terça-feira, agosto 19, 2008

Compartilhamento...


Foto:Pedro Moreira

Tudo é vislumbre de uma nova luz. Já espreito sussurros primaveris e gritos de verões ardendo a pele.Enquanto isso, contemplo as amendoeiras amarelecidas, já enfraquecidas pelos últimos suspiros do inverno.Tudo é vislumbre de uma época tão novinha: em folha, em flores, em aguardamentos.(Era assim que Guimarães chamava a espera, penso).Tudo convivendo numa melodia doce.Que nem flauta ensinando criança que pulmão é coisa musicalmente vital.Mas há de se saber soprar fraco ou forte pro som vir do jeito que se almeja.Se não, não passa de estridências sem harmonia.Melodias doces guardam o medo da gente e trazem colo.(Que nem quando mãe canta bem baixinho pra fazer sossego na noite).E vem vindo tanta confiança na entrega do sono que a gente sonha.Que é nessa horinha que o sonho acontece, quando a confiança.Eu já soube muitas coisas além dessa. Só que esqueço rápido. E fica apenas o dia de hoje sendo importante. Mesmo quando tudo é saudade. É saudade do que se teve algum dia de tão bom que se acontecesse hoje, por exemplo, imagina essa alegria: teve um dia que eu tava tão feliz que queria a repetição, não da cena, mas da felicidade inteira do tamanho que aquela tava sendo.(Porque o que fica do escuro da dor nessas horas é que ela amanhece).Eu fico pensando que a vida sabe bem conjugar os seus verbos.Só é preciso a palavra caber direitinho naquele embaraço de coração batendo confuso. Aí tudo acalma e parece aprimoramento.Que é como quando você só percebe que aprendeu o estudo tentando explicar a alguém.E a pessoa também fica estudada porque entendeu o que você entendeu quando explicou.E recebeu pronto o que a gente levou dias destrinchando.Por isso que compartilhar é palavra que vai caber sempre na dor, no amor.Eu acho tão importante fazer bom uso da palavra compartilhar. Que nem quando a gente.

*

*

Marla de Queiroz

quinta-feira, agosto 14, 2008

Da saudade

Foto:Alberto Viana d´Almeida

Guardei tanto tempo essa saudade que o coração intranqüilo precisou telefonar para dizer do tempo: que dias tão azuis, meu deus... Em dias tão nublados. A falta de assunto na ponta da língua.Meus nervos de água.E o meu coração intranqüilo falou de outro tempo quando só queria saber:
Como era mesmo que você me olhava quando a gente ainda se via?

*

*

Marla de Queiroz

sexta-feira, agosto 01, 2008

Quando a leveza é o que sustenta o peso...

Foto: Graça Loureiro

Traz esse teu olhar pra perto de mim, desembrulha tua alma introspectiva e vamos cuidar das coisas com calma. Deixa o profundo pra outra hora antes que a gente se consuma até os nervos. Há tempo pra almas angustiadas, mas há dias de tons bem mais leves, de sentimentos sutis. Não determine o sentido das coisas antes delas terem algum. Espere o momento do desespero, não o antecipe. Se ele quiser, virá em dias tão lindos como este. Agora, só há o convite pro sono mais doce e pra conversa mais amena que nos faça rir de novo.Deixa teu coração abraçar o que digo enquanto afago teus cabelos.O nome disso é carinho.Esquece um pouco essa dor que te espreita.Convida ela pra dormir ao relento enquanto meu colo quente vai chamando de volta teu sossego.Chega de tantas palavras que fervem, meu amor. Vamos pronunciar cuidados. Vamos nos envolver em abraços. Vamos viver o que chega assim, limpinho, sem apertar o peito. Traz teu olhar pra bem perto, eu os fecho e te mostro a paisagem que teci com palavras pra adoçar teus ouvidos.

Vamos dormir em paz e acordar antes desses amanhãs.Vamos acordar antes que seja tarde.

*

*

Marla de Queiroz

sábado, julho 26, 2008

E, na brecha de um medo...


Foto: Joana Muge
O amor nasceu assim, numa hora qualquer de um dia que não me lembro, eu estava distraída. Pode ter sido em janeiro ou novembro, não lembro a data, só o momento.
Antes de o amor nascer eu me ocupava com o óbvio do sexo bom que vinha dele, mas parecia que era só aquilo. Por isso me atirava nos braços do sofá e dizia fatal: ou você ou ele. "Seremos os três então", e ele se atirava no sofá comigo. Mas tudo era só essa ofegância.Quando nasceu o amor eu o olhava enquanto secava os cabelos à noite depois do banho. E ele me disse:
“ Vem logo pra cá, vamos fazer algo tão bonito que nos dê muita saudade depois, dessas que nos fazem rir sozinhos enquanto caminhamos, escovamos os dentes ou lavamos a louça”. Foi ali mesmo que nasceu o amor. Lembro, depois de tanto tempo, com um riso frouxo, enquanto enxugo os pratos.
*
*
Marla de Queiroz


segunda-feira, julho 21, 2008

Carta de amor pra mim mesma...porque só eu sei o que preciso ouvir.



Marla,

Escrevo enquanto te olho por dentro. O que vejo nem precisa ser bonito, nasci para amar tudo que vem de você.Escrevo pra te fazer um afago.Porque te conheço inteira, naquela hora em que tudo é silêncio e sombra, naquela hora em que sua gargalhada é um sol.Desse seu corpo que nasceu para abraçar, eu conheço cada poro, cada taqui-bradi-cardia.Conheço cada sopro, cada falha na tua voz.Toda a força do teu canto desafinado, eu conheço.A intensidade do teu gozo, a fluidez das tuas palavras orgásticas que não admitem tutelas. Eu te conheço além da tua relação anti-convencional com teus homens.Com tuas mulheres. Com essas pessoas que você ama.Com essas que você se recusa a odiar porque não quer despender energia pra isso.

Eu te conheço doendo. Eu te conheço em paz.E sei quando você finge que nunca fingiu um orgasmo.E é por isso, Marla, que eu sou a pessoa que mais poderia amar você.Porque não me interessa onde você erra, me interessa o que você aprende, apreende, absorve.Me interessa é como você se transforma. Interessa é o teu olhar de novidade derramado sobre as coisas simples e cotidianas como se descobrisse a essência do mundo diariamente. O que interessa é esse seu medo da morte, a sedução que ela exerce sobre você e o teu instinto de vida tão maior que tudo.Eu te conheço boêmia, anestesiada porque tua intensidade sufocando, apertando os dentes.Eu te conheço premonitória, dando consultas em mesas de bar, plantando esperanças porque a intuição disse que sim, vai dar certo, e deu.

Eu te conheço arrasada, opaca, ferida, feroz.Rabugenta.Confusa. E não é menos Marla. É a outra ponta do extremo. A totalidade. Eu te conheço tendo recaídas, não sendo ingênua mas optando por acreditar no outro de novo, de novo, de novo. Mas só até a terceira vez. Eu te conheço com um mau-humor contagiante, com uma disposição esfuziante, com uma alegria solitária, com todos os teus amigos na praia, ou sozinha com os teus livros e uma canga à parte pra eles.Aquela que só entra no mar de mãos dadas com alguém porque tem medo de não sair. A que evita altura porque quando olha pra baixo só pensa na queda.A que se treme inteira lendo seus textos em eventos poéticos porque tem fobia de público.A amiga popular e agregadora. A que morre de ciúmes e toma gelmax efervescente pra acalmar a gastrite ciumenta.

Eu nasci pra amar você porque sei dos teus desesperos, tropeços, anseios. Sei da tua honestidade quando sente.E dessa intranqüilidade pela falta de ambição.Te conheço acordando de madrugada só pra anotar uma frase.E fazendo da prosa poética teu sossego. Da vontade que você tem de voltar logo pra casa só pra escrever aquele texto que nasceu durante a caminhada. Das tuas roupas com cores desconexas.Da tua irritação com pessoas desconectadas. Tua preocupação com o lixo. Teu preconceito com o luxo. Teu boteco copo sujo.E a solidão permanente e o teu namoro com a escrita.

O que ainda posso dizer? Que você, Marla, vive para a palavra, mas anseia viver exatamente aquilo que ela não alcança.
E é por isso que eu te amo além do amor.
Eu te amo para sempre. Hoje.

*

Marla de Queiroz

segunda-feira, julho 14, 2008

Divagações...


Foto: Silvia Afonso




Só um poema é remédio pra curar uma página machucada pelo silêncio.Essa frase me veio hoje à tarde, enquanto eu reclamava minha falta de inspiração.Pensei em escrever uma carta com notícias antigas porque naquela data de 2002 as melhores coisas me aconteceram. Era dezembro, suado. Eu havia chorado uma semana inteira pela perda de um HD onde eu tinha um livro pronto. Mas depois, veio o amor. Vamos reciclar essa história magoada, ele disse.E um raio de sol espancou minha tristeza.(Porque se a vida nos ressente, também nos restaura).

Se eu não escrevesse, minha carência seria apenas a falta de alguém, meu amor seria apenas mais um namorado, minhas despedidas seriam apenas mais um hematoma na alma,teriam apenas o adeus como adorno.E tanta alegria que vem vezenquando subitamente nos dias, seria apenas uma luz solitária. Quando a poesia resolveu morar em mim, tudo virou matéria-prima e eu ganhei uma espécie de entendimento maior sobre as coisas.Quando choro gotejo verbos, quando amo suspiro versos, quando grito desamarro palavras.E isso faz de mim mais generosa, porque compartilho. (Você me disse isso e eu achei tão bonito).

Se as coisas têm um nome próprio, cuido pra não confundir amor com apego, eu te disse tentando ser mais interessante. O amor é essa melodia que envolve, mas não se aprisiona o abstrato, as notas dançam na palma da mão por um tempo que é pra que se possa ver pra sempre o fugidio das coisas. Depois elas somem. Fica uma lembrança de tudo que foi importante. Mas a importância somos nós que damos. Têm coisas que seriam interessantes que eu me lembrasse pra compor um lado meu que ainda não conheço direito, mas por doloroso demais eu esqueci com a rapidez que durou aquela febre emocional.(Eu sempre sofri fisicamente pelas coisas importantes). Mas meu corpo não agüenta mais, adquiri a leveza por puro bom-senso. Penso pouco no que vejo.Quando acho bonito, não destrincho o conceito de beleza. Fernando Pessoa sabia das coisas.

Se a dor é insuportável ou a alegria desmesurada, a palavra sempre salva meu coração. Matéria-prima pra poesia é essa vida com seus incontáveis dias de azuis e sombras.

Eu tenho uma filosofia de vida que consiste em abandonar a cada dia uma certeza. Mas tenho ainda uma convicção: eu quero publicar meu livro antes de ter um filho e plantar uma árvore dentro de cada uma de suas páginas.
*
Marla de Queiroz



domingo, julho 06, 2008

Sobre a espera

Foto: Fernando Figueiredo

Para M.C.que me contou uma história tão dolorida.

É que esse amor a bagunçou inteira. Jurou que viria vê-la por três vezes. E a mesa posta, a casa limpa, o vestido bordado. Agora o cheiro das flores que murcharam na chita do vestido lavado. Agora esse café frio, uma das taças intacta, o vinho pela metade. E ela contando sua coleção de esperas, crepúsculos e cartas rabiscadas em guardanapos.

Tentando se reorganizar novamente, rezava pra que tudo voltasse ao seu devido lugar: onde não havia nenhum (falso) entusiasmo e nenhum desses fogos (de artifício). Ela havia chamado de tédio um momento em que , na verdade, seu coração estava em paz.

É que esse amor a bagunçou inteira. E a louça suja de um prato só. E a angústia dura de um parto só. E toda a ternura, como havia lido em Drummond, toda essa ternura inútil, desaproveitada.

Ela só queria que essa dor tão familiar, lhe fosse estranha. E que alguma coisa lhe fizesse companhia, nem que fosse uma voz do outro lado que considerasse a importância que havia para ela de, pelo menos, ouvir um adeus.
E pedia esperançosa: Deus perdoa por eu ter amado desajeitadamente, quem não me amou de jeito algum.
*
Marla de Queiroz

quinta-feira, junho 26, 2008

Sobre medos

Foto: Catarina Paranhos

Não sei se há verdade no que escrevo. Há sentimento e uma vontade imensa de transmutar certas tristezas. Mas verdade, talvez não haja. Não há uma real crença de que o texto esteja pronto. Não há um absolutismo nessa sensação que as palavras causaram montando uma história bonita. Às vezes, de tão insegura, por tanto medo de cambalear entre as palavras, risco o papel até rasgá-lo, tamanha minha força. Essa força que só quem tem muito medo dentro de si sabe usar).

Eu produzo porque tenho muito medo de ser inútil. Eu abandono quando sinto muito medo de ser rejeitada. Eu adormeço porque tenho medo de não encontrar paz em nada. E, de tão compreensiva sempre, quando tenho que me defender, só tenho vontade de agredir. Porque tenho o potencial de tanta raiva dentro de mim. (Eu me busco tanto em tudo que fiz da palavra “encontro” o fim da minha estrada. E sigo caminhando a esmo com a obstinação dos que não têm destino certo, apenas a intuição de que chegarão nalgum lugar que não se chame “cansaço”).

Não sei se há verdade no que sinto. Há sempre uma espécie de embriaguez fingindo alegria. Há sempre uma espécie de lucidez trazendo a raiva à tona. Há sempre uma espécie de entendimento que me deixa vulnerável, emotiva e crítica. Não sei se no auge da minha perspicácia eu admitiria tanta bondade, nem sei se vivendo o meu cotidiano com toda a minha racionalidade eu admitiria tanta ternura. Não sei se admitindo essas características em mim, quando tivesse essa oportunidade, eu seria menos carrasca.

Tenho tanto medo das palavras que machucam que evito meus mais sinceros xingamentos. Porque sei usar palavras pra ferir com todo o dom de um poeta.As mesmas que sempre pretenderam curar. Tenho muito medo da poesia que transfere o medo pro outro, e se vinga dele pra fazer doer de um jeito a dor que não se agüentou sozinho. (Essa que desestabiliza uma pessoa emocionalmente sem a menor culpa).

Na verdade, se é que há alguma, acho que tenho direcionado muita energia pros meus medos.Talvez por isso, eles tenham sido as forças mais presentes no meu cotidiano.E tenham feito do meu coração um ser tão assustado, com tantos sobressaltos.(Por isso, talvez, minhas taquicardias pelo meu mais puro amor tenham parecido apenas maus-presságios).

Marla de Queiroz

quinta-feira, junho 19, 2008

Um suspiro


Foto: desconheço o autor

*
Porque a voz dele me toca feito as mãos
e as mãos dele me envolvem feito fábulas.
E as duas, quando passeiam em mim
desabotoam
minhas mais
mal-comportadas
palavras.
*
*
Marla de Queiroz

terça-feira, junho 10, 2008

Da solitude

Foto: Maria Flores

Abandono-me calma entre os lençóis.
E o corpo nu e intransigente,
não quer a ninguém, só esse estado
de deslizar tranqüilo ,quase inapetente.

Celebro a solitude que me traz sossego.
E tramo os meus dias em papel de seda azul:
“Amanhã comprarei frutas doces
e incenso de lavanda”,
penso enquanto acaricio o meu corpo nu.

E nada me tocará não seja a música
nem me bolinará não seja o verso.
Amanhã talvez eu queira outra coisa,
hoje estou apenas para mim:
completamente nua,
absolutamente Una com o Universo.

*
Marla de Queiroz
*
P.S.: Conversando com uma blogueira e leitora dos blogs, surgiu a idéia de promovermos um encontro de blogueiros e leitores que moram
aqui no RJ. Acho que seria uma noite linda de troca...O que vcs acham?

quarta-feira, maio 28, 2008

Notícias minhas...



Foto: Ana Paula Souza

Na brecha dos meus suspiros pela falta de tempo, observo a moleza do dia, enquanto caminho apressada pra minha mais nova ocupação. No meu coração, às vezes um frio, um vazio do tamanho do sol.

Na hora do almoço, ando pela praia porque só sinto fome quando não devo. E todos os dias eu só sei dar notícias do mar digitando uma mensagem pessoal no msn.

No final do expediente, volto rápido pra casa escutando o barulho dos carros, cheia de vontades de algum cigarro. E isso me faz tão poluidora do meu ambiente quanto eles do meio.

Não tenho tido tempo pra dramas emocionais nem pra leituras românticas. Tenho sido prática, minhas leituras dinâmicas e isso é hostil demais pro meu lirismo.

A lascívia me ataca toda noite, quando só tenho uma hora curta antes do sono pras minhas segundas intenções não agendadas. (É quando deveria ser minha maior hora de almoço). Por isso esse coito interrompido pelos dias úteis sem utilidade.

E custo a perceber que, pra quem queria enloucrescer, a responsabilidade e o juízo só atrapalharam.

(Enquanto subsisto, que ao menos minha poesia sobreviva a isto.)
*
Marla de Queiroz
*
*

P.S.: Tenho recebido muitos e-mails reclamando da demora de atualização do blog...Saibam que se tem alguém se angustia com isso, esse alguém sou eu!Seria delicioso escrever aqui todos os dias, mas quando não me falta tempo, me falta inspiração. Palavras exigem respeito, cuidado, dedicação. E nem sempre o texto fica tão bom, mesmo quando temos todos esses elementos.Daí ele vira um rascunho por um profundo respeito que tenho a vocês que me lêem e divulgam. Enfim, tenham paciência, eu adoraria escrever com muita freqüência sobre os mais diversos temas, mas os textos, por incrível que pareça, exigem de mim uma melhora como pessoa que às vezes não estou pronta. De qualquer forma, cada e-mail desses é um afago no meu coração. E um incentivo a superar todas as adversidades que me impedem de fazer aquilo que mais gosto: escrever.
Torçam para que as palavras não me abandonem. Às vezes, quando demoro tanto, sinto um medo horroroso.Porque sou tão dramática. E vocês exigentes demais comigo. E incrivelmente sedutores. E eu absolutamente seduzível. Obrigada pra sempre.

quinta-feira, maio 15, 2008

" Coisas que só um coração pode entender..."


Foto:Ricardo Costa


Eu transito pela vida, antes doida que doída:
tão sem dono, tão sem rumo, tão sem memória.
Entro em becos, bares, corações.
Saio intacta, sem impacto, saio rápido.
Quem desenha meus caminhos são meus passos.
Quem desenha meus amores são as minhas conveniências.
Eu transito pelas ruas, toda em cores;
toda força, toda vulva, toda contradições, toda em carne viva.
Mas escrevo meus amores: antes doida que doída.

*
Marla de Queiroz

quarta-feira, abril 30, 2008

(Nossos) verbos de ligação


Foto: Sónia Cristina Carvalho


Rabisco passos no rodapé da página e percorro o caminho em branco ao encontro dele. Sei que vai me olhar surpreso e que vou fingir certa displicência como se o encontrasse por acaso. Contarei tantas novidades que pareceremos dois desconhecidos. Mas não vou saber explicar a deselegância das minhas vontades, o desejo intruso que me assalta quando o vejo. (nem esse meu medo de chegar atrasada no seu afeto). Vou fingir um olhar imperturbável e palavras quase engajadas num silêncio. E pras suas mãos argumentativas, minha maior sinceridade: os meus ombros nus, exclamativos. Não me incomodará nem mesmo esse tempo todo em que se ausentaram de mim os versos_quero conjugar com ele, dessa nossa ligação, os verbos: ser, estar, parecer, permanecer, ficar...

*

Marla de Queiroz

sexta-feira, abril 18, 2008

Ansiedade

Foto: Carolina

E agora essa inquietação. O peito taquicardíaco, meus dedos não escutam palavras e eu insisto em escrever a desordem interna. Vou dobrando sensações e empilhando nas gavetas tudo separado pelos tons, em degradê.Tento organizar o caos, por cores, mas não controlo o descompasso das emoções.Respiro fundo, me falta o ar.Sinto a mão da ansiedade apertando meu pescoço, uma bolha de alguma coisa presa na garganta. O corpo todo eriçado à espera do próximo passo. De encontro ou ao encontro? Contrários. Com-trastes.”Não se fazem mais homens, pra mulheres como eu”....penso.

Alguma coisa incrível precisa acontecer ainda hoje, enquanto há tempo. Não suportarei esperar mais a eternidade desses próximos cinco minutos.

*

*

Marla de Queiroz

quarta-feira, abril 09, 2008

Sem restaurações


Desconheço o autor da foto


Olhando a foto, foi quando eu descobri que tua ausência inda doía e o tempo que passou não me serviu como remédio. E a minha paciência foi inútil e todo desapego incompetente. Eu me desvencilhei de livros, cartas e bilhetes e me desmemoriei por algum tempo.(Quis tanto ter você, depois silêncio). Mas nessa tarde estranha em que ensaio versos, só vem tua falta à tona...E eu desamarro um pranto que eu sei tão antigo...(Desculpa essas palavras com cara de choro): ainda há reticências.
*
*
Marla de Queiroz

domingo, março 30, 2008

Outono

Foto: Sonia


Peneiro no silêncio algum gesto.
Há vida pra contar, mas falta um jeito.
Palavras tão ausentes, as unhas sem vermelho,
só há vulcões por dentro.

Já é outono, meu amor,
estação em que me despeço de todos os meus gritos.
Há fortes luas e um sol ameno
e a pele da cidade acariciada pelo vento.

(Carícia é palavra que escorre pêlos-dedos-língua).

Alguma nostalgia nos finais-de-tarde.
Eu brinco de poesia na frente do espelho.
Os olhos sem segredos, a boca tão urgente
e um pequeno amor trazido pela brisa .

Já é outono, meu amor, e a palavra em si já é aveludada:
merlot bem encorpado, inverno é cabernet demais e um tanto ácido.

Então me abraça, meu amor,
que eu conto pra você os meus anseios
e deixo que você repouse sua cabeça
entre os meus seios.


*


*


Marla de Queiroz

quarta-feira, março 12, 2008

Das descobertas


Foto: Fernando Figueiredo


Arrumando minha casa de dentro juntei estilhaços de um tempo em que, cansada de sóis vazios e dessas tempestades de agonia, pra esquecer um amor antigo, arremessei meu coração contra a parede. Eu descobri que algumas pessoas se juntam não por afeto, mas por tristeza encomendada. Que certas coisas que deveriam afastar, às vezes aproximam.

Quando arrumei minha casa de dentro tinham muitas declarações de amor de gente que já não me amava mais pelo caminho. E quando eu estava prestes a começar uma vida nova, tropeçava nesse passado e nos referenciais antigos e voltava para lá que era um lugar aparentemente mais seguro. E ergui tantas paredes rabiscadas pelo medo.

Descobri, quando abri as janelas, que uma chuva muito forte também tem som de aplausos. Que na pauta dos meus lábios só cabem palavras macias. Que há que se beber do outro também a fonte de idéias para que tudo não se resuma num encontro incandescente de peles porque devemos explorar todas as qualidades do desejo.

Eu descobri que tenho um jeito de gostar exagerando os fatos e que a ficção é o que mais participa da minha realidade. Mas que sempre fica um rastro na minha pele se alguém se demora nas carícias. E que não se pode ter a força de uma represa retendo seus próprios líquidos.

Quando arrumei minha casa de dentro eu descobri que essa é uma tarefa infinita. E há que se reordenar as coisas incansavelmente pra se ter espaço pruma nova cor. E que uma boa base impede um desmoronamento, mas que a implosão da estrutura inteira, às vezes, é a coisa mais sábia a se fazer em determinados momentos.

*

*

Marla de Queiroz

terça-feira, março 04, 2008

Antes do anoitecer



Foto: Graça Loureiro


Na hora mais bonita da tarde, estamos eu e você. Deitamos sobre os lençóis do tempo os nossos corpos acariciados pelo sol de outrora. Lá fora o mar explode em fúria e o horizonte, essa linha vertebral das águas, permanece imóvel e calmo.Nessa hora mais bonita da tarde eu sinto você respirar no meu pescoço enquanto teus dedos direitos entrelaçam os meus e a tua mão esquerda em concha veste um dos meus seios.E o coração repousa tranqüilo, sem sobressaltos, porque a nossa sede é delicada.Lá fora cristais de sal temperam o final do dia, aqui dentro, o perfume de um quase silêncio adoça o nosso cansaço.Nessa hora mais bonita da tarde, aqui dentro, adormecemos lentamente no encaixe mais perfeito enquanto, lá fora, estrelas começam a cair tão solitárias...

*

Marla de Queiroz

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

P.S.:

Foto: Nuno André Monteiro

E, no meio de tantas mudanças, muitas rupturas. Algumas coisas foram encaminhadas pro novo destino, outras se perderam irremediavelmente. O que sobrou posso contar nos dedos, antes eu mal conseguia fechar as gavetas_ tão abarrotadas de coisas, pessoas, lembranças. Mas o que houve afinal, além de um processo íntimo, pessoal, intransferível? Uma mudança externa também, porque há sempre um desconforto em quem se acostuma com o nosso comportamento mais antigo. E além de lidar com o luto da morte do que éramos, ainda o estranhamento dos que não aceitam o que nos tornamos. Porque mudam os gostos, a disposição e os planos. E alguns reagem como se você os tivesse abandonado no meio de uma viagem a dois por outro continente, quando só você sabia falar a língua local mesmo que os impedisse de aprender o idioma .

E, no meio de tantas mudanças, algumas desavenças. Só porque aqueles mesmos não entendem, não entendem, não entendem, porque não querem aceitar, que tudo é tão dinâmico e que nem deve ter sido tão brusca essa mudança, mas que a coisa maturou durante um tempo em que só queriam que você se envolvesse numa história DELES, que se misturasse nas emoções DELES, que traduzisse o mais íntimo DELES. E, ao mesmo tempo, você estava amadurecendo uma mudança sua e a coisa toda doía, doía. Mas eles não perceberam. Porque a demanda sobre a vaidade deles era grande demais, importante demais, imprescindível demais pra sua poesia.

E, de repente, a minha poesia não queria falar mais sobre nada disso. Minha poesia queria ser uma carta anônima, um silêncio, uma brincadeira. Minha poesia não queria ser nada além de uma frase jogada do mais íntimo de uma iluminação sobre um determinado assunto.

Porque, no final das contas, o que escrevo nem é poesia... é prosa, é carta, é desabafo, é qualquer coisa. É um bilhete manuscrito pregado no espelho só pra desejar “Bom Dia!”

*

*

Marla de Queiroz

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Num fôlego só...

Foto:Alberto Viana d´Almeida


Dispenso a influência da angústia de Clarice Lispector por dois momentos: pra suspirar pelo amor de Riobaldo por Diadorim,(“Grande Sertão: Veredas” é a minha bíblia, Deus me perdoe)e pra escutar o Rei Roberto Carlos que me desconcerta com uma simplicidade quase dolorosa.Eu ponho o livro aberto entre as pernas e canto junto: “ quando eu te amei pela primeira vez, tudo era poesia, a juventude andava em nossos corpos, em nossa fantasia..." Você ri da minha mistura de ídolos, da mania de querer fazer tudo ao mesmo tempo e da emoção com que canto uma música que não é do Chico Buarque pra, em seguida, retomar repentinamente a leitura do trecho interrompido.Mas eu não estou sofrendo quando escuto uma música triste e choro sentida, eu sofro é por não ter escrito nada tão genial quanto Guimarães Rosa.(Ainda explico: é que eu nasci envelhecida, eu moro com a saudade).O meu humor oscila várias vezes nesse mesmo dia e eu consulto o calendário e o meu mapa astral pra saber se são hormônios ou os astros, e consulto você pra saber se sou insuportável.Talvez eu seja bipolar, eu penso, todo mundo hoje em dia é.Você sugere ver qualquer coisa na TV, prefiro descobrir o livro que ganhei do Xico Sá. Não consigo parar de ler ao folhear.Há tempos não escrevo um texto bom, reclamo pra mim mesma enquanto esvazio uma garrafa de vinho sem sucesso.Minhas emoções andam muito fragmentadas, concordo comigo mesma dando um último gole.É preciso que a música termine para que eu passe o rímel, o perfume e saia. Nesse momento só consigo fechar os olhos e soltar a voz com força, afagando o peito enfraquecido pela ansiedade.Estou esperando um telefonema há 3 horas, me antecipei pra medir o atraso.Na verdade, ainda há tempo hábil para o amor e vai ser tão melhor se só chover depois, intuo.A tempestade veio antes, você ficou preso no trânsito e vamos perder o filme, era o que eu temia. Mas eu comecei a ler um livro incrível, preciso conversar com alguém culto, rebato. Você entende com a mesma discrição da minha insistência.Você decide que vem, a qualquer hora, me acalma. Ainda temos um dvd ou conversas intermináveis, prometo. E eu torço pra que consigam remover rapidamente essa árvore que caiu obstruindo o trânsito. E rezo por dentro pra que ela não tenha sofrido muito.


*


*


Marla de Queiroz

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Depois da festa

Foto: Baby (saMY)

Confetes, teu chapéu colorido e a minha saia de tule espalhados pelo chão. Agora meus cabelos molhados, tão castanhos, e os teus olhos azuis. Um resto de vinho e Bruna Caram com a voz tão limpa cantando “palavras do coração”, (queria ter dito o nome da música sem usar aspas). A minha cara lavada, o teu sorriso malandro. Um dia escrevi um poema menor que o título, você me disse em itálico. Eu já apareci em algum desses teus jogos de tarô?, interrogava. Sim, sim, meu Cavaleiro de Copas (eu respondia sem travessões). Sabe, eu tenho a sensação que antes de você, nada aconteceu de tão bom pra mim...Você vai escrever sobre isso algum dia? Não sei. Como vou amarrar essas palavras diluídas no beijo?

*

Marla de Queiroz

domingo, janeiro 27, 2008

Submissão

Foto: Graça Loureiro




Ilustro mistérios enquanto me desnudo pra você
tirando cada peça que cobre o meu corpo.
Você nem imagina quanta sinceridade foi adulterada
no exato momento em que eu desviei o meu olhar do teu:
escondi em um segundo, uma vida de intenções.
Fui reeducada para farsas desde que me abandonaram
no meio de um amor tão espontâneo.
Agora não tenho dedos famintos de reações nem lábios lascivos.
Agora tudo é toque leve e avisado, histórias bem-datadas e beijo breve.
E no rosto eu cultivo com afinco essa expressão fria e o olhar vazio.
Tudo é disfarce e nenhuma verdade.
Eu aprendi a cultivar distâncias.
Finalmente eu troquei a minha real intensidade
pela postura calculadamente adequada de moça frágil.
Finalmente eu construí um personagem sem nenhuma poesia.
Agora, todo o meu afeto é discreto e as minhas taquicardias
semi-ausentes
(para que me ame e nada doa em você.)

E o que era blue(s), agora jaz(z).
*
*
Marla de Queiroz

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Sudoeste musicado

SUDOESTE
O que dói em você, pouco me importa.
Eu não cavei teus abismos de mim.
Fui teu abrigo, teu barco
e lua cheia iluminando o caminho.
Você escureceu nosso afeto,
minou nosso rio.
Pra eu ficar, só precisava do seu toque-agasalho.
Você me deu um punhado de frio.
*
*
Poema de Marla de Queiroz musicado por Daniel Chaudon


sábado, janeiro 19, 2008

Aniversário de dois anos do Blog

Foto: Graça Loureiro

Esperou que as horas dormissem para que houvesse mais tempo pra sentir. E escolheu a melhor sensação pra vestir o seu poema. E havia alegria no peito, mas a sua primeira frase nasceu triste. Não entendeu. Não eram palavras melancólicas, era o tom do texto que estava em harmonia com a tristeza. Como se o primeiro olhar que a poesia lhe lançasse fosse lânguido, desanimado: um olhar sem flerte. Nenhuma sedução se fazia ali.
Tentou recortar uma paisagem mais gentil que fosse equivalente à alegria, e um céu tão azul aconteceu... Mas o céu sem nuvens era de um azul tão só... Talvez aquela calmaria aborrecesse o seu rascunho. E no fundo, o que lhe faltava era companhia. E pintou uma ventania brusca que trazia chuva e afundava estrelas.
Na verdade, tinha muito choro guardado naquele vento sudoeste... Que lavasse aquela dor, então.

*

*

Marla de Queiroz

*

P.S.: Hoje o meu blog completa dois anos de vida! Eu escrevi um longo texto sobre tudo o que ele me deu, tudo o que vocês me proporcionaram de amadurecimento...Mas depois de relê-lo, achei o texto tão cansativo e em seguida esse textinho me aconteceu...Aceito! A palavra é moça temperamental...Obrigada mil vezes a todos que tornam esse espaço um lugar tão aconchegante pra mim!

terça-feira, janeiro 15, 2008

Sobre a angústia...ou "depois daquela conversa"

Foto: Graça Loureiro


A Sérgio Lélis

Porque a angústia, meu amor, é essa tristeza sem rosto, sem acontecimento, sem desencadeador, sem réu.É de repente não caber em lugar algum e escrever esse amontoado de palavras magoadas com ninguém.Essa angústia a gente não puxa, não escolhe, ela entra na gente assim como a noite caindo lenta e definitiva.E ela aperta teu peito com toda disposição do mundo. Angústia te tira do mundo de fora, te deixa encolhido olhando pra dentro, porque não se pode apontar o dedo e nem colocar a culpa em ninguém, ela simplesmente é esse mal-estar que te faz querer mudar tudo de lugar e se fazer alguns ajustes. Você não vai conseguir sequer fingir que está bem se ela te abraçar.Angustia te deixa enfastiado com a própria rotina, com o seu jeito antigo de conduzir as coisas. Ela te pede morte e renovação. Ela te impõe uma perda irremediável do que você era antes, ela te força a trocar de pele como se você tivesse tomado muito sol ...sem proteção.O que a angústia quer de você é a desaceleração pra parar e contemplar e agir de acordo com o que pede a tua sede de alma...

Ela vem pra gritar aquilo que seu coração sussurrou tantas vezes num momento em que você pensava estar ocupado demais para ouvir.

*
*
Marla de Queiroz

*
P.S.: Amores, estou muito feliz! Descobri ontem, navegando por aí, que meu blog foi indicado como um dos melhores blogs de poesia no concurso do BLOGGER BRASIL 2007...E essa escolha foi feita pelo público e eu nem fiz campanha porque nem me lembrava de estar inscrita! Obrigada a vocês meus leitores que me mandam e-mails lindos, deixam comentários maravilhosos, divulgam meus textos em seus blogs e perfis de orkut, aos que vêm aqui caladinhos só pra conferir o que tem de novo,enfim, obrigada a todos que simplesmente torcem pra que eu tenha inspiração sempre...É disso que preciso. Dia 19/01 meu blog completará 2 anos de existência...Fico me lembrando do dia em que ele nasceu, meio assim, desengonçado...e que agora posso dizer que minhas poesias/textos já estão engatinhando.
Obrigada pela sensação que tenho, quando resolvo algum mergulho bem profundo, de que alguém sempre estará segurando a minha mão!

domingo, janeiro 13, 2008

Mão dupla


Foto: Mariza


De mãos dadas
atravessaremos esses becos, avenidas e estradas
à procura de uma trilha
(sonora)
que nos leve a um canto
(afinado)

*

*

Marla de Queiroz

sábado, janeiro 05, 2008

Palavras soltas


Foto: Ana Red


Mas para que se perceba o verão há que se abrir as janelas do corpo_quando pela manhã o suor ainda é virgem e o cansaço não embruteceu as retinas do sonho. Mesmo que o dia irrompa agressivo e o sol inclemente de luz tanta, no silêncio, pode-se deixar guiar até ao barulho das fontes, até ao sussurro das ondas. A alegria quer a gente muito alerta pro que possa desaguar turvo bem no meio da esperança cristalina. (É por contágio que as coisas boas nascem e as não tão boas também. E é de inanição que as coisas vivas morrem, principalmente). Tem música que nasce do beijo, do abraço, nasce naquela hora em que todo o corpo estava ocupado em afago. Tem música que nasce do nada_ na hora dos dedos inertes que resolveram dedilhar um sol. Há poesia que nasce da dor e poeta que se acostuma com ela.Tem gente que passa a vida esperando um milagre... enquanto alguém os escreve.

*



Marla de Queiroz

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Porque hoje é meu aniversário e eu completo 1.536 luas de existência...

Foto: Eu mesma por Marco Teobaldo

Sou o resultado desses amigos que tenho e do que recebo diariamente de afago, cuidado e demonstrações de afeto. É disso que sou feita: de um bocado de tanto amor.Sou resultado desses encontros, dessa magia que é meu cotidiano. Dessa minha negociação com a meteorologia pra fazer uma festa na praia e ter de presente uma lua imensa, incrível e pessoas lindas que apreciam a arte, que adoram compartilhar. Sou a protegida pelos meus Orixás. Sou minhas Meninas, meus Caboclos, meus Pajés. (SOU!) .Sou eu mesma essa gota, esse grão, uma obra eternamente inacabada: tudo é uma possibilidade de melhora, de mudança, de lapidação. Sou como as pessoas que me cercam, como essa gente que quer mudar a si mesmo pra que o mundo vibre numa freqüência mais saudável. Gente que presta atenção naquilo que não conhece porque abraça a novidade com a sabedoria de quem nunca vai querer parar de aprender: da teoria intelectual mais complexa à maneira mais criativa de improvisar um cinzeiro.Eu sou essa gente que se dói inteira porque não vive só na superfície das coisas. E que, por conviver mais profundamente com as angústias, são os primeiros a experimentar o êxtase de um dia de sol ou de chuva, de qualquer coisa aparentemente simples. Gente que sabe que viver com simplicidade é a coisa mais complexa que existe... e a mais sábia.
Eu posso ser qualquer coisa que me digam que eu seja porque assim me vêem, porque também sei que tudo é transitório, que tudo é movimento e possibilidade de alguma coisa. Estou apta para me deixar interpretar, mas não para rótulos. Qualquer pessoa que me pense algo, por pensar já perde qualquer coisa que me congele numa imagem... Mesmo quando dizem: tu és poeta. Poesia é fluidez.Sou o que estou e, isto sim, é perpétuo.

Talvez eu seja uma escolha quando todos os caminhos resolveram mudar de lugar só porque ela já foi feita...Mas eu celebro o mistério.
*
*
Marla de Queiroz

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Amistosidade



Foto: Maria Flores



Porque você enterneceu uma noite tão escura com tua voz mansa e teu jeito de entender dramas. E fez uma melodia pro meu poema mais desamparado: tudo era rascunho de alguma coisa fria até você agasalhá-lo...E me explicou porque não fomos tudo aquilo que poderíamos ter sido: naquele momento eu também não estava pronta. Mas me surpreendeu quando não propôs nenhuma mudança brusca e expôs com tanta honestidade a negligência que veio do teu medo: pela primeira vez não havia maquiagem em teu discurso.

O que acontece é que o tempo se apossou do que havia. (Foi quando pude te explicar que as minhas expectativas não eram exigências). Hoje em dia, depois de tanta história não acontecida, sobrou amizade, saudade, respeito. Já que fomos tão inábeis para o amor, restou enfim, essa ternura encabulada e nossas conversas pela madrugada numa hora em que a saudade nos constrói as frases com todos os adjetivos mais suaves para não espantar o sono. E a consciência de que não há mais tempo para usufruir o que não foi aproveitado a tempo. (Por isso choramos apenas por dentro sem deixar que nossa voz denuncie nosso olhar raso de esperas intactas). Por isso tanta doçura nas palavras pra não ferir ainda mais essa melodia frágil e cheia de melancolia. E essa tentativa de que o abraço, apenas escrito, tenha outras formas de tocar. Porque queríamos a mesma coisa, exatamente o que nos faltava e que não soubemos porque não tínhamos para dar.


Seguimos, ainda assim, unidos_ não por sentirmos o mesmo amor, mas por compartilharmos aquela mesma solidão.

*

*

Marla de Queiroz

terça-feira, dezembro 11, 2007

Carta sem remetente



Foto: Paulo César


Gotas de som compõem uma canção de chuva. Veja meu amor, que as coisas não precisavam ser tão tristes. Mas meu coração aperta até quando danço. Porque você me garantiu que longe era um lugar que não existia e agora aqui tudo é espera e fome.Tudo é sede de alguma voz e de palavras de encontro.É que esse silêncio denso não me explica distâncias...ou talvez seja ele que nos afaste ao ponto de nem haver mais eco.
Sabe meu amor, ontem eu lembrei de você quando a previsão era de tempestades e as temperaturas ainda estavam tão altas.O ar pesado e o calor ofensivo.E havia um poema oco e insônia e falta de abraço.

(Minha poesia anda miserável e minhas cartas sem remetentes).

E quando pensei que pudesse começar a me divertir, todos foram embora da festa:eu fiquei sozinha olhando a desordem.
Sabe meu amor, sobrou apenas o meu copo vazio, taças quebradas e restos que não se aproveita mais. E depois, essas gotas de chuva que pretendem compor nenhuma canção.

Meu amor, se longe é um lugar que não existe como você me explica essa distância?

*

*

Marla de Queiroz

terça-feira, dezembro 04, 2007

Extravios



Juliana Ferraz

Eu te agradeço por esse afastamento lento e gradual e pela viagem interrompida por seus perpétuos atrasos causados pelo medo de tirar os pés do chão. Agora, a cada dia eu preciso de uma roupa nova desde que minhas malas foram extraviadas para sempre com todo o nosso excesso de bagagem.
Eu te agradeço pela honestidade da sua omissão tão previsível que sempre confundi com meus presságios. Essa ida sem despedida que você covardeou: eu finjo que não sei, você finge que não foi.E a gente segue inventando que ainda se interessa pelo que começamos a construir juntos, num outro contexto, pra realçar nossos vínculos.

Eu te agradeço a descoberta de que se não seguimos juntos nessas coisas do amor,
seja porque talvez
eu, veterana
enquanto
você ama-dor.

*

Marla de Queiroz

*

quinta-feira, novembro 29, 2007

quinta-feira, novembro 22, 2007

(Re)fazendo escolhas


Foto: Rodrigo Bela Vista

Estou abandonando os excessos com dedicação, disciplina e com todo o cuidado que uma despedida pede para que não seja traumática demais. Eu só soube que estava tudo errado com as minhas atitudes quando elas não serviram mais pra sustentar minha leveza. Foi quando tudo que antes era divertido terminou por me machucar por dentro e plantar no meu olhar uma tristeza sem horizontes alcançáveis. Quando tive que começar a me explicar demais, quando meus personagens foram morar nos meus atores e começamos a viver realmente as dores que inventei, foi quando decidi matar a autora de tantos dramas pra cuidar da casa, regar as plantas e me isolar um pouco enquanto reavaliava quais seriam meus próximos passos. (A minha intensidade não pode continuar servindo de tripé para tanta agonia). Preciso pontuar as histórias, delimitar certos espaços, dissolver conflitos, definir minhas relações e preservar um resto de sanidade que há em mim.(Nunca fui misteriosa, mas expor minhas vísceras na luz mais nítida do dia têm me feito contorcer de desprazer).

A imagem que tenho é a de uma ponte interrompida que desistiu de promover encontros e transformou a metade do caminho de uma possibilidade de relacionamento, num precipício inda mais perigoso, composto por abismo e correnteza. (O estalo seco de um tombo anterior ainda ecoa). E a ressaca de tantos mal-entendidos me empurram pruma nova busca.Vou silenciar um pouco enquanto refaço o mapa do meu destino e elimino definitivamente essa geometria de triângulos que só serviram pra me espetar com suas pontas tão agudas.Talvez eu consiga seguir mais lúcida e tornar a falta de embriaguez suportável.Quero precisar cada vez menos de tantas próteses e do uso dessa desculpa da poesia que brota daquilo que mais dói em nós.Vou abrir a janela para que o ar circule e recicle toda essa energia estagnada. Não preciso mais de tanto contato com as coisas, tenho exagerado nos meus mergulhos e usado lupas que distorcem as imagens. Agora eu só quero me preocupar com uma nova disposição dos móveis na casa enquanto ponho as roupas sujas na máquina de lavar.

*
(sus)penso em passos de (mu)dança.

*

Marla de Queiroz

terça-feira, novembro 13, 2007

Saudade revisitada

Gustav Klimt (Abraço)

Revisito saudades ao rever você e dispenso a mesa de um bar pra sentar ao teu lado na calçada de um Drummond de bronze. Eu tinha na bolsa três poemas que quase escrevemos juntos e algumas poucas e parcas histórias pra disfarçar o nervosismo.Mas o meu disfarce não durou um abraço inteiro e eu chorei depois de rirmos tanto relembrando parágrafos especiais de um tempo em que tudo era uma possibilidade.

Enquanto eu disfarçava os meus olhos marejados, as mãos ansiosas arrancavam o esmalte das unhas. E a tentativa de resgatar todos aqueles assuntos que a vida roubou de nós. E a gente só quis que aquele momento não parasse de acontecer, mesmo depois que o mar dormisse, que a chuva caísse, mesmo que nenhuma estrela se acendesse enquanto as horas se fossem. Que pudéssemos estar ali, tão nós dois de novo, sem romantismo, mas cheios de afeto.

Os seus olhos e o meu cheiro, tanto passado e a intensidade voltando com eles. Os meus olhos e o seu cheiro, vontade de nunca mais deixar que nada morresse entre nós.Em cada palavra que eu dizia só havia a tentativa de justificar meu sumiço e dizer que não foi por maldade, que foi por cuidado e o desejo de preservar a única coisa que sobreviveu intacta após tanto desencontro.Em cada palavra que você dizia só havia a vontade do redirecionamento no fluxo dos sentimentos.

(Tivesse eu ali como fotografar tanto amor mudado, tanta coisa que vinha de uma vez pra preencher os meses desse abismo entre os nossos poemas).

Não sei ao certo o que isso tudo me causou. Eu só lembro que eu quis voltar pra casa mais cedo quando te vi sendo engolido pela multidão. Eu quis voltar pra chorar tranquilamente, com privacidade e alguma mordomia sem saber exatamente se havia alguma dor: se era saudade pura ou aquela revisita ao teu olhar tão cheio de ternura, distância e melancolia.

E depois era só aquela multidão sem você.E as minhas unhas sem esmalte, os meus olhos sem disfarce.E o nosso momento que parou de acontecer pra deixar o mar dormir em paz enquanto a chuva caía daquele breu sem estrelas.Você se foi com todas as nossas horas guardadas.Levando nos teus olhos um cheiro meu.E novamente o abismo que me separava de todos os nossos poemas. E eu chorei até dormir, abraçada no que ainda pulsava vivo de nós: um eco, um estilhaço de sol,um detrito de flor, a lembrança de um solo de violoncelo e o esqueleto de nenhuma esperança...
*
*
Marla de Queiroz

quarta-feira, novembro 07, 2007

Quando a saudARDE


Foto: Carla Salgueiro


Hoje eu acordei indócil como são as fêmeas que clamam pelo sêmen semântico.Das que querem beber o líquido quente e viscoso que o verbo derrama no ventre da poesia.Indócil de energia represada, desse ardor inclemente, da vontade da palavra molhada pregada na língua do poeta.(E essa intimação para o passeio lúbrico entre as frestas).Indócil e fácil, súbita e assumidamente oferecida.Daquelas que se despem salivando penetrâncias. Crestada como flor ao sol enxugando-se do orvalho.Planta carnívora, cigana balançando a saia na dança dos Orixás.Suor íntimo de mar, um cheiro fresco de mato. Banho de rosas vermelhas, recendências de almíscar, sinfonia de gemidos.Indócil de tanta força entre as pernas, predadora consumindo a presa entre as coxas.(Cravo as minhas unhas na tua cor de canela).

Dispenso pontes, despeço pudores, despisto a distância
e atravesso a nado o rio que abraçou nosso saveiro.
Porque hoje eu acordei indócil dessa vontade de tê-lo...
“ Que seja doce”.

*

*

Marla de Queiroz

quarta-feira, outubro 31, 2007

Do caos ao cais



Foto: Leonardo Pacheco

Minha poesia me traz consolo, inquietação, devastação e paz.
Ela nunca me diz com antecedência se será de resgate ou de rebentação.
Ela nunca me diz se vai amparar no auge das minhas urgências.
Mas quando minhas palavras se apaixonam por alguém,
elas dançam no corpo dos dedos e se revelam entre tantos segredos
pra sanar o meu caos interno e chegar no eterno cais.

É que, às vezes, navegar é o que há de mais preciso.

*

*

Marla de Queiroz

sexta-feira, outubro 26, 2007

Uma possível versão da autora...ou um desabafo meu

Foto: Fernando Figueiredo


Mas o que é minha vida além desse amontoado de palavras? É como se elas fossem um embrulho incrível envolvendo uma imensa solidão. Enquanto todos aspiram amores e coisas materiais, eu aspiro a verbalização daquela sensação indefinida, a metaforização do ato sexual mais cru e a possibilidade de colocar poesia onde não há.


Eu sigo brigando com essa limitação da linguagem, de vocabulário. Eu sigo tentando racionalizar a minha loucura como quem luta desesperadamente contra um câncer.Às vezes, tudo que preciso é de repouso intuitivo, mas as vozes, as vidas, os personagens que criei não dormem: seguem trepando, tramando coisas, sofrem, amam, nunca, nunca calam. E quando se revoltam, me omitem detalhes importantes da trama, do desfecho, me impedem de desenvolver aquela cena, escondem o rosto naquela hora em que poderia ter sido a mais perfeita foto 3X4.


Eu sigo tentando construir signos novos que repertorizados abrirão possibilidades até então inexistentes. Como quando eu digo que o dia acorda ou que a dor cochila.Como quando eu sinto que o silêncio espreita o meu grito interno.Como quando eu berro que namoro o vento. Como quando eu falo que o amor morreu, quando ele não morre.Essas coisas todas que eu digo e que vocês conhecem.Essa vida inspirada nessas dores contadas e que eu vivo quando escrevo.Essas paixões tão idealizadas e inventadas que me custam a perda do apetite, o aumento da libido e o aperto no peito. Esse acordar sem paisagens possíveis porque as teci como quando se pinta uma aquarela que não seca nunca...E as cores continuam dançando na tela e apresentando novos caminhos.Essa vida presa do outro lado da janela.


Eu não caminho por estradas, mas por frases. Eu determino destinos enquanto o meu me escapa.Eu não entendo esses momentos de raiva ou de amor por pessoas que nem conheço e que criei com a força da minha fome de dizer, de dizer coisas sobre tudo que habita em mim como idéia vaga e fugidia...essa mania que tenho de tentar aprisionar sensações que não admitem tutelas.


Eu entendo que talvez eu tenha sido cruel com alguns destinos dos meus personagens, mas a vida toda é essa oscilação de boa sorte e tempos miseráveis em que tudo que a gente pode fazer é esperar e pagar pra ver...Ou rezar pra que passe logo, ou pedir pra que o tempo pare. Essa negociação eterna que todos fazem durante seus dias, pra que sejam úteis também os sábados, domingos e feriados, eu faço com a palavra. Eu sei que ela não silencia, mesmo quando digo que. Silenciar não é emudecer.Mas ela muda de casa, ela explora outras áreas, ela viaja pra outros templos.


E, humanizada como está na minha vida, e materializada como é nas minhas histórias, tem temperamento, e, de repente me abandona como quem descrê do relacionamento que acreditou um dia. Ela me cospe na cara uma incompetência de dizê-la. Ela me atira restrições e pré-requisitos de leituras para que se ofereça a mim novamente. Então ela diz: atualize-se, desgarre-se desse estilo, descubra o seu, experimente essa narrativa, escolha outro elemento, vista este personagem com mais elegância, dispa essa cena de sexo, pronuncie pau, buceta, caralho, ao invés de pênis, vagina, ânus.Se exceda!.E, às vezes, eu não sei ou não quero ou não posso.


Não adianta espalhar flores pela casa quando o inverno é semântico.Não adianta mudar o título do texto quando o problema é a falta de assunto.Não adianta usar de artifícios quando a verdade se ausenta.Não adianta pintar um outono e tombar folhas secas, quando a vagina só ficará molhada se você a chamar de buceta...

*

Marla de Queiroz

*

P.S.: As outras versões aqui.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Arquitetura da Relação



Foto: Margarida
Por tanto amor a gente resolveu que vai morar um dentro do outro. Mas numa casa espaçosa com um quarto para cada individualidade. A gente quer que seja preservada essa pessoa que somos com nossos amigos e todas as lembranças mais especiais da nossa trajetória. A gente quer que nosso amor não preencha a nossa vida tão absolutamente a ponto de não restar uma lacuna que seja pra nossa vida anterior e pros potenciais que temos que desenvolver solitariamente. (Como quando a gente tinha tempo livre pra ser só e gostava disso.Como quando a gente não respirava apenas essa novidade da chegada do outro).

Nesse quarto pras nossas visitas, só não é permitida a entrada de fantasmas. De resto, todos os nossos convidados e aprendizados são muito bem recebidos. Depois a gente até pode escolher se compartilhará ou não. E por essa liberdade de escolha, a gente sempre tem vontade de compartilhar.

Por tanto amor a gente resolveu também que qualquer coisa que doesse um pouquinho ia ser conversada antes que doesse um montão.E que quando isso acontecesse, não ia ocorrer de cada um entrar no seu quarto espaçoso e deixar a porta trancada só pra assustar o outro. A gente vai reunir aquele punhadinho de problemas, sentar na sala do nosso peito e esparramar no chão como quem tenta montar um quebra-cabeça juntos sem olhar o desenho na capa da caixa. Porque a gente sempre vai querer descobrir a raiz da paisagem pra ela ser mais bonita. A gente quer conhecer profundamente a folha antes de compor a árvore. Porque a gente sabe que pular etapas é um jeito ineficiente de resolver o x da questão. (A vida não aceita o resultado do problema sem o desenvolvimento da fórmula).

Por tanto amor, desde que a gente foi morar um dentro do outro, nossa vida foi ampliada de alegrias sinceras. Eu ontem, por exemplo, estive muito só. Mas era porque eu não queria compartilhar coisas que não entendia. Eu existo além dele. Tinha um jeito de a vida entrar em mim tão diferente que precisei de todo o silêncio pra obter aquilo. Porque sou muito apegada às minhas inexperiências_ eu fico curiosa pra saber no que elas vão se transformar. Não quero macular o que é tão interior, pessoal e intransferível, assim como quem não quer mostrar a letra da música sem a melodia pronta. E ele estava na sala quando entrei no quarto pra tatear minhas confusões. E, em silêncio, ele respeitou meus barulhos mentais. E teve que suportar nossa rede na varanda tão vazia de nós dois, mas só por alguns instantes, ele sabia.

A nossa casa é ampla pra caber nossas individualidades, nossas lembranças, nossos amigos, nossos silêncios e tudo que estamos e o que podemos nos tornar juntos.

Por tanto amor a nossa essência é a parte mais preservada da casa.
*
*
*
Marla de Queiroz
*
*
P.S.: Meus amores, agora o nome do blog é transFLORmar-la...o endereço é o mesmo por enquanto...talvez eu também mude de casa.Veremos.

sexta-feira, outubro 12, 2007

A terceira versão_ ELA



Foto: Maria Salvador


Eu sou aquelas páginas que ela arrancou, os suspiros que ela abafou, o prazer que ela omitiu, a transgressão, a poesia escondida entre as cartas não entregues...Era pra eu ter sido a brincadeira de uma noite, a sobremesa de um casal, e, da garrafa de champagne, apenas a terceira taça.Depois tive que ser transformada num segredo,numa espécie de doença fatal.


Eu sou a pessoa pra quem ela ligava de madrugada, a quem ela visitava clandestinamente quando ele saía. Eu sou o motivo de todas as brigas que ela provocou. Eu sou a concessão dela aos apelos sexuais dele. E a tentativa de salvar uma relação falida. Mas me tornei um susto, um peso, o imprevisto pra quem tinha sua narrativa sob controle.


Eu sou aquele ponto e vírgula no lugar do ponto final de quem já tinha escrito o último capítulo do seu romance ideal.Ela nem imaginava que pudesse gostar tanto, ir além, sentir saudade quando estivesse sóbria.Eu sou as metáforas novas, a viagem inventada, os quinze dias na casa de serra sem dar notícias alegando que precisava escrever isolada do mundo.Eu sou o orgasmo mais intenso, a febre entre os lençóis,a dança dos travesseiros coloridos.Eu sou o café-da-manhã na cama, o banho de duas horas, o beijo de vinte e cinco minutos.Eu sou o poema que relata o encaixe dos nossos seios e o beijo de todos os nossos lábios. A história sobre meninas, sobre fadas e o violão encostado na lareira pra desocupar os braços pro abraço mais longo.


Eu sou as páginas que ela desistiu de publicar pra se proteger, se preservar.


Fui arrancada da história dela como essas páginas.Fui escondida entre juras de um falso amor que ela fazia a ele. Eu sou as tantas frases amassadas, descartadas da seleção dos capítulos.Mas sou a poesia escrita, tatuada no corpo. Sou a única digital que ela não conseguiu tirar no banho.

Eu sou essa emoção que ela rasgou da narrativa pra que os holofotes se voltassem todos pra sua história de amor mais convencional_eu seria a quebra da linearidade, a falta de estrutura do texto, o capítulo independente do resto do livro, aquele que sobreviveu sozinho.


Eu sou o silêncio deitado nos quartos,a cor do baton no retrovisor do carro.Eu sou o buquê de tulipas invadindo as tardes desavisadamente.Eu sou o final da espera, o amor de outras esferas.


Mas o que sei dele?Era um louco.Muito bem articulado, sedutor e completamente despudorado.Apertava meus braços com força,mordia minhas coxas com paixão e fúria, puxava meus cabelos, empurrava o meu rosto como quem desiste de dar o tapa.E , quando eu estava absolutamente entregue, quando eu estava quase suplicando a penetração, quando meus quadris se arcavam buscando o encaixe dele, me empurrava pro outro lado da cama e buscava a ela, que nos observava tocando-se com uma timidez que mais parecia culpa.E eu tinha que assistí-lo enquanto ele a possuía com ternura e calma.


Quando ela era aquela presa dissolvendo-se em suor, eu podia ver as veias do pescoço salientes com a força que ela fazia mordendo o travesseiro pra abafar o grito.Era quando ele me chamava pra perto novamente pra que eu intensificasse o prazer daquela mulher em brasa.E ela se contorcia como quem sofre, e era a cena mais bonita que eu já vi: um corpo como palco daquela dança incrível de labaredas azuis.(E eu sabia que ele só me possuiria quando ela já estivesse em transe).


Sim, ele era um louco. Mas só me possuiria quando ela não mais conseguisse pensar nada além de gemer e balbuciar palavras fraturadas.E ele me abandonaria antes que ela voltasse daquele sonho bonito.


Sim, ele era um louco inesquecível.

*

*

Marla de Queiroz


P.S.: Este texto faz parte de uma peça teatral que estou escrevendo chamada Matrioska.

A primeira e a segunda versão podem ser lidas aqui.


P.S.2: Há tempos quero mudar o nome do blog...Por favor, deixem suas sugestões.
P.S.3: O Calcinhas ao Léo foi atualizado com os textos da sexta edição do jornal. Visitem-nos!

sexta-feira, outubro 05, 2007

Melodia proseada

Foto: Rosalina Afonso


Maria Violão era uma excêntrica convicta: só bebia cerveja com flor, vinho com cravo-da-índia e aguardente com açúcar-cristal...Mas o que mais a embriagava era a poesia. Um dia, arranjou um namorado: João do Cavaquinho.Casaram-se, ela parou de beber e tiveram três filhos: Ana Flauta, Antônio Percussão e Josimar Voz e Violão.

Maria Violão tá grávida de novo: disse que é menina e vai se chamar Música.A casa ficou tão pequena que tiveram que se mudar da partitura pra concha acústica.

Tem dia a briga é tamanha que tudo acaba em choro...
Mas, na maioria das vezes, a harmonia é tanta que tudo termina em samba.

*

*
Marla de Queiroz

sexta-feira, setembro 28, 2007

Proposta



Vem, que eu canto pra você as nossas chuvas
porque entendo esse nosso pacto com o vento.
Se nossos corações palpitarem em outras curvas e a gente se for,
é porque ainda nos nutrimos das possibilidades de outros caminhos.

(Mas, vem, que minha proposta é de um perpétuo movimento:
deste que nos faz vivos, confusos, certeiros, intensos, inteiros.)

Eu entendo essa roupa feita de jornadas.
Eu entendo essa alma impulsionada pela eterna busca.
Mas quando teu corpo inteiro só precisar de um aconchego,
te faço uma cama entre os meus seios

só pra você me contar sobre o fim do tempo da espera.

(Vem! Pra nos anteciparmos todas estas primaveras.)


*


*

Marla de Queiroz

sábado, setembro 22, 2007

Uma vaga sensação de...



Foto: Graça Loureiro
E, de repente, ela sentiu uma saudade. Mas uma saudade tão frágil e delicada que vinha destituída de qualquer expectativa de encontro. Era uma saudade seca, oca, sem necessidade de notícias. Como se ela relembrasse uma infância que foi boa, mas que não queria repetir. A saudade, ela mesma, a palavra toda preenchida pela sensação, com rostos, cenários, detalhes tão íntimos, mas sem voz, sem qualquer barulho. Intransitiva e estéril. Fotografia sem foco. Desapegada como um monge. Um copo vazio.

E, de repente, ela tentou organizar a sensação vaga e etérea como quem tenta segurar um raio de sol entre os dedos. Mas parecia ter desaprendido a dizer coisas. A poesia se atirava dela como que preferindo um outro abismo. E as palavras flácidas tentavam se equilibrar no único caminho pontilhado que se apresentava: ela estava repleta de reticências e não sabia como preencher tantas lacunas. Óvulo sem útero. Céu vazio de luas.Vestido órfão de um corpo.

E, de repente, (...)
*
*
Marla de Queiroz