
Licenças Poéticas, prosa incerta, poesia em linha reta, versos que dançam fora da forma do poema, mas dentro do corpo do poeta.
quarta-feira, abril 30, 2008
(Nossos) verbos de ligação

sexta-feira, abril 18, 2008
Ansiedade
E agora essa inquietação. O peito taquicardíaco, meus dedos não escutam palavras e eu insisto em escrever a desordem interna. Vou dobrando sensações e empilhando nas gavetas tudo separado pelos tons, em degradê.Tento organizar o caos, por cores, mas não controlo o descompasso das emoções.Respiro fundo, me falta o ar.Sinto a mão da ansiedade apertando meu pescoço, uma bolha de alguma coisa presa na garganta. O corpo todo eriçado à espera do próximo passo. De encontro ou ao encontro? Contrários. Com-trastes.”Não se fazem mais homens, pra mulheres como eu”....penso.
Alguma coisa incrível precisa acontecer ainda hoje, enquanto há tempo. Não suportarei esperar mais a eternidade desses próximos cinco minutos.
*
*
Marla de Queiroz
quarta-feira, abril 09, 2008
Sem restaurações

domingo, março 30, 2008
Outono
Peneiro no silêncio algum gesto.
Há vida pra contar, mas falta um jeito.
Palavras tão ausentes, as unhas sem vermelho,
só há vulcões por dentro.
Já é outono, meu amor,
estação em que me despeço de todos os meus gritos.
Há fortes luas e um sol ameno
e a pele da cidade acariciada pelo vento.
(Carícia é palavra que escorre pêlos-dedos-língua).
Alguma nostalgia nos finais-de-tarde.
Eu brinco de poesia na frente do espelho.
Os olhos sem segredos, a boca tão urgente
e um pequeno amor trazido pela brisa .
Já é outono, meu amor, e a palavra em si já é aveludada:
merlot bem encorpado, inverno é cabernet demais e um tanto ácido.
Então me abraça, meu amor,
que eu conto pra você os meus anseios
e deixo que você repouse sua cabeça
entre os meus seios.
*
*
Marla de Queiroz
quarta-feira, março 12, 2008
Das descobertas

Quando arrumei minha casa de dentro tinham muitas declarações de amor de gente que já não me amava mais pelo caminho. E quando eu estava prestes a começar uma vida nova, tropeçava nesse passado e nos referenciais antigos e voltava para lá que era um lugar aparentemente mais seguro. E ergui tantas paredes rabiscadas pelo medo.
Descobri, quando abri as janelas, que uma chuva muito forte também tem som de aplausos. Que na pauta dos meus lábios só cabem palavras macias. Que há que se beber do outro também a fonte de idéias para que tudo não se resuma num encontro incandescente de peles porque devemos explorar todas as qualidades do desejo.
Eu descobri que tenho um jeito de gostar exagerando os fatos e que a ficção é o que mais participa da minha realidade. Mas que sempre fica um rastro na minha pele se alguém se demora nas carícias. E que não se pode ter a força de uma represa retendo seus próprios líquidos.
Quando arrumei minha casa de dentro eu descobri que essa é uma tarefa infinita. E há que se reordenar as coisas incansavelmente pra se ter espaço pruma nova cor. E que uma boa base impede um desmoronamento, mas que a implosão da estrutura inteira, às vezes, é a coisa mais sábia a se fazer em determinados momentos.
terça-feira, março 04, 2008
Antes do anoitecer

quinta-feira, fevereiro 14, 2008
P.S.:
Foto: Nuno André MonteiroE, no meio de tantas mudanças, algumas desavenças. Só porque aqueles mesmos não entendem, não entendem, não entendem, porque não querem aceitar, que tudo é tão dinâmico e que nem deve ter sido tão brusca essa mudança, mas que a coisa maturou durante um tempo em que só queriam que você se envolvesse numa história DELES, que se misturasse nas emoções DELES, que traduzisse o mais íntimo DELES. E, ao mesmo tempo, você estava amadurecendo uma mudança sua e a coisa toda doía, doía. Mas eles não perceberam. Porque a demanda sobre a vaidade deles era grande demais, importante demais, imprescindível demais pra sua poesia.
E, de repente, a minha poesia não queria falar mais sobre nada disso. Minha poesia queria ser uma carta anônima, um silêncio, uma brincadeira. Minha poesia não queria ser nada além de uma frase jogada do mais íntimo de uma iluminação sobre um determinado assunto.
Porque, no final das contas, o que escrevo nem é poesia... é prosa, é carta, é desabafo, é qualquer coisa. É um bilhete manuscrito pregado no espelho só pra desejar “Bom Dia!”
terça-feira, fevereiro 12, 2008
Num fôlego só...
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
Depois da festa
Confetes, teu chapéu colorido e a minha saia de tule espalhados pelo chão. Agora meus cabelos molhados, tão castanhos, e os teus olhos azuis. Um resto de vinho e Bruna Caram com a voz tão limpa cantando “palavras do coração”, (queria ter dito o nome da música sem usar aspas). A minha cara lavada, o teu sorriso malandro. Um dia escrevi um poema menor que o título, você me disse em itálico. Eu já apareci em algum desses teus jogos de tarô?, interrogava. Sim, sim, meu Cavaleiro de Copas (eu respondia sem travessões). Sabe, eu tenho a sensação que antes de você, nada aconteceu de tão bom pra mim...Você vai escrever sobre isso algum dia? Não sei. Como vou amarrar essas palavras diluídas no beijo?
*
Marla de Queiroz
domingo, janeiro 27, 2008
Submissão
Foto: Graça Loureirotirando cada peça que cobre o meu corpo.
Você nem imagina quanta sinceridade foi adulterada
no exato momento em que eu desviei o meu olhar do teu:
escondi em um segundo, uma vida de intenções.
Fui reeducada para farsas desde que me abandonaram
no meio de um amor tão espontâneo.
Agora não tenho dedos famintos de reações nem lábios lascivos.
Agora tudo é toque leve e avisado, histórias bem-datadas e beijo breve.
E no rosto eu cultivo com afinco essa expressão fria e o olhar vazio.
Tudo é disfarce e nenhuma verdade.
Eu aprendi a cultivar distâncias.
Finalmente eu troquei a minha real intensidade
pela postura calculadamente adequada de moça frágil.
Finalmente eu construí um personagem sem nenhuma poesia.
Agora, todo o meu afeto é discreto e as minhas taquicardias
E o que era blue(s), agora jaz(z).
quarta-feira, janeiro 23, 2008
Sudoeste musicado
O que dói em você, pouco me importa.
Eu não cavei teus abismos de mim.
Fui teu abrigo, teu barco
e lua cheia iluminando o caminho.
Você escureceu nosso afeto,
minou nosso rio.
Pra eu ficar, só precisava do seu toque-agasalho.
Você me deu um punhado de frio.
*
*
Poema de Marla de Queiroz musicado por Daniel Chaudon
sábado, janeiro 19, 2008
Aniversário de dois anos do Blog
Foto: Graça LoureiroTentou recortar uma paisagem mais gentil que fosse equivalente à alegria, e um céu tão azul aconteceu... Mas o céu sem nuvens era de um azul tão só... Talvez aquela calmaria aborrecesse o seu rascunho. E no fundo, o que lhe faltava era companhia. E pintou uma ventania brusca que trazia chuva e afundava estrelas.
terça-feira, janeiro 15, 2008
Sobre a angústia...ou "depois daquela conversa"
Foto: Graça Loureirodomingo, janeiro 13, 2008
Mão dupla
sábado, janeiro 05, 2008
Palavras soltas

sexta-feira, dezembro 28, 2007
Porque hoje é meu aniversário e eu completo 1.536 luas de existência...
Foto: Eu mesma por Marco TeobaldoSou o resultado desses amigos que tenho e do que recebo diariamente de afago, cuidado e demonstrações de afeto. É disso que sou feita: de um bocado de tanto amor.Sou resultado desses encontros, dessa magia que é meu cotidiano. Dessa minha negociação com a meteorologia pra fazer uma festa na praia e ter de presente uma lua imensa, incrível e pessoas lindas que apreciam a arte, que adoram compartilhar. Sou a protegida pelos meus Orixás. Sou minhas Meninas, meus Caboclos, meus Pajés. (SOU!) .Sou eu mesma essa gota, esse grão, uma obra eternamente inacabada: tudo é uma possibilidade de melhora, de mudança, de lapidação. Sou como as pessoas que me cercam, como essa gente que quer mudar a si mesmo pra que o mundo vibre numa freqüência mais saudável. Gente que presta atenção naquilo que não conhece porque abraça a novidade com a sabedoria de quem nunca vai querer parar de aprender: da teoria intelectual mais complexa à maneira mais criativa de improvisar um cinzeiro.Eu sou essa gente que se dói inteira porque não vive só na superfície das coisas. E que, por conviver mais profundamente com as angústias, são os primeiros a experimentar o êxtase de um dia de sol ou de chuva, de qualquer coisa aparentemente simples. Gente que sabe que viver com simplicidade é a coisa mais complexa que existe... e a mais sábia.
Eu posso ser qualquer coisa que me digam que eu seja porque assim me vêem, porque também sei que tudo é transitório, que tudo é movimento e possibilidade de alguma coisa. Estou apta para me deixar interpretar, mas não para rótulos. Qualquer pessoa que me pense algo, por pensar já perde qualquer coisa que me congele numa imagem... Mesmo quando dizem: tu és poeta. Poesia é fluidez.Sou o que estou e, isto sim, é perpétuo.
Talvez eu seja uma escolha quando todos os caminhos resolveram mudar de lugar só porque ela já foi feita...Mas eu celebro o mistério.
segunda-feira, dezembro 17, 2007
Amistosidade

O que acontece é que o tempo se apossou do que havia. (Foi quando pude te explicar que as minhas expectativas não eram exigências). Hoje em dia, depois de tanta história não acontecida, sobrou amizade, saudade, respeito. Já que fomos tão inábeis para o amor, restou enfim, essa ternura encabulada e nossas conversas pela madrugada numa hora em que a saudade nos constrói as frases com todos os adjetivos mais suaves para não espantar o sono. E a consciência de que não há mais tempo para usufruir o que não foi aproveitado a tempo. (Por isso choramos apenas por dentro sem deixar que nossa voz denuncie nosso olhar raso de esperas intactas). Por isso tanta doçura nas palavras pra não ferir ainda mais essa melodia frágil e cheia de melancolia. E essa tentativa de que o abraço, apenas escrito, tenha outras formas de tocar. Porque queríamos a mesma coisa, exatamente o que nos faltava e que não soubemos porque não tínhamos para dar.
terça-feira, dezembro 11, 2007
Carta sem remetente

(Minha poesia anda miserável e minhas cartas sem remetentes).
E quando pensei que pudesse começar a me divertir, todos foram embora da festa:eu fiquei sozinha olhando a desordem.
Meu amor, se longe é um lugar que não existe como você me explica essa distância?
terça-feira, dezembro 04, 2007
Extravios

Eu te agradeço pela honestidade da sua omissão tão previsível que sempre confundi com meus presságios. Essa ida sem despedida que você covardeou: eu finjo que não sei, você finge que não foi.E a gente segue inventando que ainda se interessa pelo que começamos a construir juntos, num outro contexto, pra realçar nossos vínculos.
Eu te agradeço a descoberta de que se não seguimos juntos nessas coisas do amor,
seja porque talvez
eu, veterana
enquanto
você ama-dor.
quinta-feira, novembro 29, 2007
quinta-feira, novembro 22, 2007
(Re)fazendo escolhas

Foto: Rodrigo Bela Vista
A imagem que tenho é a de uma ponte interrompida que desistiu de promover encontros e transformou a metade do caminho de uma possibilidade de relacionamento, num precipício inda mais perigoso, composto por abismo e correnteza. (O estalo seco de um tombo anterior ainda ecoa). E a ressaca de tantos mal-entendidos me empurram pruma nova busca.Vou silenciar um pouco enquanto refaço o mapa do meu destino e elimino definitivamente essa geometria de triângulos que só serviram pra me espetar com suas pontas tão agudas.Talvez eu consiga seguir mais lúcida e tornar a falta de embriaguez suportável.Quero precisar cada vez menos de tantas próteses e do uso dessa desculpa da poesia que brota daquilo que mais dói em nós.Vou abrir a janela para que o ar circule e recicle toda essa energia estagnada. Não preciso mais de tanto contato com as coisas, tenho exagerado nos meus mergulhos e usado lupas que distorcem as imagens. Agora eu só quero me preocupar com uma nova disposição dos móveis na casa enquanto ponho as roupas sujas na máquina de lavar.
terça-feira, novembro 13, 2007
Saudade revisitada
Gustav Klimt (Abraço)Enquanto eu disfarçava os meus olhos marejados, as mãos ansiosas arrancavam o esmalte das unhas. E a tentativa de resgatar todos aqueles assuntos que a vida roubou de nós. E a gente só quis que aquele momento não parasse de acontecer, mesmo depois que o mar dormisse, que a chuva caísse, mesmo que nenhuma estrela se acendesse enquanto as horas se fossem. Que pudéssemos estar ali, tão nós dois de novo, sem romantismo, mas cheios de afeto.
Os seus olhos e o meu cheiro, tanto passado e a intensidade voltando com eles. Os meus olhos e o seu cheiro, vontade de nunca mais deixar que nada morresse entre nós.Em cada palavra que eu dizia só havia a tentativa de justificar meu sumiço e dizer que não foi por maldade, que foi por cuidado e o desejo de preservar a única coisa que sobreviveu intacta após tanto desencontro.Em cada palavra que você dizia só havia a vontade do redirecionamento no fluxo dos sentimentos.
(Tivesse eu ali como fotografar tanto amor mudado, tanta coisa que vinha de uma vez pra preencher os meses desse abismo entre os nossos poemas).
Não sei ao certo o que isso tudo me causou. Eu só lembro que eu quis voltar pra casa mais cedo quando te vi sendo engolido pela multidão. Eu quis voltar pra chorar tranquilamente, com privacidade e alguma mordomia sem saber exatamente se havia alguma dor: se era saudade pura ou aquela revisita ao teu olhar tão cheio de ternura, distância e melancolia.
E depois era só aquela multidão sem você.E as minhas unhas sem esmalte, os meus olhos sem disfarce.E o nosso momento que parou de acontecer pra deixar o mar dormir em paz enquanto a chuva caía daquele breu sem estrelas.Você se foi com todas as nossas horas guardadas.Levando nos teus olhos um cheiro meu.E novamente o abismo que me separava de todos os nossos poemas. E eu chorei até dormir, abraçada no que ainda pulsava vivo de nós: um eco, um estilhaço de sol,um detrito de flor, a lembrança de um solo de violoncelo e o esqueleto de nenhuma esperança...
quarta-feira, novembro 07, 2007
Quando a saudARDE

Dispenso pontes, despeço pudores, despisto a distância
“ Que seja doce”.
quarta-feira, outubro 31, 2007
Do caos ao cais
Ela nunca me diz com antecedência se será de resgate ou de rebentação.
Ela nunca me diz se vai amparar no auge das minhas urgências.
Mas quando minhas palavras se apaixonam por alguém,
É que, às vezes, navegar é o que há de mais preciso.
sexta-feira, outubro 26, 2007
Uma possível versão da autora...ou um desabafo meu
Eu entendo que talvez eu tenha sido cruel com alguns destinos dos meus personagens, mas a vida toda é essa oscilação de boa sorte e tempos miseráveis em que tudo que a gente pode fazer é esperar e pagar pra ver...Ou rezar pra que passe logo, ou pedir pra que o tempo pare. Essa negociação eterna que todos fazem durante seus dias, pra que sejam úteis também os sábados, domingos e feriados, eu faço com a palavra. Eu sei que ela não silencia, mesmo quando digo que. Silenciar não é emudecer.Mas ela muda de casa, ela explora outras áreas, ela viaja pra outros templos.
*
quinta-feira, outubro 18, 2007
Arquitetura da Relação

Nesse quarto pras nossas visitas, só não é permitida a entrada de fantasmas. De resto, todos os nossos convidados e aprendizados são muito bem recebidos. Depois a gente até pode escolher se compartilhará ou não. E por essa liberdade de escolha, a gente sempre tem vontade de compartilhar.
Por tanto amor a gente resolveu também que qualquer coisa que doesse um pouquinho ia ser conversada antes que doesse um montão.E que quando isso acontecesse, não ia ocorrer de cada um entrar no seu quarto espaçoso e deixar a porta trancada só pra assustar o outro. A gente vai reunir aquele punhadinho de problemas, sentar na sala do nosso peito e esparramar no chão como quem tenta montar um quebra-cabeça juntos sem olhar o desenho na capa da caixa. Porque a gente sempre vai querer descobrir a raiz da paisagem pra ela ser mais bonita. A gente quer conhecer profundamente a folha antes de compor a árvore. Porque a gente sabe que pular etapas é um jeito ineficiente de resolver o x da questão. (A vida não aceita o resultado do problema sem o desenvolvimento da fórmula).
Por tanto amor, desde que a gente foi morar um dentro do outro, nossa vida foi ampliada de alegrias sinceras. Eu ontem, por exemplo, estive muito só. Mas era porque eu não queria compartilhar coisas que não entendia. Eu existo além dele. Tinha um jeito de a vida entrar em mim tão diferente que precisei de todo o silêncio pra obter aquilo. Porque sou muito apegada às minhas inexperiências_ eu fico curiosa pra saber no que elas vão se transformar. Não quero macular o que é tão interior, pessoal e intransferível, assim como quem não quer mostrar a letra da música sem a melodia pronta. E ele estava na sala quando entrei no quarto pra tatear minhas confusões. E, em silêncio, ele respeitou meus barulhos mentais. E teve que suportar nossa rede na varanda tão vazia de nós dois, mas só por alguns instantes, ele sabia.
A nossa casa é ampla pra caber nossas individualidades, nossas lembranças, nossos amigos, nossos silêncios e tudo que estamos e o que podemos nos tornar juntos.
Por tanto amor a nossa essência é a parte mais preservada da casa.
sexta-feira, outubro 12, 2007
A terceira versão_ ELA

Eu sou aquelas páginas que ela arrancou, os suspiros que ela abafou, o prazer que ela omitiu, a transgressão, a poesia escondida entre as cartas não entregues...Era pra eu ter sido a brincadeira de uma noite, a sobremesa de um casal, e, da garrafa de champagne, apenas a terceira taça.Depois tive que ser transformada num segredo,numa espécie de doença fatal.
Fui arrancada da história dela como essas páginas.Fui escondida entre juras de um falso amor que ela fazia a ele. Eu sou as tantas frases amassadas, descartadas da seleção dos capítulos.Mas sou a poesia escrita, tatuada no corpo. Sou a única digital que ela não conseguiu tirar no banho.
Eu sou o silêncio deitado nos quartos,a cor do baton no retrovisor do carro.Eu sou o buquê de tulipas invadindo as tardes desavisadamente.Eu sou o final da espera, o amor de outras esferas.
Mas o que sei dele?Era um louco.Muito bem articulado, sedutor e completamente despudorado.Apertava meus braços com força,mordia minhas coxas com paixão e fúria, puxava meus cabelos, empurrava o meu rosto como quem desiste de dar o tapa.E , quando eu estava absolutamente entregue, quando eu estava quase suplicando a penetração, quando meus quadris se arcavam buscando o encaixe dele, me empurrava pro outro lado da cama e buscava a ela, que nos observava tocando-se com uma timidez que mais parecia culpa.E eu tinha que assistí-lo enquanto ele a possuía com ternura e calma.
Quando ela era aquela presa dissolvendo-se em suor, eu podia ver as veias do pescoço salientes com a força que ela fazia mordendo o travesseiro pra abafar o grito.Era quando ele me chamava pra perto novamente pra que eu intensificasse o prazer daquela mulher em brasa.E ela se contorcia como quem sofre, e era a cena mais bonita que eu já vi: um corpo como palco daquela dança incrível de labaredas azuis.(E eu sabia que ele só me possuiria quando ela já estivesse em transe).
Sim, ele era um louco. Mas só me possuiria quando ela não mais conseguisse pensar nada além de gemer e balbuciar palavras fraturadas.E ele me abandonaria antes que ela voltasse daquele sonho bonito.
sexta-feira, outubro 05, 2007
Melodia proseada
Maria Violão tá grávida de novo: disse que é menina e vai se chamar Música.A casa ficou tão pequena que tiveram que se mudar da partitura pra concha acústica.
sexta-feira, setembro 28, 2007
Proposta

porque entendo esse nosso pacto com o vento.
Se nossos corações palpitarem em outras curvas e a gente se for,
é porque ainda nos nutrimos das possibilidades de outros caminhos.
(Mas, vem, que minha proposta é de um perpétuo movimento:
deste que nos faz vivos, confusos, certeiros, intensos, inteiros.)
Eu entendo essa roupa feita de jornadas.
Eu entendo essa alma impulsionada pela eterna busca.
Mas quando teu corpo inteiro só precisar de um aconchego,
te faço uma cama entre os meus seios
(Vem! Pra nos anteciparmos todas estas primaveras.)
sábado, setembro 22, 2007
Uma vaga sensação de...

E, de repente, ela tentou organizar a sensação vaga e etérea como quem tenta segurar um raio de sol entre os dedos. Mas parecia ter desaprendido a dizer coisas. A poesia se atirava dela como que preferindo um outro abismo. E as palavras flácidas tentavam se equilibrar no único caminho pontilhado que se apresentava: ela estava repleta de reticências e não sabia como preencher tantas lacunas. Óvulo sem útero. Céu vazio de luas.Vestido órfão de um corpo.
E, de repente, (...)
segunda-feira, setembro 17, 2007
Carta
Meu amor,
Começou a carta com tanto pudor que tentou falar sobre o tempo, mas logo o assunto acabou.
Do que poderia contar além da saudade daquelas sensações homéricas, de quando o corpo falava mais que sua poesia e ela não podia fotografar aquele orgasmo nem os espasmos vindos depois, nos músculos que se contraíam até à câimbra?Mas tudo seria um silêncio azul se ela não pudesse dizer e, naquele momento, suas palavras eram vermelho-fogo,vermelho-sangue, vermelho-aceso, líquido-espesso-quente cuidadosamente derramado.Só que as palavras não se aproximavam da sua ardência e quando escrevesse, tudo seria passado.E a solidão da escrita era esse enroscar de dedos na caneta...
quinta-feira, setembro 13, 2007
A segunda versão_ a do protagonista

Já era tarde. Eu demorei muito tempo pra me libertar das tuas frases. Eu levava ali_ e só você sabia até então_tuas inseguranças e minhas recusas, minhas inseguranças e tuas compreensões e eternas justificativas pro que quer que eu diga ou faça. Sempre derramei minhas verdades sem dó nem piedade, nunca lancei mão de entrelinhas. Era a minha recusa à submissão de ser teu homem-alguma-coisa, belamente adjetivado com teu pronome possessivo predileto.Eu era o teu arquivo vivo.E um espetáculo na faixa de pedestres debaixo do sinal vermelho-verde, amarelo.E a frustração da metáfora irrealizada no meio de um soneto quase impecável, de tanto amor incerto. Eu não podia oferecer nada além de um fiapo de dia no meio da madrugada.(Insultuoso foi você querer de mim algo que sabia que eu não podia ou queria dar).
Você queria um romance, eu fui um conto breve sem pontuações definidas.
(Ou alguém que sempre vai te amar da maneira errada).
*
domingo, setembro 09, 2007
Um retrato
me acena ao longe adornado pelas ondas.
Tenho em mim esta parcela de mar:
ele, todos os azuis e um branco-espuma-breve.
quarta-feira, setembro 05, 2007
Uma balada para dois*

segunda-feira, setembro 03, 2007
Adolescências

quinta-feira, agosto 30, 2007
Dois dedos de prosa

Tá vendo aquele moço ali, dona? É meu homem.Ninguém tem mais intimidade com o mato que ele.Ninguém tem mais intimidade com o mar que ele.Ninguém passeia em qualquer canto solitário dessa natureza de meu Deus com tanta tranquilidade.Nem parece que foi parido de um ventre, parece que brotou da terra. Depois dessas florestas e de todas essas águas que ele conhece, o lugar que ele mais prefere é meu corpo.Nossa querência é das enormes.Ele com essa cara de bravo, ninguém desconfia, que macho mais doce.Mas eu sei que nessa pele queimada de sol tem mar demais e uma fome escondida entre nossas quatro paredes, entre nossas pedras na cachoeira, entre nossas pausas pra comer o peixe que ele pescou e assou.Eu esperando todo o tempo, cuidando da casa, lavando as vasilhas, um pé apoiado no tornozelo, mania que tenho.Ele sempre chega por trás, tentando não fazer barulho, mas eu sinto antes e finjo que não percebi.Ele gosta de achar que tem o dom dessa surpresa.
Esse moço, dona, já me deu trabalho. Foi difícil domar, cavalo doido solto procurando rapariga pra montar sem sela.Eu tive que quase não perdoar a primeira safadeza dele, se engraçando todo com a branquela azeda da rua da frente. Eu me fiz de besta.Mas depois que ele já tava bem lambuzado do assanhamento, tranquei as coisas dele do lado de fora da casa pra nunca mais abrir a porta. Deixei chorar, levar banana da terra pra mim, joguei tudo pros cachorros. Joguei fora até as presilhas que eu queria tanto e ele me deu pra eu usar nas festas. Eu tava machucada, dona, tava atarantada demais com aquela traição.
Pois aquele moço teve que chorar na minha porta, tava embebedado, é fato, mas parecia menino maltrapilho, cinco dias pelos bares, nem na casa do amigo ele não voltava mais.Banho só de mar.E a mesma roupa encardida das andanças.Rondando minha casa, chamando meu nome, dizendo palavras de amor, todo arrependido. Deixei ele sofrer mais de duas luas inteiras, porque eu gostava dele,dona, mas meu coração, quando ouvia aquele choramingar arrependido na minha janela, sentia era uma sapituca de raiva que eu me contorcia toda pra não jogar a água fervida do banho todinha nele.Quase costurei o nome da azeda que ele se engraçou na boca de um sapo, mas depois tive um esclarecimento na minha razão: que mal não se faz nem se deseja pra ninguém_ volta em dobro, já me dizia meu avô, Deus o tenha.
Foi que um dia, no forró lá no galpão de palha de seu Benevides, eu tava toda enfeitada na minha sede de vingança de fazer o mesmo, na frente dele, da cidade inteira. Pra magoar bem pisado aquele coração sem jeito. E teve uma hora, tocou aquela música de quando a gente namorou pela primeira vez. Aí me alembrei dele cantando pra mim, cara de menino levado,falando que eu era a morena mais bonita da festa, eu toda acreditada. Mas a lábia dele já era famosa, dona. A mulherada toda se enfileirava pra ser a próxima das aventuras.E foi aí que eu ia aproveitar pra dançar com aquele João Alves, da loja de ferramentas, que já me queria desde muito tempo.E vi meu homem, pensei que ia puxar briga, mas não: ele me olhou com uma tristeza, uma tristeza tão escura. Nunca vi um olhar tão adoecido, tão lamentoso.Parecendo que o mar inteiro sangrava.Só dele imaginar que eu ia me abraçar com o João naquela música que era tão nossa, dava pra ver o peito dele se arrebentando por dentro naquela olhada firme que ele me deu. Tive pena, não, dona.Tive foi o meu amor voltando, eu querendo cuidar pra ele nunca mais me olhar assim.Daquela dor que eu vi nele, nem gosto de alembrar.
Pois esse homem é tão meu agora, dona, que até enjoa, às vezes.Faz de tudo e mais um pouco pra eu não brigar de jeito nenhum.Até me ajuda com as coisas de casa. Eu já tive só mais um namorado, que foi antes dele.Um violeiro que me encantou pela voz, quando a gente acendia as fogueiras e ele era o centro das atenções cantando as canções sertanejas que eu mais gostava.Mas me entregar mesmo, de não resistir a essas fomes da carne, foi só com meu homem.Que até hoje ele ciúma desse meu primeiro. Disse que vai aprender a tocar violão pro outro não ter qualidade nenhuma que ele não tenha.Eu fico é rindo dessas bestagens.Mas no fundo eu gosto dele achar que nunca vai me conquistar direito, por inteiro, senão a coisa vai ficando abandonada, sabe, dona?Olha ele vindo aí, todo faceiro...deixa eu me aprumar, dona...Tenho que me ajeitar. Hoje é noite de lua cheia em nossa casa...
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Marla de Queiroz
sábado, agosto 25, 2007
A primeira versão_ a da autora
Eu omiti que ia publicar um livro com a nossa história real. Foi de pirraça e de amor não correspondido que eu escrevi aquilo tudo. Mas saiba, eu cuidava pro meu coração não acreditar naquela raiva, você sabe, eu não sinto assim, eu não sou assim. Eu só consegui, mesmo com meu coração tão apertado, falar do amor do jeito que a gente acreditou um dia nas primeiras frases. Depois tive que escolher cada uma daquelas palavras ácidas porque não podia levar teu personagem pra guilhotina_ o protagonista não pode morrer no meio da trama. Mas eu não sabia mais o que fazer com você, eu queria desistir do teu personagem porque me doía inteira ele sendo. Escrevi desgostosa tuas desventuras, entenda, eu era a narradora onisciente, eu era deus naquela ocasião e você havia me magoado tanto na página 143.Pode parecer loucura, mas não fui eu quem escolheu você me abandonar naquele café metido à besta, nunca tomei um café que custasse tão caro só pra chorar depois em meio àquela gente cheia de pose. Não podia ser num cenário mais mal-composto. Como autora, eu pensei que pudesse ser a mulher mais incrível do livro, a mais sedutora.Mas parece que teu personagem foi me dominando, querendo me magoar em público.E, quando eu achava que tinha todo o controle da situação, você me surpreendeu no final do capítulo cinco, querendo enfiar tua vida numa mochila e ganhar o mundo fora das minhas páginas. Você querendo todas as mulheres que poderiam ter sido minhas amigas. Desculpa eu ter sentido tanta raiva, mas as pessoas vivem essas coisas, até as mais espiritualizadas.Eu tive muita raiva de ser a narradora de uma história que eu não controlava mais. Você podia ter me poupado da sua autonomia, mas saiu, no meio do parágrafo, atravessando as ruas, saltando minhas vírgulas, tropeçando minhas aspas, desrespeitando meus parênteses. Eu tinha escrito uma cena na praia, no finalzinho da tarde, essas coisas que englobam uma lua inédita e cadernos espalhados em cima de uma canga colorida enquanto o casal toma um banho de mar num clima romântico.Mas a sua rebeldia me fez correr atrás de você e discutir a relação num capítulo inteiro, em cima daquela faixa de pedestre, tentando arrancar tua mochila enquanto os motoristas buzinavam furiosos por causa da baixaria debaixo do sinal vermelho-verde.Você bagunçou todo o meu roteiro.Foi por isso que dificultei a tua vida e te dei mais defeitos que charme.Eu queria ferir tua vaidade usando teu nome e sobrenome verdadeiros para que não houvesse dúvidas de que era sobre você que eu estava falando.E soterrei todas as suas qualidades naquele bloco de texto.Foi por isso que meu final feliz incluiu um casamento com um diplomata que não era você, no mesmo dia em que te fiz perder o avião pra Londres.
segunda-feira, agosto 20, 2007
O Inusitado

(Sei que observei tanto, que alguma coisa trouxe o olhar dele pra mim. Sorri, ele também).
E lá estávamos nós, na mesma casa: tantas palavras derramadas nos ouvidos, na língua. Os dedos dele escutando meus seios taquicardíacos.E ele sabendo o que fazer com as mãos desde que parou de fumar. Os olhos firmes, dentro dos meus. Era ele sendo o que estava, alguém disponível e mortal.Pude identificar a expressão de desejo. Meus quadris encaixados em suas coxas, escalando seu corpo lentamente, adiando o ápice, fazendo suspenses tolos. E lá estávamos nós: dedos e línguas, sonhos e poros, sussurros e supiros, suor e saudade, pulsação em todas as partes. Então, finalmente, o ápice. E o vinho que estava na taça e depois no umbigo,agora no sofá.Uma mancha que arrancaria um risinho cúmplice e safado quando fosse notada no dia seguinte depois que a alegria já tivesse ido embora...
E lá estava eu: “a alegria” virando a esquina num dia de tanto sol.
quarta-feira, agosto 15, 2007
Flores de Inverno, em verso.

( E esse prazer que, de tão imenso, consegue doer em mim. Porque vai além de todas as expectativas do meu desejo que já era grande: o corpo não agüenta certas surpresas quando ele está tão cansado de não ter nenhuma ...Inda bem que a gente se adapta a tudo, em Búzios...;-)



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