relações em que todos os passos levam apenas a um contato irremediavelmente externo com a palavra.Eu gosto mesmo é de misturar agudezas com tons graves. Bem se vê na escala cromática dos meus sentimentos.Meus amarelos tão vivos, primitivos.Meus vermelhos tão trêmulos. Minhas cores acesas, em brasa.Mas, no meio disso tudo, quero te contar que ando tão emendada em eventos sociais que sinto saudade da minha solidão. Ela tem o aspecto positivo de não me deixar me perder de vista. Eu preciso me olhar bem por dentro, de tempos em tempos, por um bocado de dias pra que eu continue merecendo minha poesia.É diferente da solidão que se sente quando se está acompanhado: neste caso, perdemos de vista o outro.
E tenho estado muito feliz, antes que você pergunte. Tenho mania de adiantar momentos incríveis com a força do meu pensamento, você sabe. Depois eles se materializam e eu os celebro.
Então, janeiro foi embora sem se despedir...FERVEreiro no Rio,e ontem foi dia de Iemanjá. Pensei em jogar palmas no mar como tantos, mas não tive coragem, ele estava engasgado com tanto lixo: herança de um domingo de sol.Deu até aperto no peito.Nenhuma onda e o mar calmamente imundo.
Nem era sobre isso que eu ia falar.Mas esses assuntos que mudam de rumo repentinamente se parecem muito com nós dois: desejo e poluição.
E a impossibilidade de mergulhos.



(É fato o que fomos.)


*


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Marla de Queiroz




P.S.: Ainda o esquema do livro autografado pelo e-mail ou pelo site ( post anterior).


P.S.: Por favor, não deixem o lixo na areia, isso é um crime ambiental grave! As ondas levam embora todo aquele plástico muito antes dos garis passarem recolhendo....isso é muito sério: ver gente que aparentemente tem educação e informação suficientes, deixando suas garrafinhas de plástico e todo o lixo consumido num fim de praia como se o mar fosse autolimpante.É vergonhoso usufruir de tudo que a natureza nos proporciona gratuitamente e deixar rastros de poluição. Sejamos mais conscientes. Sejamos um exemplo fazendo a nossa parte.
P.S.2: Na foto, meu fim de praia

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Sintonia


Foto: Gonçalo Martins

Ele faz samba e cálculos.
Eu, pose e poesia.
E a gente dança junto letra e música
na matemática dessa sintonia.

Embora as duas coisas se completem,
gosto mais nele aquilo que destoa:
Falar da vida de forma enciclopédica
relatando dados, datas, estatísticas.

(Gosto que me traga o que não domino.
Gosto que me envolva no que não conheço.)

E eu entendo melhor quando ele ensina:
Em tempos de crise,
coração aberto e renovado,
só podia atrair um economista.
*
*
Marla de Queiroz

P.S.: Obrigada aos muitos leitores que me mandam e-mails encomendando o meu livro!
Estou mais popular no Correio do Leme que os carteiros! rsrsrsr
Todos os dias envio vários para o mundo inteiro.É uma alegria absoluta!
Aos que ainda não têm e gostariam de adquiri-lo autografado, mandem e-mail
pro marlegria@gmail.com
O livro custa R$ 25,00 e a postagem nacional R$5,00.
Após o envio (carta registrada), eu mando o código da postagem
para que a pessoa possa rastrear pelo site dos correios.
Leva em média 3 ou 4 dias pra chegar.
Muito amor!!!!!
P.S.2: É inadimissível não compartilhar isso com vcs:
comentários sobre o livro da Amanda Proetti
comentários sobre o livro da Iêda Santos
exercícios de teatro com prosa minha da Judite
É só clicar nos nomes.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Sobre o Amor



Foto: Fabianna Espíndola


Amar você é ter vontade de ir a lugares que não conheço e me expor de um jeito que me ilumina. É transgredir a ordem das coisas, transmutar medos antigos e cantarolar canções novas.Amar você é passear por entre haicais, sonetos e trovas.

Amar você é descobrir que alguns mergulhos são desnecessários, que algumas coisas existem para se conhecer só na superfície, dispensando dicionários, porque elas são simplesmente aquela estrada rasa feita pra se caminhar por cima e a esmo.É eu saber teu colo e você a minha mão quente. É esse nosso afago relembrar a euforia das paixões adolescentes. É poder ouvir exatamente o que foi dito sem procurar uma mensagem oculta, uma palavra mágica dissolvida no contexto ou outros indícios. É respeitar tuas vontades, tua inconstância, tuas dificuldades. É saber que uma meia-verdade pode ser a verdade mais sincera de cada um...

Amar você é também mergulhar nos meus textos e ficar submersa observando as coisas por dentro porque a densidade delas é o essencial, é o meu centro. É entender tuas limitações porque me olho e vejo as minhas, é conceber minhas mudanças porque também vejo as tuas. É não deixar que nada corrompa nossas essências, porque nos queremos melhorar para o mundo, porque queremos embelezar nosso universo, porque queremos ser além das aparências. É saber que cada passo que dou será na direção que escolhi e que só terei o conforto da sua companhia se, por acaso, quiser seguir o mesmo rumo. Porque somos unos, múltiplos, imensos, nunca os mesmos, sempre os únicos, os mais intensos.
É encontrar leveza nas emoções que nos transbordaram porque estávamos prontos. É escrever um dicionário de palavras distraídas. E adentrar o corpo de um poema recente, ainda disforme. É falar de amor usando a metáfora mais inocente. É também experimentar a simplicidade com que tudo pode ser vivido, até àquela hora em que o desejo dorme. É vir à tona e, sem sustos, te deixar ser e me vir refletida, pedra bruta antes de ser polida, até a hora da próxima fome.
Amar você é amar aquilo que, de outra forma, jamais faria sentido: é abraçar teu passado, teus traumas, teus vazios, tuas confusões e angústias existenciais como quem abraça a um amigo.
É agradecer profundamente, ao acordar, por esta pessoa inteira, que jamais será uma metade e que me escolheu para a soma, e que com todas as alternativas que teve, preferiu seguir comigo.
(Amar você me fortalece.)
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Marla de Queiroz

P.S.1: Dia 19/01 o blog completa 3 anos de existência e como sempre faço, escolhi um texto dos que gosto que já foi postado, mas que se perdeu nos arquivos. Este é um mantra meu, representa o tipo de relação que estou disposta a viver.

P.S.2: Peguei mais exemplares na editora, os que não conseguirem comprar o livro pelo site www.editoramultifoco.com.br tem a opção de me mandar um e-mail para marlegria@gmail.com que eu envio autografado pra qualquer lugar.
Obrigada sempre!


P.S.3: Foto que ganhei de presente de uma leitora do blog.

sábado, janeiro 03, 2009

Um brinde!



Deslizo pelos dias, tantas comemorações, minha vida esse raio de sol que não cessa.
Já escrevi muita coisa triste, já perdi tanta coisa com resignação e até com destreza.
Agora nem me apavoro, toda dor é só um sopro em meio ao que vislumbro de possibilidades. Criatividade, eu aprendi, é inventar alternativas quando não se tinha. Onde não se via. Por enquanto, só o que tem me preocupado são as novas regras ortográficas, já que palavras compõem meus fatos, meus sonhos, minhas narrativas.
E se eram os hífens que me separavam do meu amor-próprio, tenho tudo que preciso agora: tanto autorrespeito.
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Marla de Queiroz
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P.S.: Que venha esse novo ano repleto de delícias!!!!!!!!!
Caso vocês não consigam comprar o livro pelo site da editora
www.editoramultifoco.com.br , mande-me um email para marlegria@gmail.com
que eu envio pra vocês autografado!
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Foto tirada pela Lua Leça

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Quando o passado espreita




Desculpa eu não te querer mais logo agora que a vida está sendo doce comigo. Têm coisas suas que não cabem na minha alegria como, por exemplo, tuas feridas tão antigas e as curas que eu fazia pra te consertar pro mundo, mas continuar com minhas mãos vazias.Desculpa eu desobedecer a demanda da tua angústia. Eu não quero mais ouvir, naquela passividade profunda de amante, tuas lamúrias, tuas escolhas equivocadas, teu emocional sempre tão confuso.

Eu só quero celebrar as minhas flores de dentro da forma mais adequada.
Eu não tenho mais tempo para ser aquela pessoa certa na tua hora errada.
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Marla de Queiroz

P.S.1: Dia 28/12 comemoro meu aniversário, eu completo 1.584 luas.E já recebi todos os melhores presentes que alguém da minha idade poderia ter: uma família incrível, meus amigos tão especiais, minha rotina particularmente poética, o lançamento do meu primeiro livro, o meu blog que me dá tantos novos amigos íntimos virtuais e tanto carinho. Eu só quero continuar sendo merecedora dessas coisas todas, por isso invisto no meu melhoramento como pessoa.

P.S.2: o meu livro “ Flores de Dentro” está sendo vendido pelo site: www.editoramultifoco.com.br

P.S. 3: Alguns anônimos passam por aqui e fazem comentários que eu adoraria responder. Por favor, deixem algum e-mail.

P.S.4: Na foto, minha colagem.

P.S.5: Obrigada por tudo,sempre.
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Marla de Queiroz

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Agradecimentos


Minha foto tirada pela Lua Leça

Fiquei pensando no que eu poderia escrever aqui, no dia seguinte ao lançamento do livro.Mas estou ainda muito anestesiada, extasiada, embriagada de amor.Acho que nunca me senti tão amada, tão vasta, tão em casa, tão feliz. Primeiro, tive a melhor sensação do mundo ao ver meus filhos empilhados numa mesa.Tão recém-nascidos. Tive ímpetos de guardá-los novamente no meu ventre. Queria todos para mim. Depois eu os vi saindo, um a um. Foram para tantas casas diferentes, na companhia de pessoas tão especiais...Não sei explicar, mas se dei 90 autógrafos, todos foram pessoais e seguidos de um abraço forte, demorado...Não existia mais o tempo.Eu me permiti me demorar naquela maior alegria da minha vida.E tantas pessoas trabalharam espontânea e gratuitamente praquela festa acontecer. Eu não sei quando foi a última vez que me senti tão bonita.E o que posso dizer ainda, é o que disse ontem pros que estavam presentes: a repercussão que a minha poesia teve, tem, não me dá vaidade. Ela só me diz da minha responsabilidade e respeito que preciso ter com as palavras. Se a minha poesia sou eu, é preciso que eu me melhore pra que ela continue sendo honesta.
Eu estou muito, muito emocionada. E nunca vou esquecer esse meu primeiro melhor momento da minha vida.
“ Obrigada” é palavra que não comporta toda minha gratidão.
Vou descansar um pouco, mas volto logo.

P.S.: Em um ano e meio, esse blog ultrapassou os 100.000 acessos. E eu só preciso de ajuda pra sentir. Eu os agradeço eternamente.
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P.S.2: O livro já está à venda pelo site:

www.editoramultifoco.com.br
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Marla de Queiroz

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Lançamento do meu livro!!!!!!!!


Amores,
É com muita alegria e frios e frios na barriga que eu os convido para o lançamento do meu livro!
Meu primeiro filho vai nascer!!!!!!!!!!!!!!!!hahahahaha!!!!!!!!!!!!Nem acredito!
E não pensem vocês que será numa livraria com gente cult e nenhuma farra,
será num casarão na Lapa com as pessoas mais interessantes e animadas do Rio de Janeiro! Celebração total com muita música brasileira pra dançar, DJ Rafael Braga, e algumas atrações especialíssimas, não faltará amigo músico para dar canja até às 02h da manhã...
O evento começará às 19h, pensei em dar autógrafos (!) até às 21h e cair na pista com vocês.
Por favor, cheguem cedo pra eu não me apavorar e achar que não vai ninguém!Ou pelo menos torçam por mim, divulguem!
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P.S: Há semanas não durmo direito. Esperei muito por esse dia, estou em polvorosa!Haja chá de camomila!
Ah, e pros que não puderem comparecer ao lançamento e tiverem interesse em adquirir o livro, a Editora Multifoco também venderá pela internet através do site: http://www.editoramultifoco.com.br/
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OBRIGADA A TODOS VOCÊS POR TEREM CAMINHADO COMIGO ATÈ AQUI!
SIGAMOS JUNTOS!

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Bachelariando sobre o barro...

Foto: Cristina Afonso

O texto abaixo eu escrevi para minha amiga Tayira, arteterapeuta que está escrevendo sua tese sobre o barro.Ele é resultado das nossas conversas de uma semana inteira sobre o amor, arrumações de guarda-roupa, barro, contradições,crises existenciais, Bachelard...Compartilho com vocês.
P.S.: Desculpem a demora de atualização do blog. Estou escrevendo minha monografia e resolvendo as últimas questões do lançamento do meu livro. Em breve, a divulgação oficial aqui, mas posso adiantar que será dia 16/12/08.

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Porque deveria ser proibido esses domingos ensopados pela chuva e, por dentro, tanto frio sem esperança de alguma nódoa de sol. Deveria ser proibido mãos que não alcançam um pedaço de argila e um punhado de água pra amolecer a dureza que têm as ausências, as carências, o concreto de alguns corações.
Deveria ser proibido no meio da dor, só a lembrança das ondas que explodiram pra promover um beijo: era a maior doação da natureza pra afagar olhares que procuram e procuram_ e que olham para os lados sem ver o que ao lado está. (Que nem Clarice explicou em “ Por não estarem distraídos”).
Minhas mãos em concha seguram tantos gritos, líquidos.Mas tenho medo de acordar os que se estabeleceram uma rotina sem qualquer possibilidade de desconfortos fora dos calculados.

(É quando a magia ganha a obrigação de ser um amparo alheio).
Eu andei pensando sobre o barro, sobre o amor, sobre vestidos que viram saias e saias que viram blusas. Eu andei pensando que, às vezes, a gente gostaria de enfiar a pessoa que a gente ama dentro daquela gaveta arrumada pra só saber dela quando abrisse o guarda-roupa no auge da vontade de se enfeitar de sentimento.
Andei pensando nesse coração de argila que se molda de artérias entupidas pelo amor.
(ainda é preciso esperar que seque rápido e torcer para que não tenha sido feito frágil demais.)

Eu andei pensando nesse movimento de mãos que se vestem de areia, que fazem círculos enquanto contam sobre o eterno retorno do mesmo. Sobre a lucidez da loucura.
Você espera que a terra te dê chão? A terra, sem a água, sem o ar, sem o fogo, só pode te dar a impossibilidade de vôos, às vezes.
Talvez estejamos tentando fazer barro com areia e água salgada. Mas o barro quer da gente é doçura.
Andei pensando nessas esculturas de sal.Isso não pode ser a nossa obra-prima.
O amor não pode ser engessado. Ele não pode ser estático.Amor não pode ser chão de ninguém.Amor nasceu para dar asas.

Quando você me contou que havia um abismo no seu peito, um buraco no seu coração, eu tentei visualizar abismos e buracos...E vi muito coração dentro deles.
(Um outro ângulo.)

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Marla de Queiroz

quinta-feira, novembro 20, 2008

Descompassos

Foto: Rosalina Afonso


Não é porque te amo que, de uma vida inteira, eu selecionaria apenas esta página. Há tanto pra contar além desse altruísmo: há tanta solidão na sede por poemas e muita ansiedade num tempo de esperas. Sei pouco sobre mim, descubro agora. E fico a olhar, vazia, para os lados. Sei pouco de você, eu admito, conheço apenas o que quis saber de nós. Mas tem um egoísmo que corrói: e eu danço com a vida, os dias e as paisagens. Você denunciando os contrários: parece que a leveza me aprisiona, parece que o peso te abraça. Um medo de perder para a alegria. Ou de só possuir pelo cansaço.
Enquanto eu tentava me lembrar onde guardei meus brincos (tua gravata), minha docilidade (tua carência), minha saia rodada (tua camisa azul), meu desapego (tua indignação), você catava conchas à beira-mar. À beira de um mar que te emprestei. (E, na individualidade sem afagos que consertem, talvez esteja a nossa nudez.)
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Marla de Queiroz

quarta-feira, novembro 12, 2008

Extensidades

Foto: Ornella Erminio
(...)e quando virei o rosto vi meu sorriso nos lábios dele...
(" Grande Sertão: Veredas"_ Guimarães Rosa)

O jeito que ele me olha é que me inspira e desgoverna. Um jeito que me conhece no derramado de dedos que convidam. De quando eu peço abraço quando ele quer me dar, mas faço tudo quase num contorcimento de dor, e ele acha bom eu ser intensa. E a voz sem sossego, o corpo pronto e quente sempre. E, se ele demorou tanto, nós sabemos: amor também precisa amadurecer ou maturar na arnica, feito remédio. Nunca tive muita impaciência na espera, ele sabe. Pude pular de galho em galho e ir embora quando meu coração não queria ficar, enquanto. E, das vezes que quis ficar e não tive espaço, entendi. Funciona quase como o mesmo modo de quem faz ninho para um só passarinho, aquele todo especial. Mas eu exerci meu par de asas. E fui feliz com as paisagens que sobrevoei. Aí, quando eu menos esperava, ele chegou encompridando alegrias tão amenas, tão bestinhas. Fui compreendendo aquela falta de desespero. Eu achando graça na saudade. Eu perdendo o peso da lembrança só pra rir de tudo. Eu ficando leve. Eu sentindo sono logo na infância da noite. Porque meu coração estava, enfim, descansado. Eu achando bom meu coração pousar assim: decidido e destrambelhado.

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Marla de Queiroz

quinta-feira, novembro 06, 2008

Outra Estação

Foto: José Ferreira


Eu esperava
e a esperança era tão precisa que calculava:
Você viria na primavera mais propícia.

Eu esperava um encontro tão romântico,
pra desmitificar tua estátua de concreto.
Eu esperava que nada mais pudesse vir a ser um desafeto.

E veio fluido como fonte
E veio ávido, como fome
Mas se tornou um chato no papel de “Monge”.

E havia um romance, mas vaidoso.
E, em vez de amar, ficava dando pistas:
assim, feito uma celebridade, um artista.

Eu fui cansando, ficando com preguiça:
Havia idealizado a estabilidade de um amor,
e apareceu você, mais um turista.

Eu esperava então, que fosse embora logo.
Que nem tirasse a roupa, já que nunca a máscara.
Que me deixasse em paz a tempos de um verão.

Se fosse a primavera assim, a mais propícia,
queria eu então outra estação:
mais divertida, leve, colorida
ou, pelo menos, muito mais promíscua.

*

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Marla de Queiroz

terça-feira, outubro 28, 2008

Carências

Foto: Graça Loureiro
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Na imposição do lápis, hesito:

Escrevo um poema ou pinto os olhos?

Frente à maçã:

Dou a mordida ou uso o blush?

Esse tom bourbon

vem da palavra ou do batom?

Visto meu tomara-que-caia ou rezo:

Tomara-que-fiques.

Uso renda e saio toda prosa ou

espero que renda a prosa?

Expiro, inspiro:

Um romance?

Dá pra viver os dois ou

dou pros dois?

Não sei se ando movida pela vaidade ou pelo desejo.

Reminiscências ou feminiscências?

Poeta ou fêmea onde a carne freme?

Arre, estou em falta com os sêmens-deuses.

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Marla de Queiroz

sábado, outubro 18, 2008

O que os jornais não noticiaram


Não vou macular essa dureza do concreto com flores.Eu tenho respeito até pelas coisas sem calor, se honestas.Mas é que existe um jeito de adocicar a aridez com afeto.E eu fico olhando pra você e esqueço das notícias do mundo que é tão vasto, mas insistem em dar um foco extremo no que há de trágico nele.Ninguém contou que essa chuva fresca antecipou a exuberância daquela árvore adoentada.Ninguém se preocupou com o diagnóstico real da floresta devastada . Ou se o girassol que andava nublado se sentiu mais seguro aqui em casa.Eu jamais abri um jornal e li: esta página em branco é pra você escrever como gostaria que fosse o seu dia ou pra dizer como se responsabilizará pelo seu mundo.Ou talvez uma manchete simples: Existe um silêncio no mar que também é paisagem. Mas eu olho pra você e me vem tanta ternura que agradeço a esperança porque você é bom e me inspira a ser alguém melhor.Porque eu lembro sempre, quando eu olho pra você, que quando chove sobre o mar, a água doce e a salgada entram numa intimidade máxima.E não é à toa que o soro fisiológico é quase o resultado desse encontro mágico dos dois: um punhado de chuva pra duas pitadas de mar.Foi assim que eu curei nosso girassol.Mas isso, nenhum jornal noticiou.


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Marla de Queiroz

Resumindo


Foto: Paulo Medeiros

"Era alguma coisa que seria amor ou não seria. Caberia a ela, entre milhares de segundos, dar a leve ênfase de que o amor apenas carecia para ser(...) Um segundo antes ainda poderia não amá-lo. Mas agora, suavemente, vaidosamente: nunca mais. No mesmo instante teve uma sensação de tragédia... E agora era tarde demais_ qualquer que tivesse sido o sentimento gerador, este para sempre se volatilizara. Era tarde demais: a dor ficara na carne como quando a abelha já está longe. A dor, tão reconhecível, ficara. Mas para suportá-la fomos feitos."(Clarice Lispector)


Foice, o tempo.

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Marla de Queiroz

terça-feira, outubro 07, 2008

Alguma certeza

Foto: Gregoria Correia

Escuta: o que te dou não é por você, mas por mim_ se tenho amor demais, eu preciso deixar derramar até que tudo escorra e que haja um total esvaziamento. E, novamente, eu me sinta plena do vazio. (Porque também preciso da purificação do não-sentir pra me entregar de novo plenamente). Não interessa se amor demais te envaidece, envaidecer-se é uma forma de não se achar merecedor, caso contrário, receberia tudo com natural tranqüilidade. Mas não é sobre você que quero falar, é sobre o amor que escorre pela ponta dos meus dedos, que me enche os olhos e a boca d água.É por esse amor que eu respiro fundamente e sinto alegria. Você é só um foco do que tenho transbordando. Nada além do não-definitivo com a sensação de eternidade. Você é a energia que sinto, um rosto desfigurado, puro movimento e luz, o que faz movimentar-me em direção ao familiar tão desconhecido. Amo para conhecer-me e tudo me escapa: o que sabia sobre mim se transforma no que ignoro, o que não havia me tornado me fascina, mas não consigo tocar se reconheço. Esse é meu processo de melhoramento: saber-me ilimitada, transitória. (Se ficares longe ou aproximar-se, o amor será o mesmo, esse outro do “pra sempre, agora”).
Escuta: eu não preciso fechar os olhos para ver por dentro a profusão de cores.Eu não preciso usar palavras pra dizer da comunhão das coisas. Eu não preciso estar embriagada de um amor concreto pra ver beleza em tudo. Ele está em mim, eu estou nele e onde eu for, chegaremos juntos.
Se alguém se assusta ou se comove, é ser-espelho. Sol-teu-espelho, digo.
Escuta: o que te dou é meu. E isso ninguém roubará de nós.

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Marla de Queiroz


domingo, outubro 05, 2008

Fugidio


Porque quando eu li no meu poema: “o mar arrebenta em fúria enquanto o horizonte, essa linha vertebral das águas, permanece imóvel, calmo...”, ele chorou. Deitou no meu colo e chorou. E eu continuei lendo, lendo pra não dizer coisas tão banais sobre nós dois. Eu estava protegida naquela leitura de um poema imparcial. Porque ele me achou tão cuidadosa com as palavras, eu cuidei pra não deixar a cabeça dele sem o amparo de um cafuné. Porque eu sabia que ele estava frágil e que a vida doía e eu era a força. Mas não entendi se eu estava me sentindo tão bem e ele foi embora renovado, porque fiquei tão oca, cansada e triste. Se antes de tudo fizemos amor com saudade. Se depois de tudo dormimos o sono dos deuses e, apesar de tanto, ainda andamos na praia, fizemos mil planos e eu fiquei contemplando embevecida, naquele momento em que eu precisava, o mergulho que ele deu no mar, no meio de um dia branco. E depois, antes de ir embora, ele me abraçou e agradeceu, e me elogiou e abraçou de novo e eu ri, e fui embora também. E depois ele ligou da estrada pra agradecer de novo. E eu estava triste, cansada, oca.Talvez porque eu nunca tenha me conformado com essas idas dele que carregam sempre a solenidade do eterno, que imprimem sempre em mim a impossibilidade de um retorno inteiro.
*
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Marla de Queiroz

segunda-feira, setembro 22, 2008

Flores de dentro

Foto: Ana Franco



Tudo é mistério fundo de flor e agonias. Eu me preparei para receber a primavera e caminhei pela cidade com frio, braços cruzados_ eu tinha apenas a mim mesma para abraçar. E na expectativa de flores nascendo subitamente pelos caminhos, só consegui perceber o espreguiçar de uma tristeza adormecida. Mas nada machucava, apenas doía: uma tristeza se impunha saudável naquele guache laranja do entardecer. A melancolia mais bonita. E uma dor quentinha como um raio de sol que cega a alegria para iluminar outras inspirações.
Eu me preparei para a chegada de uma determinada primavera semântica, mas só conseguia lembrar do meu poeminho antigo:
Quando setembro flor-ido, primavirá o verão.

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Vejam esta primavera no Mukifuchic!

Marla de Queiroz

quinta-feira, setembro 11, 2008

Imperativos, hiper-ativos


Foto: Ornella Erminio


não tenho tempo a perder por favor quando chegar esteja inteiro ocupe espaço e seja pleno me impeça de pensar no amanhã e em outras tarefas suspensas me traga pro agora daquele momento onde você mora me faça esquecer o cansaço me traga um abraço me fale de coisas que há tempos não nos permitimos fazer e me convença a transgredir a hora de dormir como boa-moça que nunca fui e estou me dê um porre acenda todos os meus cigarros e me ache bonita me fale sobre as gostosuras da vida esqueça os pronomes começando as frases que nos despejamos quando entusiasmados e cheios de assunto depois se cale e me ponha a dançar me faça chorar me lembrando que estou pura razão me incentive a querer mudar me relembre essa dádiva de cama-leoa me ajude a fazer as malas me tire de casa me convença a trancar a porta por fora me mande embora dessa covardia me traga de volta praquele meu sonho bonito.
Me traga: de novo fumaça, etérea, no espaço, sonora... de novo tão livre, tão solta.

E faça amor comigo sem pressa.Com todas as vírgulas que ignoramos.
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Marla de Queiroz

quinta-feira, setembro 04, 2008

Uma súplica



Foto: Fernando Figueiredo

Não interessa o quanto eu tenha a dizer. A palavra, como pessoa que é para mim, precisa chegar súbita e inadiável e dizer qualquer coisa que ela queira. Por isso tantos suspiros e alguma resignação, porque também não agüento esse silêncio espesso sem reclamar minha falta de sono.Se é de paisagens novas que elas precisam, mudo até os caminhos. Se precisarem de um novo amor, me apaixono. Mas não façam de mim escrava desse abandono de dizer coisas. Porque preciso.E não tragam para mim nenhuma novidade no amor antigo, tudo é paisagem inédita, sempre.Não me incomodo de sonhar coisas irrealizáveis, mas preciso acreditá-las em frases bem elaboradas pra que tudo se pareça possível.Tudo bem que bocejem vezenquando, mas não durmam para sempre. Se vierem, num pequeno pedaço de papel, eu juro,vou tentar fazer caber o maior lugar do mundo.

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Marla de Queiroz

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P.S.: Ando com tanta vontade de escrever e não consigo compor nada bom...Fica sempre essa lacuna em mim.

Enfim, a palavra é meu inferno e minha paz...

terça-feira, agosto 19, 2008

Compartilhamento...


Foto:Pedro Moreira

Tudo é vislumbre de uma nova luz. Já espreito sussurros primaveris e gritos de verões ardendo a pele.Enquanto isso, contemplo as amendoeiras amarelecidas, já enfraquecidas pelos últimos suspiros do inverno.Tudo é vislumbre de uma época tão novinha: em folha, em flores, em aguardamentos.(Era assim que Guimarães chamava a espera, penso).Tudo convivendo numa melodia doce.Que nem flauta ensinando criança que pulmão é coisa musicalmente vital.Mas há de se saber soprar fraco ou forte pro som vir do jeito que se almeja.Se não, não passa de estridências sem harmonia.Melodias doces guardam o medo da gente e trazem colo.(Que nem quando mãe canta bem baixinho pra fazer sossego na noite).E vem vindo tanta confiança na entrega do sono que a gente sonha.Que é nessa horinha que o sonho acontece, quando a confiança.Eu já soube muitas coisas além dessa. Só que esqueço rápido. E fica apenas o dia de hoje sendo importante. Mesmo quando tudo é saudade. É saudade do que se teve algum dia de tão bom que se acontecesse hoje, por exemplo, imagina essa alegria: teve um dia que eu tava tão feliz que queria a repetição, não da cena, mas da felicidade inteira do tamanho que aquela tava sendo.(Porque o que fica do escuro da dor nessas horas é que ela amanhece).Eu fico pensando que a vida sabe bem conjugar os seus verbos.Só é preciso a palavra caber direitinho naquele embaraço de coração batendo confuso. Aí tudo acalma e parece aprimoramento.Que é como quando você só percebe que aprendeu o estudo tentando explicar a alguém.E a pessoa também fica estudada porque entendeu o que você entendeu quando explicou.E recebeu pronto o que a gente levou dias destrinchando.Por isso que compartilhar é palavra que vai caber sempre na dor, no amor.Eu acho tão importante fazer bom uso da palavra compartilhar. Que nem quando a gente.

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Marla de Queiroz

quinta-feira, agosto 14, 2008

Da saudade

Foto:Alberto Viana d´Almeida

Guardei tanto tempo essa saudade que o coração intranqüilo precisou telefonar para dizer do tempo: que dias tão azuis, meu deus... Em dias tão nublados. A falta de assunto na ponta da língua.Meus nervos de água.E o meu coração intranqüilo falou de outro tempo quando só queria saber:
Como era mesmo que você me olhava quando a gente ainda se via?

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Marla de Queiroz

sexta-feira, agosto 01, 2008

Quando a leveza é o que sustenta o peso...

Foto: Graça Loureiro

Traz esse teu olhar pra perto de mim, desembrulha tua alma introspectiva e vamos cuidar das coisas com calma. Deixa o profundo pra outra hora antes que a gente se consuma até os nervos. Há tempo pra almas angustiadas, mas há dias de tons bem mais leves, de sentimentos sutis. Não determine o sentido das coisas antes delas terem algum. Espere o momento do desespero, não o antecipe. Se ele quiser, virá em dias tão lindos como este. Agora, só há o convite pro sono mais doce e pra conversa mais amena que nos faça rir de novo.Deixa teu coração abraçar o que digo enquanto afago teus cabelos.O nome disso é carinho.Esquece um pouco essa dor que te espreita.Convida ela pra dormir ao relento enquanto meu colo quente vai chamando de volta teu sossego.Chega de tantas palavras que fervem, meu amor. Vamos pronunciar cuidados. Vamos nos envolver em abraços. Vamos viver o que chega assim, limpinho, sem apertar o peito. Traz teu olhar pra bem perto, eu os fecho e te mostro a paisagem que teci com palavras pra adoçar teus ouvidos.

Vamos dormir em paz e acordar antes desses amanhãs.Vamos acordar antes que seja tarde.

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Marla de Queiroz

sábado, julho 26, 2008

E, na brecha de um medo...


Foto: Joana Muge
O amor nasceu assim, numa hora qualquer de um dia que não me lembro, eu estava distraída. Pode ter sido em janeiro ou novembro, não lembro a data, só o momento.
Antes de o amor nascer eu me ocupava com o óbvio do sexo bom que vinha dele, mas parecia que era só aquilo. Por isso me atirava nos braços do sofá e dizia fatal: ou você ou ele. "Seremos os três então", e ele se atirava no sofá comigo. Mas tudo era só essa ofegância.Quando nasceu o amor eu o olhava enquanto secava os cabelos à noite depois do banho. E ele me disse:
“ Vem logo pra cá, vamos fazer algo tão bonito que nos dê muita saudade depois, dessas que nos fazem rir sozinhos enquanto caminhamos, escovamos os dentes ou lavamos a louça”. Foi ali mesmo que nasceu o amor. Lembro, depois de tanto tempo, com um riso frouxo, enquanto enxugo os pratos.
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Marla de Queiroz


segunda-feira, julho 21, 2008

Carta de amor pra mim mesma...porque só eu sei o que preciso ouvir.



Marla,

Escrevo enquanto te olho por dentro. O que vejo nem precisa ser bonito, nasci para amar tudo que vem de você.Escrevo pra te fazer um afago.Porque te conheço inteira, naquela hora em que tudo é silêncio e sombra, naquela hora em que sua gargalhada é um sol.Desse seu corpo que nasceu para abraçar, eu conheço cada poro, cada taqui-bradi-cardia.Conheço cada sopro, cada falha na tua voz.Toda a força do teu canto desafinado, eu conheço.A intensidade do teu gozo, a fluidez das tuas palavras orgásticas que não admitem tutelas. Eu te conheço além da tua relação anti-convencional com teus homens.Com tuas mulheres. Com essas pessoas que você ama.Com essas que você se recusa a odiar porque não quer despender energia pra isso.

Eu te conheço doendo. Eu te conheço em paz.E sei quando você finge que nunca fingiu um orgasmo.E é por isso, Marla, que eu sou a pessoa que mais poderia amar você.Porque não me interessa onde você erra, me interessa o que você aprende, apreende, absorve.Me interessa é como você se transforma. Interessa é o teu olhar de novidade derramado sobre as coisas simples e cotidianas como se descobrisse a essência do mundo diariamente. O que interessa é esse seu medo da morte, a sedução que ela exerce sobre você e o teu instinto de vida tão maior que tudo.Eu te conheço boêmia, anestesiada porque tua intensidade sufocando, apertando os dentes.Eu te conheço premonitória, dando consultas em mesas de bar, plantando esperanças porque a intuição disse que sim, vai dar certo, e deu.

Eu te conheço arrasada, opaca, ferida, feroz.Rabugenta.Confusa. E não é menos Marla. É a outra ponta do extremo. A totalidade. Eu te conheço tendo recaídas, não sendo ingênua mas optando por acreditar no outro de novo, de novo, de novo. Mas só até a terceira vez. Eu te conheço com um mau-humor contagiante, com uma disposição esfuziante, com uma alegria solitária, com todos os teus amigos na praia, ou sozinha com os teus livros e uma canga à parte pra eles.Aquela que só entra no mar de mãos dadas com alguém porque tem medo de não sair. A que evita altura porque quando olha pra baixo só pensa na queda.A que se treme inteira lendo seus textos em eventos poéticos porque tem fobia de público.A amiga popular e agregadora. A que morre de ciúmes e toma gelmax efervescente pra acalmar a gastrite ciumenta.

Eu nasci pra amar você porque sei dos teus desesperos, tropeços, anseios. Sei da tua honestidade quando sente.E dessa intranqüilidade pela falta de ambição.Te conheço acordando de madrugada só pra anotar uma frase.E fazendo da prosa poética teu sossego. Da vontade que você tem de voltar logo pra casa só pra escrever aquele texto que nasceu durante a caminhada. Das tuas roupas com cores desconexas.Da tua irritação com pessoas desconectadas. Tua preocupação com o lixo. Teu preconceito com o luxo. Teu boteco copo sujo.E a solidão permanente e o teu namoro com a escrita.

O que ainda posso dizer? Que você, Marla, vive para a palavra, mas anseia viver exatamente aquilo que ela não alcança.
E é por isso que eu te amo além do amor.
Eu te amo para sempre. Hoje.

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Marla de Queiroz

segunda-feira, julho 14, 2008

Divagações...


Foto: Silvia Afonso




Só um poema é remédio pra curar uma página machucada pelo silêncio.Essa frase me veio hoje à tarde, enquanto eu reclamava minha falta de inspiração.Pensei em escrever uma carta com notícias antigas porque naquela data de 2002 as melhores coisas me aconteceram. Era dezembro, suado. Eu havia chorado uma semana inteira pela perda de um HD onde eu tinha um livro pronto. Mas depois, veio o amor. Vamos reciclar essa história magoada, ele disse.E um raio de sol espancou minha tristeza.(Porque se a vida nos ressente, também nos restaura).

Se eu não escrevesse, minha carência seria apenas a falta de alguém, meu amor seria apenas mais um namorado, minhas despedidas seriam apenas mais um hematoma na alma,teriam apenas o adeus como adorno.E tanta alegria que vem vezenquando subitamente nos dias, seria apenas uma luz solitária. Quando a poesia resolveu morar em mim, tudo virou matéria-prima e eu ganhei uma espécie de entendimento maior sobre as coisas.Quando choro gotejo verbos, quando amo suspiro versos, quando grito desamarro palavras.E isso faz de mim mais generosa, porque compartilho. (Você me disse isso e eu achei tão bonito).

Se as coisas têm um nome próprio, cuido pra não confundir amor com apego, eu te disse tentando ser mais interessante. O amor é essa melodia que envolve, mas não se aprisiona o abstrato, as notas dançam na palma da mão por um tempo que é pra que se possa ver pra sempre o fugidio das coisas. Depois elas somem. Fica uma lembrança de tudo que foi importante. Mas a importância somos nós que damos. Têm coisas que seriam interessantes que eu me lembrasse pra compor um lado meu que ainda não conheço direito, mas por doloroso demais eu esqueci com a rapidez que durou aquela febre emocional.(Eu sempre sofri fisicamente pelas coisas importantes). Mas meu corpo não agüenta mais, adquiri a leveza por puro bom-senso. Penso pouco no que vejo.Quando acho bonito, não destrincho o conceito de beleza. Fernando Pessoa sabia das coisas.

Se a dor é insuportável ou a alegria desmesurada, a palavra sempre salva meu coração. Matéria-prima pra poesia é essa vida com seus incontáveis dias de azuis e sombras.

Eu tenho uma filosofia de vida que consiste em abandonar a cada dia uma certeza. Mas tenho ainda uma convicção: eu quero publicar meu livro antes de ter um filho e plantar uma árvore dentro de cada uma de suas páginas.
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Marla de Queiroz



domingo, julho 06, 2008

Sobre a espera

Foto: Fernando Figueiredo

Para M.C.que me contou uma história tão dolorida.

É que esse amor a bagunçou inteira. Jurou que viria vê-la por três vezes. E a mesa posta, a casa limpa, o vestido bordado. Agora o cheiro das flores que murcharam na chita do vestido lavado. Agora esse café frio, uma das taças intacta, o vinho pela metade. E ela contando sua coleção de esperas, crepúsculos e cartas rabiscadas em guardanapos.

Tentando se reorganizar novamente, rezava pra que tudo voltasse ao seu devido lugar: onde não havia nenhum (falso) entusiasmo e nenhum desses fogos (de artifício). Ela havia chamado de tédio um momento em que , na verdade, seu coração estava em paz.

É que esse amor a bagunçou inteira. E a louça suja de um prato só. E a angústia dura de um parto só. E toda a ternura, como havia lido em Drummond, toda essa ternura inútil, desaproveitada.

Ela só queria que essa dor tão familiar, lhe fosse estranha. E que alguma coisa lhe fizesse companhia, nem que fosse uma voz do outro lado que considerasse a importância que havia para ela de, pelo menos, ouvir um adeus.
E pedia esperançosa: Deus perdoa por eu ter amado desajeitadamente, quem não me amou de jeito algum.
*
Marla de Queiroz

quinta-feira, junho 26, 2008

Sobre medos

Foto: Catarina Paranhos

Não sei se há verdade no que escrevo. Há sentimento e uma vontade imensa de transmutar certas tristezas. Mas verdade, talvez não haja. Não há uma real crença de que o texto esteja pronto. Não há um absolutismo nessa sensação que as palavras causaram montando uma história bonita. Às vezes, de tão insegura, por tanto medo de cambalear entre as palavras, risco o papel até rasgá-lo, tamanha minha força. Essa força que só quem tem muito medo dentro de si sabe usar).

Eu produzo porque tenho muito medo de ser inútil. Eu abandono quando sinto muito medo de ser rejeitada. Eu adormeço porque tenho medo de não encontrar paz em nada. E, de tão compreensiva sempre, quando tenho que me defender, só tenho vontade de agredir. Porque tenho o potencial de tanta raiva dentro de mim. (Eu me busco tanto em tudo que fiz da palavra “encontro” o fim da minha estrada. E sigo caminhando a esmo com a obstinação dos que não têm destino certo, apenas a intuição de que chegarão nalgum lugar que não se chame “cansaço”).

Não sei se há verdade no que sinto. Há sempre uma espécie de embriaguez fingindo alegria. Há sempre uma espécie de lucidez trazendo a raiva à tona. Há sempre uma espécie de entendimento que me deixa vulnerável, emotiva e crítica. Não sei se no auge da minha perspicácia eu admitiria tanta bondade, nem sei se vivendo o meu cotidiano com toda a minha racionalidade eu admitiria tanta ternura. Não sei se admitindo essas características em mim, quando tivesse essa oportunidade, eu seria menos carrasca.

Tenho tanto medo das palavras que machucam que evito meus mais sinceros xingamentos. Porque sei usar palavras pra ferir com todo o dom de um poeta.As mesmas que sempre pretenderam curar. Tenho muito medo da poesia que transfere o medo pro outro, e se vinga dele pra fazer doer de um jeito a dor que não se agüentou sozinho. (Essa que desestabiliza uma pessoa emocionalmente sem a menor culpa).

Na verdade, se é que há alguma, acho que tenho direcionado muita energia pros meus medos.Talvez por isso, eles tenham sido as forças mais presentes no meu cotidiano.E tenham feito do meu coração um ser tão assustado, com tantos sobressaltos.(Por isso, talvez, minhas taquicardias pelo meu mais puro amor tenham parecido apenas maus-presságios).

Marla de Queiroz

quinta-feira, junho 19, 2008

Um suspiro


Foto: desconheço o autor

*
Porque a voz dele me toca feito as mãos
e as mãos dele me envolvem feito fábulas.
E as duas, quando passeiam em mim
desabotoam
minhas mais
mal-comportadas
palavras.
*
*
Marla de Queiroz

terça-feira, junho 10, 2008

Da solitude

Foto: Maria Flores

Abandono-me calma entre os lençóis.
E o corpo nu e intransigente,
não quer a ninguém, só esse estado
de deslizar tranqüilo ,quase inapetente.

Celebro a solitude que me traz sossego.
E tramo os meus dias em papel de seda azul:
“Amanhã comprarei frutas doces
e incenso de lavanda”,
penso enquanto acaricio o meu corpo nu.

E nada me tocará não seja a música
nem me bolinará não seja o verso.
Amanhã talvez eu queira outra coisa,
hoje estou apenas para mim:
completamente nua,
absolutamente Una com o Universo.

*
Marla de Queiroz
*
P.S.: Conversando com uma blogueira e leitora dos blogs, surgiu a idéia de promovermos um encontro de blogueiros e leitores que moram
aqui no RJ. Acho que seria uma noite linda de troca...O que vcs acham?