quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Sofia De Lira (sobre a raiva)


Foto: Eduardo Carlos
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Ah, deixe-me reclamar um pouco de tudo e querer coisas absurdas como alfabetizar o sol! Eu sei quão bela é a vida, sei que as coisas que não são fáceis inda assim são simples.Mas quero berrar minhas angústias até fazer as pazes com meu silêncio novamente.
Ah, deixe-me experimentar essa ira e dar socos no ar até trincar o vento que vem de encontro aos meus passos dando mais peso e lentidão a minha caminhada.Meu grito ou choro não é falta de esperança, é um respeito profundo por mim quando me sinto fragilizada.Se estou dramática, ainda não cheguei aonde quero: quero ser trágica!

A inquietação tamanha desses dias todos me arrastou pra praia com papel, caneta e uma raiva enorme de tudo.Cheguei arrastando a cadeira, entediada, e o mar estava mais violento que eu, me redimindo. Tão agressivo, era capaz de engolir um corpo, uma gaivota e de cuspir cristais de sal na brisa doce.(Por que eu deveria estar mais calma que ele?) Fiquei foi com inveja do seu poder de arrebentar tudo com tamanha simplicidade e destreza.E de cuspir o lixo acumulado deixando na areia um retrato dos maus-tratos: restos de plástico, pombos e moscas sobrevoando a podridão.Porque, assim como ele, eu não engulo sapatos.

No meio de toda raiva sendo expulsa, pensei por que não se pode ser autobiográfica ou agressiva sem pedir desculpas com tanta antecedência. Quero só olhar, sem observar, sem absorver.Quero dizer sem atribuir juízos de valor, só pra desabafar.Quero poder sentir essa raiva sem ter que lidar com a indignação de quem me quer doce e positiva sempre porque se acostumou.E depois, quando a raiva for embora, não pretendo me resgatar, mas me reinventar e ficar o tempo que for necessário me redescobrindo...

Não queria ter de pedir licença pra honestidade neste espaço, mas seguindo a moral e os bons costumes, eu peço delicadamente:
Pra você que leu esse texto até aqui, por favor, se pretende comentá-lo ( não quero intimidar ninguém), não me deixe um consolo, um conselho ou termine com um "fique em paz".Não quero que me roubem um segundo dessa fase, desse instinto primitivo, ele é precioso.A paz eu conheço e ela não está ausente, só quero experimentar até aonde meu ser alcança, a totalidade. Eu quero estar plena de todas as emoções pra que elas não me governem, mas passem por mim. Quero me permitir cada segundo desse ranço, porque eu o sei tão transitório quanto o maior dos mais definitivos amores. E se ainda assim quiser deixar o seu rastro, me fale de tua dor, tua alegria, tua conquista, tua pendência, teus planos, tua raiva, me conte uma mania tua, compartilhe tuas belezas comigo para que eu possa aprender com elas.
E me deseje inspiração ....( a única coisa que quando falta, me tira a paz).

PS: Só lamento este texto ter sido escrito num dia de tanto sol.
PS2: Não lamento coisa alguma!
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sábado, fevereiro 10, 2007

Derramamento


Foto: Geisa
Dentro de mim, existe um Espaço Sagrado onde guardo minhas preciosidades.
Às vezes faço uma faxina lá e mudo tudo de lugar.Não é por maldade, é só vontade de ver um outro ângulo das coisas. Eu não gosto do olhar acostumado.Não gosto de ver um objeto num objeto, porque tudo pra mim tem entidade humana.E gente me tira o fôlego, vejo belezas demais quando amo, e amo sempre e tanto.
Às vezes eu desapareço mesmo, porque fico tão cansada.Fico tão cansada daquele cenário.Fico tão cansada daquele amor.Tão absurdada pelas coisas,me exaspero.Sempre é tanto.É que vivo num derramamento espesso de sentimento.Aí eu mudo o foco que é pra não cansar o outro também.Ou, às vezes eu não quero cuidar da ferida de ninguém, tão cansada que fico.Ou aquela alegria dele merece ser comemorada com outras pessoas porque estou no meu momento pleno de esvaziamento em que até a sedução me cansa.E só a solitude pode me acalmar.Por isso tão pouco escrevo.(Perdoe a carta não respondida).
Por isso durmo antes do sono.
Por isso, às vezes, tudo tão esquisito e ausente em mim.

Não sou sempre flor.
Às vezes espinho me define tão melhor.
Mas eu só espeto o dedo de quem acha que me tem nas mãos.
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Marla de Queiroz

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Sofia De Lira ( a personagem )... ou véspera de um Carnaval.

Gustav Klimt
Ela certamente poderá ser encontrada dentro de um quadro de Klimt,
nos bares com um Bukowski, num filme do Almodòvar,
numa música do Chico Buarque...
Seu despudor faria corar de vergonha Hilda Hilst,
sua sexualidade exacerbada encabularia Simone de Beauvoir.
Todas as tardes ela contempla o dia morrer na beira de um lago
namorando Narciso, esperando Godot.
Ela é aquela cujo sobrenome é verbo.

(Pode ser que alguma coisa dela fique entranhada até doer em você).

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

A eternidade de um breve instante.

Foto: Pedro Moreira

E, subitamente,

a chuva se desinteressou pela noite.

Num descuido de nuvens,

sobre o mar,

as estrelas encharcadas foram

rasgando um caminho

e uma lua menininha nasceu com cara de choro.

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Marla de Queiroz

sábado, janeiro 27, 2007

Resolução.

Desconheço o autor da foto

Se eu inventei essa história,
você desenvolveu todo o roteiro
então me tire o sono,
não o sossego
e me dê alguma certeza,
não essa esperança já tão desanimada...
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Marla de Queiroz
(Fevereiro/2006)

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Previsão do Tempo

Foto: Hugo Tinoco

A previsão é que com a chegada de uma nova frente fria

o céu fique nublado e haja trovoadas esparsas...

Contudo, o tempo inda é o melhor remédio.

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Marla de Queiroz


domingo, janeiro 21, 2007

Chuva guardada...


Foto: Rafaela
Cada um fez o que pôde diante do que sentia, por isso desaprendi aquele apego que eu tinha a nossa história, à importância da tua companhia, (escolhi esse vento na cara e a canção alegre cantada aos berros levando a mão ao peito pra me amparar do que quase dói no refrão), tuas coisas eu não sei se deixo naquele endereço ou te devolvo pessoalmente e peço inda o reembolso, um último abraço...(pra que a gente se espalhe, se expanda,até que a distância seja suportável, até que nem isso, que nem se pense em nada mais)...só tenho achado que você anda calado e tristonho, só tenho achado que às vezes fico calada e tristonha, (não é saudade é uma mania que eu tenho de recordar o que foi bom), hesito em devolver as tuas coisas pra não ter que me despedir do teu olhar novamente, (logo agora que eu quase já nem lembro mais do dia em que segurei nas pontas da saia longa e corri pro mar, na chuva, com a liberdade de quem dança nua e, depois, aquele nosso último beijo,só mais um, combinamos, só mais uma vez),e depois eu voltando pra casa impregnada de sal, areia e despedidas...
Um último abraço, quem sabe, e eu devolvo o que ficou de ti, aqui.
(E você me reembolse essa distância com uma última poesia... ou com algo mais forte que esgote definitivamente esse adeus).
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Marla de Queiroz

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Aniversário do Doida de Marluquices


Foto:Rafaela

Hoje o meu blog completa 1 ano de idade e vou postar aqui o primeiro texto publicado nele.Fiz algumas alterações porque, à medida que fui amadurecendo a escrita, tudo o que escrevi anteriormente me pareceu tão tolo, quase detestável.
Eu tenho um carinho absurdo por este espaço, ele me proporcionou muitas das coisas mais preciosas que tenho hoje: amigos virtuais, amigos reais, inícios e redirecionamentos do fluxo dos sentimentos de relacionamentos afetivos, desabafos, homenagens, enfim,a matéria-prima dos meus textos.
Sem contar toda a troca que tenho com os leitores que vêm aqui e comentam, gostam ou não, e deixam um rastro, um bilhete, uma crítica, um elogio,um beijo. Tudo isso é incentivo pra continuar.Ainda o alívio de poder expor o que pulsa, dói, alaga, sangra, resseca, chove, floresce,brota morto ou semeia...Da delícia de brincar e poder experimentar as diversas possibilidades de (des)construção da palavra.
Então hoje eu reinauguro meu Ano-Novo (que não foi tão bom porque chovia fora e dentro).
Hoje eu vou abrir o dia com um SOL-riso...
Obrigada a vocês que fazem de mim uma pessoa cada vez melhor.

Segue abaixo o meu primeiro texto:

PORQUE EU NÃO GOSTO (MAIS) DE VOCÊ.

Porque você me fez dormir no melhor abraço noturno que alguém me deu e depois deixou meus braços órfãos.Tentou me convencer que estava tudo bem entre nós quando meu coração estava intranqüilo e parou de me ouvir em algum momento em que continuei falando, perdendo a parte mais importante da história.(E eu fiquei sozinha quando você ainda estava ao meu lado)...

Tirou o livro do meu colo pra deitar sua cabeça e absorveu do meu cafuné o melhor calor que havia em mim, mas não me devolveu a paz que eu encontrava na literatura.Visitou a minha casa, preencheu o lado esquerdo da minha cama e foi embora em algum momento sem se despedir, enchendo de palavras tristes a estrofe do meu poema incompleto.

Eu não gosto mais de você porque me fez dançar o bolero de Ravel e cantar com uma voz impecável o melhor jazz que já se ouviu mentalmente, me fez acreditar que os holofotes estavam todos voltados para mim e que você bastava como platéia, mas não me visitou no camarim quando decretou que o show havia terminado...Porque me arrancou a inspiração que eu não tinha, bolinando as palavras pra te escrever coisas doces e depois as esqueceu num canto qualquer do porta-luvas do seu carro quando inda havia um coração palpitando ali...

Eu não gosto mais de você porque me seduziu completa e absolutamente se fazendo deslumbrante quando não estava disponível afetivamente...

E me roubou a solidão, mas não me fez companhia...

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Marla de Queiroz

quinta-feira, janeiro 18, 2007

A arte imita a vida!


Foto:Hugo Tinoco
E, de repente...
Enjoei do personagem,
não gostei do figurino,
cansei do cenário,
impliquei com a perfomance
e detestei o texto...
Então,
abandonei o palco
e o deixei ali:
ator-doado em cena.
Dei a mão pro outro moço
e fui viver,
finalmente (!),
um amor de cinema.
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(Marla de Queiroz)

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Desse encontro


Foto:Alexandre P.



Da nossa chuva já nem falo que é fato como fogo e ardências.Eu digo é do amor que sempre esteve e desabrochou com ela.Das flores que você me trouxe pros dias, numa primavera tão perene que já nem caibo nas estações do tempo, nas definições que pontuam os ventos.Eu sei que teu abraço é meu amparo.Já posso saltar no desconhecido com a inocência de uma criança que nunca foi machucada.Porque quando você ri, a confiança me preenche.Então a vida é sábia.E nós a reinauguramos diariamente.
Agora eu entendo que a poesia não é aquela sedução tosca nascida da insegurança de alguém que um dia soube construir uma única metáfora consistente e passou dias embolado na definição de um verso torto que nunca conseguiu desatar.Não é a tentativa de manter uma história irreal que já se sabe, não renderá.Poesia, é esse seu olhar derretido que me dá vontade de dizer: vem meu amor, vem dormir aqui, no meu melhor abraço.
E entender que nesse momento nada pode ser melhor que isso.
Porque eu mereço o melhor.E você também.
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Marla de Queiroz

domingo, janeiro 07, 2007

Um presente.



Foto: Helder Almeida

Para Paulo Vigu...porque ele me faz sol-rir com o coração.

Eu te contei, rio?
Eu namoro o vento.
Vezenquando ele me tira pra dançar.
Vezenquando ele me faz ciúme levantando as saias das meninas.
Vezenquando ele sopra pra longe uma tristeza minha.
Vezenquando ele me traz uma saudade.
Eu namoro o vento, rio.
Vezenquando eu fico soprando coisinhas no ouvido dos outros com ele.
Vezenquando a gente tira a tarde inteira só pra ventar...

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No rio daqui, enquanto a água namorava o barco, eu namorava o vento.
Um dia ganhei um presente do rio: aquele pedaço de céu cheio de passarinhos voando e um punhado de estrelas para quando anoitecesse.
(Nunca mais ninguém me deu nada tão grande).
Quando eu rompi o meu namoro com o vento, o rio não entendeu.
Tive que explicar: "namorar o vento é tão difícil porque não se pode dormir abraçado!"
O vento, desorientado, levou o barco pras águas do mar...
E ficamos tão solteiros e desconsolados que eu dormia ali, naquela margem do rio, só pra gente se abraçar.O resultado disso tudo é que, daqui a pouquinho, quase agorinha mesmo, a gente vai se casar!

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Marla de Queiroz

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Pra você.


Foto:Maria Flores


Esse caboclo quer arrancar da minha pele cada gota de suor guardado no inverno. Eu fico esperando bem do jeito que ele gosta: com os cabelos desgrenhados e florida até os dentes, depois de hidratar os contornos que ele sabe passear tão bem.
Espalho alfazema pela casa enquanto canto a canção que diz
“Vivo em teus bosques, bebo em teus rios...línguas de lua varrem tua nuca...eu juro beijar teu corpo sem descanso...”
Ele me ouve longe, diz que tenho voz rouca agridoce boa de ouvir BOM DIA!
(e de deixar o dia bom mesmo).
É que esse seu cheiro de mato combina com minha saia levantada e com meu desaguar intenso:barulhinho de cachoeira violenta logo ali,atrás daquela pedra.
Sei que tem tanto sol na morenice dele que eu deveria me besuntar inteira de filtro solar.
Mas estou tão ocupada, recortando corações de cartolina.

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Marla de Queiroz

domingo, dezembro 31, 2006

Um brinde!

Foto:Isabel Gomes da Silva


Que o poema-novo inaugure o ano
porque estarei ampliada de desapego
quando estourar a primeira estrela.
Eu só quero continuar sendo merecedora
das alegrias que tenho
e um abraço pra sempre.
Porque se há-braços, é para a abundância deles.
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(Inspiração, criatividade pra fazer novas escolhas e um coração sossegado de tanto amor pra todos nós).

quinta-feira, dezembro 28, 2006

ANIVERSÁRIO


Foto:futiLE
Hoje eu comemoro 1.488 luas.
Pedi pro Unviverso essa previsão de tempo:
Estrelas trincando silêncios,
Chuvas lavando mágoas,
Sol-risos abrindo flores
e 28 alegrias na primeira semana de janeiro pra cada um de vocês.
(Façam seus pedidos!)
No mais, têm presentes que não cabem na palavra obrigado.
Sol-rindo:
...
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(Marla de Queiroz)

terça-feira, dezembro 26, 2006

Verão com vista pro Amar

Foto:Ricardo Zerrenner


Assim, toda adereçada de flores pela primavera, foi que a Cidade conheceu o Verão. Ele chegou num dia fértil, arrancando as manhãs da cama mais cedo, desabotoando o suor pra escorrer no decote das tardes, derrubando na areia estrelas maduras. A Cidade o esperava amanhecida, semi-nua, vestida apenas
de luzes, de luas, de chuvas breves, de cio latente, de saias leves contornando as curvas do calçadão. No desaguar de tanto desejo, tudo se transformou em encontro: e os que habitavam seu corpo, com o calor daquele abraço, mergulhavam a língua de sal do suor do mar.

Seguiram compondo cenários, amando-se embaixo dos Arcos, dos Circos, aplaudindo o pôr-do-sol, amanhecendo pelas praias antes que o mesmo acordasse, até vê-lo surgindo, sonolento ou inclemente, cumprindo seu ofício, brilhando como os fogos, mas já sem artifícios. E num Janeiro que nem era sobrenome do tempo, mas da Cidade, onde a música e a cultura se misturavam diversos, viram-se naquela tarde meio chuvosa desejando experimentar a matiz das possibilidades.

E a Cidade resolveu cair no samba, já era Rio com ânsia de mar. E o Verão atormentado de ciúme resolveu chover sua fúria. Mas a água que vertia dos seus olhos era doce e ampliou as conseqüências do seu desespero: os convidados da festa carnal bebiam, brindavam, comemoravam cantando a plenos pulmões, com as veias do pescoço saltadas, aquelas músicas que inundavam de saudade lúdica.

Desencontrados enfim, após a ressaca da quarta-feira cinza, na dança das fantasias, um o Frio, a outra a Serra, atraíram-se sem saber segredos que escondiam máscaras.Deram-se as mãos e brincaram na avenida. Atraídos pela sintonia de suas fantasias, rodopiaram, dançaram e foram abençoados e lavados de poesia e lirismo pelas quentes e torrenciais Águas de Março.

BY: Marla de Queiroz

Texto publicado na primeira edição da revista DROPS MAGAZINE
do Rio de Janeiro.



quinta-feira, dezembro 21, 2006

Poema que não alcança o gosto


Foto:sweetcharade
Seu despudor gentil
rompe a resistência
da minha carne morna.

Um calor intenso
de verão,de corpos
desata
a liquidez salgada entre-colchas,
o fluido doce entre-coxas.

Não há gelo
que tire da pele
a digital dessa mordida,
essa cor roxa.
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(Marla de Queiroz)

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Na-morada


Foto:Felipe Rodolfo Silva

Eu vou morar em você
e arreganhar todas as frestas
pra que o tamanho do seu abraço
seja também o da sua entrega.
E a gente vai viver de arredondar palavras,
de deixar traumas pra trás, sobre as calçadas,
de escrever poemas sobre flor
e acordar dizendo:
Bom dia, Marlarida
Bom dia, Girassol
Boa noite, meu amor!
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(Marla de Queiroz)

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Rotina

foto:António Lança


Quando ele me beija ao se
despedir pelas manhãs,
remoça meus desejos de chuva
e feriado.
Quando ele me beija
antes do abraço noturno,
tece faíscas de sol
nos meus sonhos.
Quando ele me beija
nas madrugadas acesas de amor
tira dos meus ais uma rima bonitinha e simples
como quem enrosca nos meus cabelos
a florzinha mais singela que se chama:
meu-amor-não-te-abandono-nunca-mais.
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(Marla de Queiroz)

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Completude...


Foto:Berenice Kauffmann Abud


É dia, mas o ar riscado por fios de noite. Parece que vai escurecer tanto.
A voz velada do meu medo te chama pra perto, disfarçando o desespero rouco.
A vontade de te ver incendeia os olhos, a paixão encorpando a saudade.
Porque eu lembro e aperta.Eu lembro tanto e sempre. Mas trocaria a sensualidade que me arde na terra do corpo por um mar de ondas amenas onde as gaivotas se alimentam...
A paciência que havia foi esquartejada, amiúde, pela indecisão. E a única palavra que sobrou já veio espessa de tristeza, camada grossa de agonia, angústia fina penetrando a carne dos olhos. Bom seria se se pudesse dizer adeus sem perder a calma.

É que mesmo os melhores finais inda doem.
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(Mas um segredo que quero revelar é que um dia eu quis dizer que amava tanto,
e fiquei nervosa, a garganta seca, a frase grave porque eu não sabia se.
Então eu quis dar leveza aquilo tudo e disse apenas aquela frase...
só tive coragem de dizer que você era a razão do meu banho demorado).
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Marla de Queiroz
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Letra de Daniel Chaudon e música de Fernanda Dias
pra inspirar: TUA PAZ

terça-feira, dezembro 12, 2006

Conclusão


Foto:António Lança
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Dentro da aurora vaga,
na hora exata da sonolência do sol
(naquele momento em que o olhar tranqüilo do ócio
amolece as manhãs como se fosse sempre outono)
desataram as mãos e desviaram rapidamente o olhar em ruínas,
num rompante de rubricar com passos velozes
um fim.

No rodapé da página virada,
um poema sangrava lentamente...
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(Marla de Queiroz)

domingo, dezembro 10, 2006

...


Nossa história é antiga,
mas inda nem começou.
É semente de música,
prosa rabiscada em papel de pão
esquecida ao lado do computador.
Nossa poesia é casada
com a euforia das histórias breves;
versos catados na neblina
cansados de rima,
enterrados na neve.
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(Marla de Queiroz)

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Mas,... como eu ia dizendo...


Foto:Paulo Medeiros
Porque ele está triste.
Seu olhar de nuvens lacrimeja angústia querendo chover.
Recusou a brincadeira de versos, só aceitou mesmo
a luz azul do pensamento bom.
Falei pra tirar a poeira melancólica da voz embargada,
pois já nem canta.
“ Eu cuido de você”, eu disse.
Mas ele acha que eu não dou conta:
“Ah, você só sabe falar de flores!”
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(Marla de Queiroz)

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Passado a limpo...

Foto:Fernando Figueiredo
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O rascunho é este:
Eu não vou falar de flores;
Enjoei das borboletas;
Vou catar poesia no lixo
e rimar amor com desperdício;
Vou deixar esta página em branco
ou um poema maculado pela desistência.
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(Marla de Queiroz)
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E tem mais...Mais um dos poemas nascidos a nove mãos,
regado por água que passarinho não bebe na Avenida Paulista:
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POESIAÇA

Manguace-me, poeta das bandejas
entorpeça-me coa plenitude deste momento
[despretensioso e etéreo
etílico
que prova, mais a mais, de modo empírico
que o rebento em grupo é aéreo e lírico
traga o copo,
traga a realidade sua fuga
transubstancie ternura etílica,
diga!traguemos deste ar,
deste espírito delírios, ilusões, doideiras híbridas
tracemos nesse mapa o nosso vôo
incrivelmente lúcidos e lúdicos.
Vertamos as lágrimas
de alegria
que lavam a cidade da mundície
E essa dormência, poeta das bandejas
é o que em nós se almeja.
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P.S.: Muita cachaça nessa aur[h]ora!!!rsrsrs.........
Saudade eterna de todos!

terça-feira, dezembro 05, 2006

Entre flores e fontes...


Foto: António Lança
O nosso mundo é virtual,
namoro que nasceu na rede
num jardim de verdanas e negritos.
Todos os dias ele me acorda
com um buquê de girassóis de Van Google.
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(Marla de Queiroz)
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P.S.: Hoje sou a convidado do Múcio Góes (meu amormáximo!) pra postar no BLOG DE 7 CABEÇAS.
A apresentação dele ficou mais bonita que meu poema...;-))...........
Porque sou fã demais.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

A Torre...ou...Para o Guardador das Estações.

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Ainda esse problema de insônia e a dificuldade de entrega ao sonho enquanto o vejo dormir.
E a sensibilidade exacerbada me privando da quantidade de café que gosto tanto:
o peito aperta como num mau presságio.
Hoje pedi tanto que a chuva cessasse enquanto eu ensaiava aquela carta,
mas minhas mãos cansadas, encabularam-se. E a chuva não cessou.
E fiquei decepcionada por não conseguir encontrar raiva dentro de mim
quando vi um casal se atirando da Torre num Arcano Maior do tarô.

(A umidade estagnada neste quarto ,o bafo quente de chuva, o cheiro de incenso e
esse hálito de mofo que têm tido os dias. Nem assim encontro raiva dentro de mim.)

Temo que qualquer decisão que eu tome,machuque demais meu silêncio.
Então, diariamente, decido pequenas coisas como não sair de casa pra não ter aquela sensação de que sempre estou esquecendo alguma coisa.
Decido qualquer espécie de distração porque têm perdas que só doem
quando a gente presta muita atenção nelas.
(Um dia eu vou me permitir acordar bem frágil ao ponto de escrever aquela carta e esfacelar o envelope entre os dedos com toda a força da fartura do meu medo).

Porque o que me faz postergar tanta coisa, é que a gente se conheceu dentro do olhar um do outro--um desses encontros que vêm com eternidade junto.
Mas uma decisão se faz necessária...
Pode ser que eu a tome depois de mostrar a ele três ou quatro músicas inéditas
que não ouvimos naquele dia, ou depois de usar o tal vestido pra conhecer o bar novo que nos deixou curiosos ou quando eu terminar de ler o livro dele que peguei emprestado.
Não gosto de boas leituras interrompidas.
Não gosto de músicas desamparadas de admiração.
E ainda preciso de alguns dos seus abraços pra acordar lírica.
Eu sei que uma decisão se faz necessária,
mas só depois que.
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(Marla de Queiroz)

Canto Etílico À Rayanne

por Marla, Czarina e Leandro Jardim.
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Véspera de sol-risos
Num céu de rayanne
Perdoa-me colega
Por esses versos não serem meus
Do meu mel
Tá aí a minha manha
Que é de hoje e amanhã
Ou talvez é de depois
Talvez seja de rã
Essa coisa tacanha
Reinada pelo deus pã
Que nossa história seja
Líquida, mas nunca escassa
Estrela que se banha
No calor das águas
Como carne sem as banhas
Como chuva sem as mágoas
Como tudo
Como
E com.

quinta-feira, novembro 30, 2006

Síntese2



Foto: Catarina Paramos
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A POESIA ACONTECE
QUANDO AS PALAVRAS SE ABRAÇAM.
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(Marla de Queiroz)

quarta-feira, novembro 29, 2006

Poema a 9 mãos...eu diria Poesia Etílica!


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A chuva cessou
No peito alegre da menina
Triste
Mas as poças ficaram
Nas moças coisas ficam
Espelhando o novo céu que se abre
Espalhadas pelo chão, nesgas e nuvens
Que refletem mais que meu rosto
Desgosto, dizem, infiéis tormentas
Lamentos pelo caos que a tempestade
Deixou
Tantas rachaduras no asfalto
Tantas poças inspiradas pela chuva
Que o mundo escorrem
E escorrem...
Por dedos descuidados
Por vidas que se correm
Nos tempos que nos morrem
Pra chovermos noutras bandas
Umidade do mundo, por onde andas?
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poema criado em conjunto pelos participantes do
primeiro encontro de poeblogueiros
edição Rio-SP
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P.S.: Um dia, moraremos todos juntos num balão...

terça-feira, novembro 28, 2006

Síntese

Foto: Fernando Lucas
A rua se enchendo de gente, o buquê de flores falsas, a viagem pra cidade dos casacos coloridos,
o fim do namoro, a saudade das sensações (não das pessoas).
O grito contido no olhar pela decisão tão postergada, a angústia silenciosa antes do surto, a gargalhada brotada do peito depois do susto; e esse choro por dentro, a voz que falha quando engasga na fala e não alcança o sentimento,
E o arco-íris diluído no copo,
o poema escrito no corpo,
o amor preenchendo a cena enquanto nos embriagamos de lirismo...
Eu tinha trinta e sete citações literárias pra fazer entre as risadas;
eu tentava desfazer toda a tensão do vento.
E tinha guardado dentro de cada manga um escândalo, uma piada e um plágio.
Você com suas histórias, eu com as minhas fontes e esse meu jeito
de ir olhando as coisas por dentro com cara de sono.
Um dia começaremos por onde sempre terminamos:
cantando animadamente trechos tristes de Roberto Carlos e Paulo Diniz,
fazendo as curvas da estrada de Santos nas esquinas do Rio de Janeiro ou tomando um chope pra distrair;
E sempre indo embora lúbricos, costurando com os pés
nossos caminhos de areia e asfalto.
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(Marla de Queiroz)
Postado em Março de 2006.

P.S.: Ainda não consegui escrever sobre o mágico encontro com os blogueiros paulistas.
Aguardem!

quarta-feira, novembro 22, 2006

Lado B


Foto e produção: Marco Teobaldo e Guilherme

Sou Marla de Queiroz, de Quereres, de Querências.
Marla de Todos os Santos.
Filha de índia domesticada no laço e do resquício de sal da língua portuguesa do mar.
Batizada, abençoada e protegida por Iemanjá.
Ando descalça em brasas,cacos, barro, nuvens.
Ando destituída de tudo, menos de confiança e coragem.
Se às vezes sou pedra que, abrupta, não se deixa lapidar,
também faço chover barulho de tambor arrebentado em mãos furiosas
pra alimentar a rameira e as ramagens.
Não sou poesia, nem prosa,eu nem caibo num verso:
sou o que estou quando toco, gozo, choro, gargalho,converso.
Tem dia, minha cigana pega a estrada e diz “ quero namorar o bom moço, o mendigo,
o safado mais tarado, ou aquele ali do olhar triste”. E vai.
Incansável, nunca senta na calçada, segue sem rumo até se debruçar no mar,
pede benção a Iemanjá e canta em prece qualquer coisa doce.
Do amante, quero a fúria de um olhar que despedace qualquer máscara para
que eu não diga “ tenho fome”, mas,“ estou faminta”.
Sigo rompendo, rasgando, desconstruo,restauro, conserto.
Nasci para gerar budas, gerânios e processos de cura.
Tem dia que acordo ocupada em me desorientar o quanto puder
pra nunca precisar de bússolas, relógios, mapas ou qualquer coisa que
envelheça meus sonhos.Minha intuição me guia.
(Rasguei a civilização nos dentes pra restaurar os meus instintos).
Não planto flores em cascalho e nem rego sementes invalidadas pelo tempo.
Prefiro reinventar a fertilidade cobrindo com meu pensamento-azul
o que antes estava triste, murcho, desagasalhado.
(Lamento,culpa e arrependimento é sangue bordado no vento).
Faço um móbile de folhas secas e penduro na janela só pra lembrar o que a morte
faz com as coisas que já foram vivas. Porque assim, encontro beleza em tudo.
Eu aprendi com a chuva a ressuscitar o que estava oco.
Mau-humor, dor de dentro e desânimo, eu resolvo com abraços.
*
*
*
P.S.: Essa aí na foto sou eu. Foi tirada em abril de 2006 pro livro de um amigo.

domingo, novembro 19, 2006

Tanta saudade



Esperei que todos saíssem pra chorar no tom mais agudo que eu tinha, toda aquela emergência adiada. A casa vazia e eu me esvaindo em lágrimas enquanto compunha com música o cenário adequado pra saudade represada. E clamei pela salvação da palavra, pela organização dessa desordem de sonho.
É que brotou amor demais da flor dos olhos me aguando toda por dentro.E as minhas alegrias sempre superlativas me condenam à exaustão. As belezas que experimento têm delicadezas violentas demais,quase não as suporto.Essa coisa açucarada que adoça tardes e engole minhas noites, me deixa tão completamente fascinada e envolvida que, sem me ausentar, corro contra o tempo, ultrapasso dias e volto pra viver duas vezes a mesma coisa.Fico chuviscando por toda parte, meu corpo se liquefazendo em abraços.
Assim, como num mergulho.
O fato é que quando é muito bom explode dor e medo no peito porque parece que a gratidão, de tão imensa, não caberá em mim.
E nunca sei quem me tornarei depois de ser ampliada por tanto afeto e amor.
Tenho medo de ficar exageradamente pura enquanto cato as estrelas maduras que caíram no jardim.
E de tanta doçura, tenho medo de ficar enjoativa.
*
*
*
(Marla de Queiroz)

P.S.: Ah, essa saudade...

sexta-feira, novembro 17, 2006

Inesquecível Azul

Foto:Evelin
Para Marla, Leandro Jardim, Grilo e João Antonio

Jardins onde estreladas margaridas
entoam hinos cricrilantes da mais pura poesia ressonante.
E dissonante, a vida amanhece em clave de sol
quebrando ondas de esperança.
Eu eternizo dentro todos os amores gravados a sol-risos
cintilando o azul das possibilidades.
*
*
*
P.S.: Por aqui, tenho vivido dias incríveis de inesquecível beleza.Eu, Rayanne, Leandro Jardim e Grilo bordando histórias no vento...Uma amizade que começou agora, mas que só pode ser re-encontro.Magia é pouco.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Desconforto



Foto: Carlos Neto

A canção distorcida pelo volume alto e todo esse mal-estar, apesar do sol.
(Alguma coisa impronunciável dói em nós,bem sei).
Nossos crepúsculos internos, tantas belezas, e os caminhos se rasgando em dois como se tudo brotasse morto daquelas sementes abstratas.

Eu tinha uma frase de impacto pra usar nessa hora,
mas ela não coube na minha voz.

*
*
(Marla de Queiroz)
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*
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Nenhum verão
(Túlio Mourão)

Esse sol, porque tinha de tanto brilhar
Anunciar no meu peito o amanhã pra depois sumir
E deixar tão mais negro meu céu, minha noite
Porque foi minha boca beber, se embriagar da tua boca
Pra sobrar tão mais amargo o gosto de vazio, de solidão
Meu coração prefere acreditar nessas promessas
Mesmo essas que só fazem abrir minhas janelas
Pra nenhuma, pra nenhuma, pra nenhuma paisagem.

Ah, porque me invadir como doce canção
Pra depois me ferir, me queimar com ardor de toda paixão
Eu assim te acolhi sem nenhuma defesa
Como nova estação quando chega, um belo dia, uma certeza
Um vinho dado à minha mesa
Uma palavra, um abraço de irmão.

Meu coração prefere acreditar nessas promessas
Mesmo essas que só fazem deixar na minha pele
Calor, luz, alegria pra nenhum verão.

*
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Março 2006

terça-feira, novembro 14, 2006

Sudoeste


Desconheço o autor da foto.

O que dói em você, pouco me importa.
Eu não cavei teus abismos de mim.
Fui teu abrigo, teu barco
e lua cheia iluminando caminho.
Você escureceu nosso afeto,
você minou nosso rio.
Pra eu ficar, só precisava do seu toque agasalho
você me deu esse punhado de frio.

*
*
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(Marla de Queiroz)

domingo, novembro 12, 2006

sexta-feira, novembro 10, 2006

Apelo


Foto: Cristye
*
É com força que eu aperto os dentes pra pedir que você venha e que me tenha, eu te esgano seu safado, eu te quero meu poeta, eu te tenho meu escravo. Sou pudica, poderosa, frágil, puta, vadia, vaidosa, sua, sou de qualquer um se você quiser, eu minto, eu ordeno, eu imploro, mas eu quero assim, intenso, dentro, agora, até te deixar exausto, te caço, te engulo no abraço, te domo pelo pêlo, te arranco suor e saliva, sou a palavra nua, úmida do teu verso de sêmen, desse jorro de semântica, sou tua cria, tua poesia, a metáfora que você idealiza,eu vivo em brasa, eu vivo de brisa, te acolho, repudio, bato, eu te quero inteiro, qualquer coisa eu faço, tesão não é a minha reação, tesão governa minha vida.
*
*
*
(Marla de Queiroz)

quinta-feira, novembro 09, 2006

Flor e ar



Se eu me Flor no Vôo
quem dirá que já não era
o Templo da ida?

Pra quem viveu intacta
bordando o rosto da espera
no travesseiro,
qualquer movimento
já guarda em si
Encontro.

É porque eu demoro a compreender,
mas quando a ousadia chegou a mim,
eu já estava de malas prontas
e a alma com os sapatos adequados
pra descalçar meus medos.

(Eu nasci com essa saudade ancorada)
*
*
*
Marla de Queiroz

quarta-feira, novembro 08, 2006

Continuação...(do post anterior)

Desconheço o autor da foto

Quando acordou
havia um bilhete
ao lado do maço de cigarros...
Vazio.
“Pode ser que um dia eu sinta a sua falta”, pensou,
“ Por agora, preciso é parar de fumar... Putz! Devia ter comprado dois maços ontem!”

*

*

*

(Marla de Queiroz)


terça-feira, novembro 07, 2006

Desistência


Foto:Catarina Cruz

Cansada das intermináveis conversas estéreis e da ausência de tato no ato,
desfiou as horas contemplando o protagonista da sua mais dolorosa desistência.
E, antes que o mundo acordasse, escapou do abraço inocente
deixando somente um bilhete e um abismo no lugar do afeto:

“Não fui comprar cigarros, você sabe, parei de fumar há tempos.
E eu jamais abandonaria alguém contando uma mentira dessas.”

*

*

*

(Marla de Queiroz)

sábado, novembro 04, 2006

Insônia.


Foto:Cristye

Quando perco o sono fico costurando flores por dentro dos sonhos , no viés do vestido da noite.
Às vezes me dá uma vontade crua de ser triste só pra encharcar com lágrimas de sal a poesia e espantar as abelhas.Mas não aprendi amargura nem quando me amamentaram com fel.
Eu só preciso pingar duas gotinhas de lua nos meus olhos pra dilatar a pupila e resgatar minha inocência.
E aceitar com ternura minha vida de insônias, ardências e alguns (des)encontros.
Estou com sede de mudanças, mas não quero arrastar os móveis, nem desentortar os quadros.
Quero desabitar meus hábitos; entrar na poeira estagnada das coisas e assoprá-la no vento
como quando se liberta um passarinho depois de curar sua asa machucada.

Pra estar feliz eu só preciso deixar que meus dedos dancem a coreografia do poema novo,
vestir as palavras de cetim pra seduzir o moço
e aumentar as exclamações do seu desejo.

Amanhecer é da competência dos dias.
O poeta tece a paisagem.
*
*
*
(Marla de Queiroz)

Pra não dizer que não falei das cores...



Foto: Maria de Fátima Silveira
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Ver-ter-se
pra
flor-e-ser
pra
ver-de-novo
ou
vermelho[r]
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(Marla de Queiroz)

quinta-feira, novembro 02, 2006

Musa


Foto: António Carlos Silva
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Tua pele
alisa
minha pele
lisa
é tua.

Nua
Sol-tua-Lua.

(Cheia de mel).
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*
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(Marla de Queiroz)

quarta-feira, novembro 01, 2006

Há-Mar.

Foto: Catarina Cruz
É preciso
que você navegue
o caos
até
meu cais
para que eu possa
abarcar
e transmutar
tua
nau-frágil.
*
*
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(Marla de Queiroz)

segunda-feira, outubro 30, 2006

Deixando ir...ou carta que pretende ser um beijo.



De repente é noite e você está tão só...O meu dia foi tranquilo, mas eu sei que o seu te doeu até agora e eu não posso amenizar nada com palavras que pretendam ser abraços porque elas te falariam obviedades sobre tempo, paciência e espera_ quase uma crueldade quando o que a gente quer é uma premonição, uma certeza, alguma frase cheia de sabedoria que norteie nossa vida.

De repente a semana está começando de novo, mas só se passaram alguns dias e todos foram tão abarrotados de ausência e medo e confusão interna, de uma busca quase estéril de se sentir melhor ,de fazer coisas por si mesma...E o buraco insistindo no meio de dentro do corpo, o abismo gelado, o choro engrossado de escuridão e descrença...E eu te vejo encolhida num canto, o desespero nos olhos, o peito abafado, a vontade do grito e a falta de fôlego...E eu não sei a coisa mais bonita que eu poderia te escrever....Sei que já vi borboletas voarem faltando um pedaço da asa e rosas incríveis desabrocharem num copo com água: e é disso que me nutro pra acreditar que a meteorologia nem sempre está certa e que dias tão cinzentos podem ser prefácios de noites com sol...

Sei que se eu estivesse aí,certamente estaríamos juntas no cantinho mais confortável de qualquer lugar escolhido por você e eu te daria um abraço com tanto encaixe e amor que você, por pelo menos alguns minutos, encontraria“ um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”...E mesmo que o seu corpo todo doa numa súplica e que “ele” seja toda sua ferida, meu amor, eu espero ,sinceramente, que o pedacinho que falta na tua asa, não te impeça o vôo...

( Minha flor, o que eu tenho pra te dar é colo, não conselho...E todo amor que transborda em mim, vai ser seu até que nada mais doa tanto...)
*
*
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(Marla de Queiroz)
Abril 2006

sexta-feira, outubro 27, 2006

Com-tato


Foto:Carla Salgueiro
Deitado ao meu lado, seus dedos deslizaram pelas minhas costas
abrindo fendas e poros, tecendo caminhos,amanhecendo desejos.
Afastou meus cabelos da nuca pra roçar o seu queixo.
Eu sentia a sua respiração no meu ouvido, seu sopro de vida entrando em mim.
Desajuizada e mansa, deixei que com um movimento de braço
levasse meu corpo em posição de feto pra dentro da concha do corpo dele.
Naquele encaixe, com o nosso melhor calor, ficamos ali,
desabotoando fomes, desamarrando sentimentos.
Meu coração estava na boca...pro beijo.

Ele não me acordou.
Ele entrou no meu sonho.
*
*
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(Marla de Queiroz)

quinta-feira, outubro 26, 2006

Mar-lá...(restos de memória)


Foto: Carla Salgueiro
*
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Sempre depois de uma fase de extrema euforia e noitadas intensas, eu preciso parar pra organizar meus sentimentos_ as coisas que vejo, como as sinto_ por isso preciso de amplos momentos de solitude e começo a namorar o silêncio. Eu nasci com um certo medo de incomodar, depois de um tempo comecei a ser eu mesma pra saber se o medo tinha fundamento. Não sou alvoroçada, barulhenta, sou alegre e rio alto, faço piada de tudo, rio de mim mesma.Isso vai dando uma coragem na gente de ter mais luz.E aí a tal beleza exótica que sempre me disseram que eu tinha passou a ser um elogio. Antes eu ouvia isso como uma forma que a pessoa tinha de me dizer que não estava certa se eu era bonita ou feia,mas nasci velha, filha de índia, angustiada com questões tão mais abstratas que nem tive muito tempo de criar complexo, mas pra investir em amplexos. E fui criada meio sozinha, cuidando da casa e do irmão mais novo, fazendo o almoço com 6 anos de idade e acordando às 5h pra preparar o café-da-manhã antes de ir pra escola que era longe. Mas sempre estudei em colégio bom. E tinha tanta liberdade na adolescência que fazia meus horários de voltar da festa, me disciplinava menina por vontade que eu tinha de cuidados comigo, me enchendo de auto-restrições dentro da vontade de transgredir que todo adolescente tem, porque eu podia, ninguém me cobrava nada. E sempre fui uma criança melancólica, preocupada com os problemas dos adultos, sem tempo pra parque.Capricornianos são assim,nascem disciplinados, responsáveis demais.Um dia ouvi duas mães de amigas minhas comentando: essa menina é como uma fruta fora de estação que amadureceu à força. Nem entendi na época. Hoje, minha mãe me chama de MÃE!Não vejo tristeza nenhuma nisso, maturidade é uma coisa que facilita demais a vida da gente.É estranho, mas entendo dores que nunca tive. E tive dores que ninguém teve, mas nunca banalizei nenhuma. Porque parece que tudo dói do mesmo jeito e aprendi a cuidar do outro de uma maneira que não me souberam. Daí, descobri os amigos. Não rivais, amigos. E descobri o amor de um corpo por outro corpo, bem tarde já, pra época. E sempre tratei melhor amigo que namorado porque nunca consegui me sentir pertencendo a nada, a ninguém.Eu sofria demais com a idéia do abandono. Pelo menos, amizade seria eterno e duraria. É porque abandono tem o acostamento largo, além de ser estrada deserta e escura.Nunca parei pra trocar pneu na estrada do abandono, mas já me deixaram nua, depois de um falso amor, no estrado de uma cama ou na estrada deserta. Sem nada nem ninguém. Mas eu tinha a mim mesma.
Eu negocio com essas coisas todas, com perdas, vejo ganhos em danos,não fui criada com danoninho, mas com tutano de boi. Quase não se vêem as costelas no meu corpo, sou robusta emocionalmente. Tenho a mão pesada, o corpo macio pro afeto.Tenho doçura sem ser meiga e minha voz é forte e rouca. O meu colo é largo, sem que eu seja gorda. E eu nunca quis ter cabelo liso.E o meu nome se parece muito com meu jeito.
Minhas flores eu planto no papel reciclado.
As outras, eu ganho ou presenteio.
*
*
*
(Marla de Queiroz)

terça-feira, outubro 24, 2006

Presente do Múcio Góes



Foto: Chico Matos

Múcio Góes, o poeta -flecha segundo Rayanne, mandou hai kai pelo SMS.
Vou postar aqui, pra matar a saudade que lateja no peito.
Porque ele não foi pra Salvador, mudou de planos, mas está sem PC.


Olhos voando
enquanto no peito
pessoa
fernando-Mar
cherri!
*
*
*
(Múcio Góes)

segunda-feira, outubro 23, 2006

MAR-RITMO


Foto: Adlia Campos
*
Enquanto espero por ele,
como uma deusa,
eu danço com meus demônios:
suada,
exalando feromônio
e ávida
por adrenalina, endorfinas e serotoninas
ou qualquer coisa
que faça vingar a nossa
rima.
E que transforme esse amor,
desencontrado do nosso mapa (astral),
na mais perfeita
química.
*
*
*
(Marla de Queiroz)

domingo, outubro 22, 2006

Véspera


Foto:Pedro Lima

Quando você vier haverá o encontro da sua busca com a minha espera.
E o seu abraço será a moldura do meu corpo.
E a minha boca o pretexto para o seu mais demorado beijo.
E a gente vai brincar de se desmaterializar dentro da música,
de desatar auroras,
de escrever poemas de orvalho...
E eu vou inventar uma madrugada eterna pra quando você tiver que ir embora no dia seguinte.
E você vai inventar um domingo que vai durar pra sempre porque tenho preguiça das segundas-feiras.
E a gente vai rir dessa maldade da demora do tempo pra fazer essa brincadeira de desencontro:
quase nos deixou descrentes...
A gente vai rir dessa maldade porque o nosso amor será a coisa mais bonitinha do mundo...
*
(Marla de Queiroz)
*
*
*
Junho 2006

sábado, outubro 21, 2006

Perfil 3



"Caboquinha corria dentro do vestidinho vermelho com flores brancas e pequenas. Estampas querendo o suicídio coletivo. Morrer no revés do tecido. Nada tem a ver com as cores que se avistam com olhos recém-nascidos. Para é sempre Caboquinha. Depois que conheci Caboquinha foi como se me colocassem viseira para burro birrento. Para não enxergar periferias e abismos e se por de ré; talvez, até soltar uns coices. Caboquinha tem cabelos de alecrim. Loura negra. Boca carnuda de chupar o polegar, beiços vermelhos de lamber garapa; pernas grossas de subir morro; pelo mocotó, uma idéia das delicias para o rumo de cima; olhos negros e mudos, timidez treinada para coronéis; língua solta quando atentam suas entidades baixava a pomba-gira. Levanta terreiro. No mais, cheiro de mato e safadeza. Hoje, a ciência descobriu que se chama feromônio esse olor de bicho no cio e caboquinha vive desvairada. Recatada era pela força dos modos. Filha de macho que não quer ver filha sua perdida na vida. Claro, o safado bem desgraçou tantas. O sangue que lhe veio nas veias já havia contaminado a prole. Caboquinha aguava desde menininha. Quando lhe dava aperreio, corria pro córrego e era visão farta pros bichos, cheios de sede. Qual eu, sedento de caboquinha. Um dia, virei homem e a arrastei pelos cabelos. Botei cabresto e montei no pelo. Várias vezes, que era para fazer vingar a doma. Mas, ao contrário, ficou cada vez mais arisca. Mais dona de si. E, agora, dona de mim, caboquinha me atiça como quer. Fico aqui no cercado, seguro da vida, arando cama para amansar caboquinha. Deita caboquinha, deita...
Do teu caboco.
Saudade."