sexta-feira, dezembro 01, 2006

A Torre...ou...Para o Guardador das Estações.

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Ainda esse problema de insônia e a dificuldade de entrega ao sonho enquanto o vejo dormir.
E a sensibilidade exacerbada me privando da quantidade de café que gosto tanto:
o peito aperta como num mau presságio.
Hoje pedi tanto que a chuva cessasse enquanto eu ensaiava aquela carta,
mas minhas mãos cansadas, encabularam-se. E a chuva não cessou.
E fiquei decepcionada por não conseguir encontrar raiva dentro de mim
quando vi um casal se atirando da Torre num Arcano Maior do tarô.

(A umidade estagnada neste quarto ,o bafo quente de chuva, o cheiro de incenso e
esse hálito de mofo que têm tido os dias. Nem assim encontro raiva dentro de mim.)

Temo que qualquer decisão que eu tome,machuque demais meu silêncio.
Então, diariamente, decido pequenas coisas como não sair de casa pra não ter aquela sensação de que sempre estou esquecendo alguma coisa.
Decido qualquer espécie de distração porque têm perdas que só doem
quando a gente presta muita atenção nelas.
(Um dia eu vou me permitir acordar bem frágil ao ponto de escrever aquela carta e esfacelar o envelope entre os dedos com toda a força da fartura do meu medo).

Porque o que me faz postergar tanta coisa, é que a gente se conheceu dentro do olhar um do outro--um desses encontros que vêm com eternidade junto.
Mas uma decisão se faz necessária...
Pode ser que eu a tome depois de mostrar a ele três ou quatro músicas inéditas
que não ouvimos naquele dia, ou depois de usar o tal vestido pra conhecer o bar novo que nos deixou curiosos ou quando eu terminar de ler o livro dele que peguei emprestado.
Não gosto de boas leituras interrompidas.
Não gosto de músicas desamparadas de admiração.
E ainda preciso de alguns dos seus abraços pra acordar lírica.
Eu sei que uma decisão se faz necessária,
mas só depois que.
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(Marla de Queiroz)

16 comentários:

Leandro Jardim disse...

decisão
às vezes falta
às vezes fala
de cisão

às vezes não
vezes um milhão
de vezes
e revezes

quando dor é empurrão
faz-se imã
dois lados pra situação
por baixo, por cima e
por cisma

sim
e não
dialética
feito pulsação

pois depois
é ilusão
era real e tão!
tal a língua,
a mão, ambígua

quando é
assim sei
que é dom
estrondo
ensurdecedor
(se dor é ruim)
mas arrebatador
(de bom)

*inspirado nessa coisa linda
beiJardins

mg6es disse...

"Temo que qualquer decisão que eu tome, machuque demais meu silêncio"

silen-cio...

é que mudar de roupa, às vezes, é pouco. qq música nova nao quebra o silêncio.

BjoMar!

Rayanne disse...

Ontem, 1 e meia da manhã senti uma pontada no peito, aflita de ti. Caminha em mim teu sentir agudo pelos pontos, por encantos. Talvez tarde e a vida não revele, o gosto da decisão com o sal quotidiano da nossa realidade. Talvez a vida torne a emborcar o silêncio com ar inocente de gato a devorar ninhos, e os passos se deitem para a tua passagem.
Quem
sabe?

Eu te amo, minha linda. É tanto.

**Estrela maior**

Anônimo disse...

Também sou de "indecidir" coisas quando mergulho em boas leituras e também nunca desampararei músicas de se admirar. Miro-me nessas freqüências poéticas e fico pasmando com a alma na beira do mar - como agora. Riodaqui/ beijo aí / Paulo Vigu

Anônimo disse...

Mares com ânsia de rio e rios com ânsia de A-mar me fazem voltar correndo, pois como vistes pra mim tá tudo girando ao redor do meio. Ah! meu arcano de Pequim foi ela que arrebatou - R~i~o~d~a~q~u~i / outro beijo

Sandra Regina disse...

Marlinda!!! Fluidez escorregadia no limbo doce da delicada poesia... foi isso o que li nestas linhas tuas.Minha querida, linda, MARLAvilhosamente espontânea!! Presente bom conhecer seu calor e carregar esse gosto sempre pronto pra outro encontro...de novo!! beijos, beijos e beijos!! (De tanto te admirar, eu dizia: "Essa moça não existe"... mas vc existe...AINDA BEM!!!!!

May disse...

Querida, vc escreveu "fiquei decepcionada por não conseguir encontrar raiva dentro de mim"... eu ficarei tbm quando a minha raiva apssar e só resta o vazio da tristeza e da desesperança, aquelas que chegam de mansinho quando você percebe que você ama não quer / não pode mais fazer parte da sua vida
Adoro seus textos... sempre encontro um pouquinho de Charlotte neles
Bjs

A czarina das quinquilharias disse...

marlavilhoso. lindo, completo. perfeito.
(e triste, mas tantas coisas bonitas são...)
grande beijo

octavio roggiero neto disse...

seu texto, voz tênue, conversou com meu íntimo, falaram com naturalidade como antigos conhecidos, segredos compartilhados.

Elaine Lemos disse...

Difíceis momentos de decisões...

É incrível! Agora leio os textos com as vozes dos autores! Como combina!

Beijos!

Cecília Braga disse...

"medo de voltar pra casa
medo de sair de casa
e encontrar tudo no mesmo lugar
medo de abrir os olhos
medo de fechar os olhos
e enxergar o que não quer nem imaginar
? quanto tempo faz ? uma semana atrás ?
no topo do mundo, na crista da onda
numa euforia de se estranhar
! pouco tempo faz ! uma semana atrás !
no topo do mundo, na crista da onda
um mergulho em busca de ar
tudo mudou, ela acordou
estava onde nunca quis estar
livre para ir e vir
para ficar onde está
é outro modo de ver a queda
livre como sempre quis
livre como nunca imaginou
só outro modo de ver o muro desabar
? quanto tempo faz ? uma semana atrás ?
no topo do mundo, na crista da onda
numa euforia de se estranhar
! pouco tempo faz ! uma semana atrás !
no topo do mundo, na crista da onda
um mergulho em busca de ar
tudo mudou, ela acordou
estava onde nunca quis estar
ela mudou, tudo acabou
ela está pronta pra recomeçar." (Ritos de Passagem - Engenheiros do Hawaii)
Airumã, meu coração em prece...ficar quietinho, feito bicho acuado e ferido com medo de que qualquer movimento aumente a dor...eu entendo bem.Silêncio de quem quer estar a sós...no alto da montanha e contemplar no céu um sinal, uma certeza...e aí sim descer voando...
Mas estou aqui, e essa chuva, é pra germinar...
beijos na alma...sabedoria e serenidade nas suas decisões.

Anônimo disse...

E eu não gosto de, palavras como as suas, desamparadas de ADMIRAÇÃO.

"E fiquei decepcionada por não conseguir encontrar raiva dentro de mim"

Sabe... é que você... está ficando a cada dia mais sábia.

MontanhosoAbraço.

Anônimo disse...

Um beijo doce em vc, Marlinda!

Cecília Braga disse...

Airumã...coração em disritmia e a pensamento em você!
beijo na alma

Anônimo disse...

a indecisão é filha do silêncio...
e asim não pode matá-lo!
enquanto isso escorremos, lentamente, pelo ralo..

Anônimo disse...

um dia..
meu analista..
me disse..

"não decidir..
já é tomar..
uma decisão.."

fiquei martelando..
aquela idéia feito..
uma pedra que bruta..
eu via brilhante..
e que queria que..
todos vissem brilhar..

não deu..
as pessoas..
estavam acostumadas demais..
a bijouterias da vida..

pelo sim pelo não..
guardei das jóias..
apenas a frase..

feito mapa sem direção..
o estar e o ser ali..
sem a tradução..
do anglosaxão..
querendo ser..
latino..

se meu sangue ferve..
por que tentar por gelo..
se ainda fosse uísque..
ou qualquer bebida barata..
que esquente antes de mim..

se eu quero e acho certo..
quem vai ser o outro..
que vai me impedir..
de conhecer..
as mais fundas..
das minhas poesias..

eu to ficando aqui..
no cruzamento perigoso..
eu não avanço o sinal..
nem ele me comanda..

sou eu mesma..
aquele casal..
de loucos..
que se atirou..
da torre..

a única diferença..
é que eu já sei..
o que tem no final..
então salto bonito..

e escrevo mais..
e rio mais..
e por vezes..
choro mais..
para tentar..
criar um..
fosse olímpico..

já que o ano pede..
e quem sabe..
minha performance..
pode valer um dez..

(é isso..o resto vc já sabe..amo-te..só daqui..e isso já me basta..)

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A poesia acontece quando as palavras se abraçam...