quinta-feira, setembro 13, 2007

A segunda versão_ a do protagonista





Eu entendo a sua omissão ao publicar o nosso romance, só não entendo o que você chamou de "nossa história real”. Em momento algum você me perguntou se eu queria ser o protagonista disso tudo. E, de repente, me vi preso numa imagem, num rosto que você esculpiu, num temperamento, com desejos e personalidade que não eram meus.


Sempre gostei de você, da tua intensidade poética, mas quando me enfiou naquele capítulo com uma lua derramada de mel, senti enjôo e sono:eu não queria aquilo, aquele dia, naquele cenário com o par perfeito. Eu queria um porre num copo sujo e todos os cigarros que nunca fumei. Eu queria a companhia dos iconoclastas, as profundezas do obscuro_ (dessas necessidades que a alma tem vezenquando e que não existe delivery pra isso.)


Eu precisava ir, vivenciar e aprender. Não queria cheiro de xampu e maquiagem. Eu queria tragos de cachaça e alguma música triste na voz de um desafinado.Queria a quebra de página inconcebível, o verso mais embriagado, inovador e incoerente. Nem queria o clichê do futebol com os amigos, da prostituta de luxo me dando de graça. Queria tua revolta, a cuspida na cara, você fervendo de um medo sem camuflagens. Mas teu amor sempre foi higiênico demais, espiritualizado demais, saudável demais... Uma trepada tântrica com uma quase psicóloga-holística-bonita-e-ninfomaníaca-divertida-e-boêmia num boteco do Leblon....(não me excitava esse parágrafo.)


Eu era o karaokê na Lapa depois da sinuca. Um eremita. Você queria o super-homem-bom-de-cama-e-estiloso. Eu era a fratura exposta, o retrato da fragilidade, precisava do contato com aquela dor. E você, narradora onisciente, não me respeitou quando me enfiou numa praia bonita, me deu banho de mar pedindo pra eu alimentar o meu plexo solar, toalhas limpas cheirando a confort e um talento qualquer pra justificar sua dificuldade de se desvencilhar de mim... (mesmo sabendo que eu não era nada do que você havia idealizado).


Eu sei que você omitiu que publicaria um livro sobre o nosso romance, mas o que não percebeu é que a nossa história era real pra você, naquela hora, mas meu personagem não. A nossa história foi real pra nós dois, em todos os nossos momentos, mas não foi a mesma.E o que me restou foi guardar tuas ilusões na minha mochila pra partir, sem segredos. (Foi quando, finalmente, você resolveu perder a compostura tentando me arrancar das costas a história que omitiu dos seus leitores).

Já era tarde. Eu demorei muito tempo pra me libertar das tuas frases. Eu levava ali_ e só você sabia até então_tuas inseguranças e minhas recusas, minhas inseguranças e tuas compreensões e eternas justificativas pro que quer que eu diga ou faça. Sempre derramei minhas verdades sem dó nem piedade, nunca lancei mão de entrelinhas. Era a minha recusa à submissão de ser teu homem-alguma-coisa, belamente adjetivado com teu pronome possessivo predileto.Eu era o teu arquivo vivo.E um espetáculo na faixa de pedestres debaixo do sinal vermelho-verde, amarelo.E a frustração da metáfora irrealizada no meio de um soneto quase impecável, de tanto amor incerto. Eu não podia oferecer nada além de um fiapo de dia no meio da madrugada.(Insultuoso foi você querer de mim algo que sabia que eu não podia ou queria dar).


Agora é tarde pra que eu vire o personagem adorável do teu livro.Escrevi no meu o direito de resposta aos teus poemas distorcidos.Nossas histórias clandestinas revelei com adornos de verdade e pimenta. (Enjoei do teu chá de camomila).


O que te doeu, entenda, não foi o que eu te trouxe à tona indo embora, mas o que fiz por mim quando fui.Eu não te abandonei, eu apenas respeitei essa vontade que tive de ir.

Você queria um romance, eu fui um conto breve sem pontuações definidas.
(Ou alguém que sempre vai te amar da maneira errada).

*
Marla de Queiroz
*

(continua...)


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Marla de Queiroz

domingo, setembro 09, 2007

Um retrato

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Meu menino alfabetizado pelo oceano,
me acena ao longe adornado pelas ondas.
Tenho em mim esta parcela de mar:
ele, todos os azuis e um branco-espuma-breve.

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Marla de Queiroz

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P.S.: Lembrem-se, dia 11 de setembro, escreva uma dedicatória para um desconhecido e deixe um livro pela cidade.
Por favor, quem puder, me ajude na divulgação.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Uma balada para dois*


Desconheço o autor do desenho...(que pena!)

Tem tanta dor dentro desses copos,
tem tanto ardor dentro desses corpos
e tanto, tanto nesse “vezenquando”
que vezenquando tudo é encanto.

(Mas o ideal ainda tão distante
interrompe
o toque, o gole, o trago, a verve, o canto).

Por ser real
por estar tão próximo
e por ser possível,
há de parecer
tosco
pouco
óbvio
(mesmo, vezenquando, sendo incrível).

Talvez, um dia,
quem sabe,
um reencontro:
no bar da esquina,
na praia,
na fila do banco,
no trânsito.
Ela com o seu parceiro ideal,
ele com a sua mulher perfeita:
duas pessoas es-colhidas
para caberem nas suas antigas
e comportadas frases feitas.

*

Marla de Queiroz.


*Poema publicado no Blogo de Sete Cabeças há meses...
*
P.S.: Amores, dia 11 de setembro eu gostaria de relançar uma campanha que começou há uns anos, mas que depois foi perdendo o ibope.
É o seguinte: neste dia, saia de casa com um livro, qualquer um que tenha tido importância na tua vida.Escolha um usado, compre o mesmo no sebo, sei lá, mas escolha um livro interessante, não esses que a gente tem, nunca leu e quer se livrar.Enfim, escreva uma dedicatória pra um desconhecido e abandone em algum ponto da cidade: num ônibus, num banco de praça,num carrinho de supermercado...de preferência num lugar coberto, em caso de chuva.
Faço isso algumas vezes a cada 3 meses e a sensação é deliciosa.Se todos participarem, pode ser que você também encontre um livro por aí, com uma dedicatória misteriosamente sedutora.
Por favor, quem puder, me ajude na divulgação.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Adolescências


Foto: Helder Ribeiro

Ah, eu só queria que Eduardo me olhasse como quando ele examina uma tesoura cega, mas vive entretido com aquele amolador de alicates.Eu escrevi um poema pra ele com tanta ternura: botou ao lado da tesoura afiada antes de ler, o vento levou com pena do coitado.Eu fiquei observando de longe, ele nem percebeu que minhas palavras iam embora.No dia seguinte, levei um pedaço grande de bolo...deu a primeira mordida sem me olhar e disse obrigado com a boca cheia.Pelo que me ensinaram, ele foi mal-educado.Aí, na aula de pintura, tentei derramar cuidadosamente uma imagem, o tema era livre.Quis pintar a voz de Eduardo. Tive que fechar os olhos.Me lambuzei toda de tinta, parecia ele fazendo uma carícia em mim.Pendurei na parede, tava meio confuso, mas tão colorido. (A voz de Eduardo é mais bonita que os olhos, esses vejo pouco, já que quase não me olha, mas a outra é limpa, parecendo um filete de sol atravessando uma música) .Aí fiz questão de perder as minhas chaves pra Eduardo mudar minha fechadura.Tivemos que trocar tudo, minha mãe já desconfiada.Só porque Eduardo é pobre, ela ralhou comigo. Nem ligo, ele é tão bonito e, para mim, é um artista.Mas Eduardo fez todo o serviço apressado, nem aceitou o suco........lembrei do quadro, queria dar de presente, e o elevador já tinha levado Eduardo embora, que nem o vento fez com meu poema.


Gostei tanto de Eduardo que não me olhava nunca, que um dia na escola, o Igor deixou um bilhete dentro do meu caderno.Nunca tinha reparado nele gostando de mim em silêncio, eu parecia uma tesoura cega.Depois eu percebi, que cego mesmo era o Eduardo.

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Marla de Queiroz

quinta-feira, agosto 30, 2007

Dois dedos de prosa


Foto: Pedro Moreira



Tá vendo aquele moço ali, dona? É meu homem.Ninguém tem mais intimidade com o mato que ele.Ninguém tem mais intimidade com o mar que ele.Ninguém passeia em qualquer canto solitário dessa natureza de meu Deus com tanta tranquilidade.Nem parece que foi parido de um ventre, parece que brotou da terra. Depois dessas florestas e de todas essas águas que ele conhece, o lugar que ele mais prefere é meu corpo.Nossa querência é das enormes.Ele com essa cara de bravo, ninguém desconfia, que macho mais doce.Mas eu sei que nessa pele queimada de sol tem mar demais e uma fome escondida entre nossas quatro paredes, entre nossas pedras na cachoeira, entre nossas pausas pra comer o peixe que ele pescou e assou.Eu esperando todo o tempo, cuidando da casa, lavando as vasilhas, um pé apoiado no tornozelo, mania que tenho.Ele sempre chega por trás, tentando não fazer barulho, mas eu sinto antes e finjo que não percebi.Ele gosta de achar que tem o dom dessa surpresa.

Esse moço, dona, já me deu trabalho. Foi difícil domar, cavalo doido solto procurando rapariga pra montar sem sela.Eu tive que quase não perdoar a primeira safadeza dele, se engraçando todo com a branquela azeda da rua da frente. Eu me fiz de besta.Mas depois que ele já tava bem lambuzado do assanhamento, tranquei as coisas dele do lado de fora da casa pra nunca mais abrir a porta. Deixei chorar, levar banana da terra pra mim, joguei tudo pros cachorros. Joguei fora até as presilhas que eu queria tanto e ele me deu pra eu usar nas festas. Eu tava machucada, dona, tava atarantada demais com aquela traição.

Pois aquele moço teve que chorar na minha porta, tava embebedado, é fato, mas parecia menino maltrapilho, cinco dias pelos bares, nem na casa do amigo ele não voltava mais.Banho só de mar.E a mesma roupa encardida das andanças.Rondando minha casa, chamando meu nome, dizendo palavras de amor, todo arrependido. Deixei ele sofrer mais de duas luas inteiras, porque eu gostava dele,dona, mas meu coração, quando ouvia aquele choramingar arrependido na minha janela, sentia era uma sapituca de raiva que eu me contorcia toda pra não jogar a água fervida do banho todinha nele.Quase costurei o nome da azeda que ele se engraçou na boca de um sapo, mas depois tive um esclarecimento na minha razão: que mal não se faz nem se deseja pra ninguém_ volta em dobro, já me dizia meu avô, Deus o tenha.

Foi que um dia, no forró lá no galpão de palha de seu Benevides, eu tava toda enfeitada na minha sede de vingança de fazer o mesmo, na frente dele, da cidade inteira. Pra magoar bem pisado aquele coração sem jeito. E teve uma hora, tocou aquela música de quando a gente namorou pela primeira vez. Aí me alembrei dele cantando pra mim, cara de menino levado,falando que eu era a morena mais bonita da festa, eu toda acreditada. Mas a lábia dele já era famosa, dona. A mulherada toda se enfileirava pra ser a próxima das aventuras.E foi aí que eu ia aproveitar pra dançar com aquele João Alves, da loja de ferramentas, que já me queria desde muito tempo.E vi meu homem, pensei que ia puxar briga, mas não: ele me olhou com uma tristeza, uma tristeza tão escura. Nunca vi um olhar tão adoecido, tão lamentoso.Parecendo que o mar inteiro sangrava.Só dele imaginar que eu ia me abraçar com o João naquela música que era tão nossa, dava pra ver o peito dele se arrebentando por dentro naquela olhada firme que ele me deu. Tive pena, não, dona.Tive foi o meu amor voltando, eu querendo cuidar pra ele nunca mais me olhar assim.Daquela dor que eu vi nele, nem gosto de alembrar.

Pois esse homem é tão meu agora, dona, que até enjoa, às vezes.Faz de tudo e mais um pouco pra eu não brigar de jeito nenhum.Até me ajuda com as coisas de casa. Eu já tive só mais um namorado, que foi antes dele.Um violeiro que me encantou pela voz, quando a gente acendia as fogueiras e ele era o centro das atenções cantando as canções sertanejas que eu mais gostava.Mas me entregar mesmo, de não resistir a essas fomes da carne, foi só com meu homem.Que até hoje ele ciúma desse meu primeiro. Disse que vai aprender a tocar violão pro outro não ter qualidade nenhuma que ele não tenha.Eu fico é rindo dessas bestagens.Mas no fundo eu gosto dele achar que nunca vai me conquistar direito, por inteiro, senão a coisa vai ficando abandonada, sabe, dona?Olha ele vindo aí, todo faceiro...deixa eu me aprumar, dona...Tenho que me ajeitar. Hoje é noite de lua cheia em nossa casa...
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Marla de Queiroz

sábado, agosto 25, 2007

A primeira versão_ a da autora

Foto: Mar de Sonhos

Eu omiti que ia publicar um livro com a nossa história real. Foi de pirraça e de amor não correspondido que eu escrevi aquilo tudo. Mas saiba, eu cuidava pro meu coração não acreditar naquela raiva, você sabe, eu não sinto assim, eu não sou assim. Eu só consegui, mesmo com meu coração tão apertado, falar do amor do jeito que a gente acreditou um dia nas primeiras frases. Depois tive que escolher cada uma daquelas palavras ácidas porque não podia levar teu personagem pra guilhotina_ o protagonista não pode morrer no meio da trama. Mas eu não sabia mais o que fazer com você, eu queria desistir do teu personagem porque me doía inteira ele sendo. Escrevi desgostosa tuas desventuras, entenda, eu era a narradora onisciente, eu era deus naquela ocasião e você havia me magoado tanto na página 143.Pode parecer loucura, mas não fui eu quem escolheu você me abandonar naquele café metido à besta, nunca tomei um café que custasse tão caro só pra chorar depois em meio àquela gente cheia de pose. Não podia ser num cenário mais mal-composto. Como autora, eu pensei que pudesse ser a mulher mais incrível do livro, a mais sedutora.Mas parece que teu personagem foi me dominando, querendo me magoar em público.E, quando eu achava que tinha todo o controle da situação, você me surpreendeu no final do capítulo cinco, querendo enfiar tua vida numa mochila e ganhar o mundo fora das minhas páginas. Você querendo todas as mulheres que poderiam ter sido minhas amigas. Desculpa eu ter sentido tanta raiva, mas as pessoas vivem essas coisas, até as mais espiritualizadas.Eu tive muita raiva de ser a narradora de uma história que eu não controlava mais. Você podia ter me poupado da sua autonomia, mas saiu, no meio do parágrafo, atravessando as ruas, saltando minhas vírgulas, tropeçando minhas aspas, desrespeitando meus parênteses. Eu tinha escrito uma cena na praia, no finalzinho da tarde, essas coisas que englobam uma lua inédita e cadernos espalhados em cima de uma canga colorida enquanto o casal toma um banho de mar num clima romântico.Mas a sua rebeldia me fez correr atrás de você e discutir a relação num capítulo inteiro, em cima daquela faixa de pedestre, tentando arrancar tua mochila enquanto os motoristas buzinavam furiosos por causa da baixaria debaixo do sinal vermelho-verde.Você bagunçou todo o meu roteiro.Foi por isso que dificultei a tua vida e te dei mais defeitos que charme.Eu queria ferir tua vaidade usando teu nome e sobrenome verdadeiros para que não houvesse dúvidas de que era sobre você que eu estava falando.E soterrei todas as suas qualidades naquele bloco de texto.Foi por isso que meu final feliz incluiu um casamento com um diplomata que não era você, no mesmo dia em que te fiz perder o avião pra Londres.

Eu omiti que ia publicar um livro com a nossa história real porque eu não queria que você descobrisse, antes da primeira edição esgotada, que a tua crueldade ia me render um best-seller.
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(continua...)
Marla de Queiroz

segunda-feira, agosto 20, 2007

O Inusitado


Foto: Maria Flores
E lá estava ele naquela noite, na mesma festa, encostado na espera de alguém, de alguma coisa.Não havíamos combinado aquele encontro, portanto, eu seria o inusitado.E lá estava ele, sem saber o que fazer com as mãos desde que parou de fumar.Parecia nem notar que todos se divertiam, os olhos baixos sem observar.Não pude identificar se sua expressão era de indiferença ou tristeza, talvez nostalgia de qualquer época em que sentia mais disposição pras coisas mundanas.Era ele ali, deslocado, encostado na insistência de querer ser o que já não era.De qualquer forma, estava ali, no canto, disponível e mortal. E eu que não tinha mais qualquer apego àquela história, poderia surgir como uma breve alegria, dessas que passam a noite em claro com alguém só pra dar um fôlego novo pra retomada da realidade.
(Sei que observei tanto, que alguma coisa trouxe o olhar dele pra mim. Sorri, ele também).

E lá estávamos nós, na mesma casa: tantas palavras derramadas nos ouvidos, na língua. Os dedos dele escutando meus seios taquicardíacos.E ele sabendo o que fazer com as mãos desde que parou de fumar. Os olhos firmes, dentro dos meus. Era ele sendo o que estava, alguém disponível e mortal.Pude identificar a expressão de desejo. Meus quadris encaixados em suas coxas, escalando seu corpo lentamente, adiando o ápice, fazendo suspenses tolos. E lá estávamos nós: dedos e línguas, sonhos e poros, sussurros e supiros, suor e saudade, pulsação em todas as partes. Então, finalmente, o ápice. E o vinho que estava na taça e depois no umbigo,agora no sofá.Uma mancha que arrancaria um risinho cúmplice e safado quando fosse notada no dia seguinte depois que a alegria já tivesse ido embora...

E lá estava eu: “a alegria” virando a esquina num dia de tanto sol.
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Marla de Queiroz


quarta-feira, agosto 15, 2007

Flores de Inverno, em verso.



O sol se pôs dentro dos nossos copos de cerveja.Espalhados sobre o mar, os últimos raios dourados: líquidos, dançantes...o resto da água cor de chumbo, mercúrio de termômetro como quando a gente era criança e estava febril.E eu o vejo tão bonito agora, com a saudade engatilhada no fundo dos olhos pra sentir quando eu deixar pra trás nenhuma promessa.
(Poderíamos falar por horas sobre tudo que nos atraiu, mas nosso silêncio sorria).
O céu azul,o vento frio, flores de inverno.Ele me agasalhou num abraço.
(Não fomos feitos um para o outro, é fato, mas talvez valha a pena nos refazermos).
Tudo que sabemos sobre nós foi descoberto pelos nossos corpos.
(Às vezes, o que parece ser uma superficialidade tem belezas honestas e profundas que escapariam em longas conversas inúteis e bem articuladas).
Eu sei que quando ele me toca, minhas retinas se enchem de saliva. Como quando uma boca quer.
E dizer é tão pouco perto de.

( E esse prazer que, de tão imenso, consegue doer em mim. Porque vai além de todas as expectativas do meu desejo que já era grande: o corpo não agüenta certas surpresas quando ele está tão cansado de não ter nenhuma ...Inda bem que a gente se adapta a tudo, em Búzios...;-)

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Marla de Queiroz

quinta-feira, agosto 09, 2007

Diâmetro

Foto: Luiz Carlos de Carvalho

Volta logo, meu amor!
Eu só escrevo por não saber o que fazer com as mãos
quando o nosso abraço termina.
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Marla de Queiroz

sexta-feira, agosto 03, 2007

Depois da tempestade


Foto: Rafaela

Talvez ele não saiba que aquela dor que ele causou, calou os olhos dela violentamente por uns tempos.Isso não é crime, é carma: magoar alguém assim, dentro do melhor vestido, remover com lágrimas o rímel cuidadosamente passado, deixar tão descrente alguém que achava a vida mágica...

Talvez ele nem desconfie que quando ele disse eu vou embora e ela tudo bem, logo que se deram as costas, ela respirou fundo uma, duas, três vezes, colocou quatro gotas de floral de Bach embaixo da língua e se afundou na tristeza escutando Killing Me Softly da Roberta Flack e Como Vai Você? do Roberto Carlos.E que passou sete dias lendo Nietzsche revoltada com o “último homem” e discordando do “Pequeno Príncipe” de Exupéry. Entendeu perfeitamente o I CHING quando disse que não era favorável atravessar a grande água e foi dormir sem sono, meditando cura e mantrando plenitude nas caminhadas matinais que só fazia se houvesse chuva. (Mas tentou suicídio comendo o último pedaço de pizza de calabresa esquecida, desde aquele dia, dentro do forno apagado...Porque morrer de amor seria um exagero).

Talvez ele nem imagine que ela parou de sair com os amigos pra beber vinho em casa escondido, no café-da-manhã. E escreveu vinte e nove cartas sobre a raiva e nunca enviou porque era moça espiritualista e tinha que manter o discurso saudável do “isto também passará”.(Não mandou, mas depois da segunda garrafa de vinho às três da tarde, foi por um triz).

Talvez ele nunca saiba que ela mudou os móveis de lugar, mandou queimar o colchão que já conhecia tanto o peso dos dois, e deu pro morador de rua o edredom que testemunhara tantos abraços noturnos.Dormiu no chão, quis mudar de religião, leu Lacan e criticou Freud pelo seu processo lento e generalizador.Pensou em mudar de curso, de profissão, de cidade.Quis mudar de si, já que seu corpo era a casa de um só sentimento.Fez uma viagem, não quis conhecer ninguém, posou de antipática porque estava apática.Se escondeu da lua cheia, fez do seu quarto um campo de concentração e depois se mudou para sala.Trancou todas as portas pra não entrar qualquer ilusão.Por tanto tempo era ela e sua tristeza intransitiva.

O que ele também não sabe porque nem ela sabia, é que um dia ela acordaria assim, vazia daquele amor.A dor exaustiva de cabeceira havia cessado, deixada no fundo do poço.Parou de se alimentar daquela porção individual de desilusão e enterrou o passado num túmulo desconhecido, para que não houvesse a menor possibilidade de revisitá-lo.


(Ele quase soube disto quando pensou que ainda estava recente para ensaiar uma recaída,um flashback. Mas para ela, que só soube na hora do reencontro tão almejado,já era tarde.)

Havia criado um mantra: No momento em que me dei inteira, ele me deu as costas.Isso não pode continuar supervalorizando uma saudade.Ser uma mulher curada de um amor, dependendo das circunstâncias, pode ser melhor que ser uma mulher amada...por ele.

E o seu melhor vestido pedia uma nova chance e um rímel à prova dágua.



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Marla de Queiroz




terça-feira, julho 31, 2007

Celebração

Foto: Bruno Antão


E mesmo que o dia raie
(arraia desatada pelo rio vertical)
numa correnteza líquida de frio,
onde aja qualquer dor vai desaguar um choro:
levando mágoas, lavando estradas,
iluminando a nova estada,
trazendo um jeito de estar feliz
e na-morada.

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Marla de Queiroz

sábado, julho 28, 2007

Somente

Foto: Catarina Cruz

Não percebia quando o desconforto era emocional: era o estômago que doía, a boca que secava, eram as mãos frias.Não era raiva, não era angústia, não era medo.Para ela era físico, nunca o emotivo. Dizia “adeus”, assim, como quem dispensa a sobremesa pra tomar um chope.Dizia “sim” ou “não” como quem escolhe a cor do esmalte.
Um dia, quando bateu o vazio, elaborou rapidamente uma saudade. Mas não sabia de quem, de onde, do quê. Não precisava. Era ela e a saudade de qualquer coisa que ela trocou por um chope, de qualquer noite que ela substituiu por uma tarde, de qualquer emoção que ela nem se lembrava mais. Mas que trazia uma certa languidez pro olhar e uma tensão pra expressão facial que ela pretendia.
Só pra valorizar a maquiagem mesmo.

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Marla de Queiroz


segunda-feira, julho 23, 2007

Clave de Sol-riso



Foto: Rosalina Afonso


As mãos dele, sinfonia, música clássica urdida por ímpetos de tempestades.
Mãos anárquicas regendo suspiros: atrevimento de dedos.
(Ravel, o bolero_ partitura de ofegâncias).

As mãos dele, maestria, afinadas
arriscam-se pelas trilhas do meu corpo,as mais sonoras.
Delicadas, me calam os dramas fazendo do toque argumento fatal.
Eloqüentes, proliferam os enigmas da não-resistência.

Enquanto eu, hesitante, tento costurar melodias em nuvens
com a minha poesia,
ele, astuto, arrebenta o sol com as mãos,
solfejando melodias-brisas,
usando apenas o violão.

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Marla de Queiroz



quinta-feira, julho 19, 2007

Uma paisagem


Foto: CAV


No mirante do Leme um silêncio espreita a menina com o grito guardado nos olhos.À espera de trovões, nuvens se aninham ao norte, escuras e solidárias. O oceano berra a impossibilidade do mergulho, mas surfistas confiam na maternidade das águas. (Há tempos o sol deslizou pelas costas do morro e mordeu a isca do mar, feito peixe ingênuo).A areia sem pegadas, dia anoitecido, ventania arrastando histórias e páginas de algum livro. E uma solidão tão exata.
O poeta dispensa a caneta pra contemplar. E, como quem se ilumina por uma alegria secreta e sem barulho, levanta da pedra e, súbito, segue à procura do Tempo que se desinteressou pelas horas.
(Agora, só um caderno abandonado completa a paisagem).

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Marla de Queiroz
P.S.: Confiram essa BONITEZA!

quarta-feira, julho 18, 2007

Luto

Foto:José Gama




Faz um mês e meio que perdi a minha irmã Inês. Eu estava em processo de recuperação, não quis passar isto nos meus textos porque a morte sempre me falou de vida. Da vida que tenho, que preciso viver com integridade, com totalidade. E cuido pra não machucar minha poesia, sei da responsabilidade que tem quem escreve e publica.Mas hoje eu perdi um dos meus melhores amigos, o Dani Boy. E a dor que sinto é absurda.A respiração fica massacrada pela mão do luto. O sofrimento se materializa no corpo causando um desconforto físico. A alma fica estilhaçada, tentando reunir forças pra amparar o corpo.O descompasso das lágrimas, o grito pelo alívio. E nada cura, nada resolve, nada ampara. Nada me faz acreditar nessa perda.Ele tinha a minha idade e seu coração parou. Simplesmente parou de bater. Coisas de gente que vive com muita intensidade.Mas ao contrário de achar que a vida é injusta, isso me dá pressa de viver.Uma pressa tremenda de ser mais feliz, de desenvolver o meu potencial amoroso,de publicar meu livro, de perdoar e pedir perdão. Uma pressa tão grande de ser uma pessoa melhor.E de viver com tanta honestidade.

Nem sei se deveria compartilhar isso com vocês.Mas os que me acompanham a tanto tempo, sabem que a vida não é feita só de nascimentos.Sei que o Dani cumpriu sua missão lindamente e que já está sendo orientado e preparado pro seu grande processo de evolução espiritual pelos Guias de Luz. Peço a Deus que me dê sabedoria para desapegar-me da saudade que sinto e que sentirei sempre. Para que eu não seja egoísta querendo-o no meu cotidiano presente e ativo como sempre foi. Que eu saiba simplesmente agradecer ao fato de ter podido conviver intensamente com um passarinho tão livre e leve. Meu amigo mais fanfarrão, a companhia mais deliciosa e generosa.

Um dia escrevi um depoimento pra ele no orkut, logo no início da nossa amizade. Fica aqui minha despedida.
E que venha a vida com todas as suas polaridades e maiores belezas.


Dani Boy é a intensidade materializada. As histórias dele são fantásticas e ele é todo hiperbólico para enfatizá-las. Lindo, engraçado, e um boêmio em toda a acepção da palavra. O álcool selou nossa inimizade. É o único com quem me arrisco a beber na segunda-feira pra ficar com raiva dele no dia seguinte. E a gente tenta fazer as pazes a semana inteira bebendo cerveja no Léo. Dani Boy conhece tudo do Chico Buarque e não tem inibição nenhuma em cantar um samba todo desafinado...Ele é leonino. E joga capoeira sem se alongar depois de tomar todas. E dá tanto valor à amizade que faz cada um se sentir o mais especial do planeta. Dani Boy é o fanfarrão mais carinhoso e divertido que conheço. E faz a posição da rã como ninguém...hehehehe...Ele é um folgado, mas meu melhor companheiro. E, pensando bem, com um inimigo desses, quem precisa de amigos?


Eu preciso entender que o sol se põe, às vezes, no auge de um dia de praia. E que nada detém a noite. Perder alguém muito querido, é como perder o controle de todas as situações. A gente sempre acha que poderia ter tomado mais um chope junto, que poderia ter estado mais presente, que poderia ter feito algo mais incrível. Mas a gente se esquece é da fragilidade das coisas e de que alguém cheio de vida jamais vai inspirar a morte. A gente não tem como saber qual será a perda ou a vitória dos próximos dias.
É preciso seguir, confiante de que a escolha que fizemos é a melhor. E que a incerteza é o que nos impulsiona ainda, mesmo que cause tanto desconforto.

Me perdoem o desabafo, é que uma sucessão de perdas é muito pesado mesmo e sempre usei a palavra como uma das fontes de salvação e amparo. Não se impressionem com nada...isso faz parte da vida e quero acreditar que nem é a parte mais importante.
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Marla de Queiroz

quinta-feira, julho 12, 2007

Sobre meninas

Foto: sweetcharade


Meninas passeiam seus vestidos de mãos dadas. Despertam curiosidades nos olhares salivantes dos moços viris e das boquiabertas senhorinhas. Bailarinas da sedução, borboleteiam imaginações alheias porque desabitaram as convenções do amor público pra se libertarem da camisa-de-força com etiqueta.

Meninas são líquidas de águas temperadas. Ultrapassaram os epílogos do prazer pra mergulhar na emergência do ardor com afeto.E, delicadas na carícia sem ingenuidade, confundem-se no abraço das pernas enveredadas pela malícia da fome.E, na dança dessas deusas líricas,o roçar de seios e o beijo de todos os lábios.
Meninas passeiam por aí, lúdicas, exalando o feromônio doce do segredo.

(E vagueiam pelo lume sem fardos... porque são fadas.)
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Marla de Queiroz

sábado, julho 07, 2007

Um Par

Foto: Ana Meireles


Parecendo que o dia principiava uma ponta de nostalgia, mas já era um outro alguém chegando. A voz não tava clara, pressentimentos são confusos como violão que desconhece a melodia. Era como se precisasse elaborar antes de tudo, o sentimento que ela ia trazer, aquela voz.Então, ela determinou com a convicção de alguém que quer parar de beber, de sofrer, de fumar, de comer carne ou de qualquer coisa que incomode de algum jeito, que seria apenas saudável e recíproco.Tava cansada dos olhos afogados na ausência de um perfume ou de uma espécie de lirismo estúpido, como sempre.(Percebeu o final do sufoco na mudança do foco). O que o dia queria dela, trazendo as cores do olhar do passado? Não queria mais aquilo.Tava cansada.Ficou lembrando cenas que nem quis contar porque deu raiva. Que se assim o fim, melhor que assim o fosse.Mas sabia mesmo é que o verde que viria, reflorestaria aqueles olhos de imensas esperanças.Achou boa a sensação que a imagem trouxe e guardou num gesto: fez um movimento de mãos no ar e trouxe pro peito.Sorriu e calou. (E os olhos permeados do mistério bom).

Subitamente, a sensação de chegada de um outro alguém já era presença.Foi custoso pra ela entender o que uma pessoa podia trazer de novidade e poesia só por sorrir daquele jeito de quem se entrega à risada. Tinha bonitezas demais naquele interesse dele: arregalava o corpo pra ouvir a frase que ela dizia, sem precisar escolher o tema_ era só elogiar o céu ou o mar, ou a cor dos dois.

(E, na soberania dessa simplicidade, a coisa toda se deu.)

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Marla de Queiroz

domingo, julho 01, 2007

Manual de Instruções

Foto: Pedro Gomes
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Pode chegar mais perto e se aconchegar no meu colo.Vou escolher palavras-sussurro porque quando quero me fazer ouvir eu falo tão baixo:
Se for pra ser breve, que seja plenamente breve_ esse furacão que desacata a sensação de eternidade. Mas se for pra ser eterno, que seja ele mesmo, na carícia dos olhares que se demoram em silêncio pra dizer mais.Eu não temo nem dor, nem amor_ eu entro no barco e vou rio abaixo sem salva-vidas. Se a canoa virar, aprendo a nadar ou me afogo_eu sofro de excesso de fôlego.Por isso, não tema minha poesia: onde está minha força é também onde exponho minhas fraturas. (Palavra é moça cortejada demais e não admite desdém, quando ela flerta comigo, me entrego).Têm textos que causam febres, desenterram mágoas, reforçam a prisão na lembrança da história finda. Mas se eu propuser uma melodia mais doce, eles podem trazer pra perto da escrita a emoção indefinida e alfabetizar dores que ignoram curas, ensinar metáforas que dissolvem agonias, plantar um pouco de tolerância onde a raiva devastou.(Têm também textos que não dizem nada, que só conseguem macular o branco da página).

Eu sei que o que aprendi com a vida eu descobri que sabia ao escrever.
(Isso não deveria assustar pelo que tem de sagrado.)
Por favor, não tema minha poesia:
eu, definitivamente, não nasci pra me divertir
com a pessoa errada.
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Marla de Queiroz

terça-feira, junho 26, 2007

Poesia catada num sebo



Encontrou nas prateleiras de um sebo, pilhas de livros
com suas histórias despejadas nas dedicatórias.
Fragmentos de amores amarelecidos, vestiam palavras sem data:

Num Milan Kundera,
(um guardanapo e uma flor esmagada entre as páginas:)
“ A Insustentável Leveza do Ser”...só o título.

Num Manoel de Barros:
“Que teus-olhos-meus percorram estas páginas
ressarcidos das linhas que foram roubadas
pelos caminhos que os cupins traçaram.
E que te fizeram chorar feito menina,
com a cabeça apoiada entre as mãos,
antes de nos amarmos pela primeira vez.”

Num Jorge Luis Borges:
“ Uma lembrança discreta
(literária)
de noites que,
(amiúde)
entre farrapos de sono,
perdemos nossos corpos
nas cores de um mapa mundi.
Com carinho.
P.”

Numa Clarice Lispector:
“ Desfaço-me de tua musa,
porque os mistérios de Clarice
foram feitos pra tua curiosidade.
Sei que passeará teus olhos atentos
em cada grito abafado dessa mulher,
e que cada grifo teu trará pros nossos dias,
reflexões lindas e intermináveis.
Em tuas mãos agora:
meu livro dela,
meu amor teu."

Num Caio Fernando Abreu:
“Que te faça companhia nas noites
em que estarei ausente.
(Já sinto ciúmes dele)
Saudade já se faz presença.
Te amo (com erro sintático).
Volto logo.”

Num Guimarães Rosa:
“ Você é minha Diadorim.
Trouxe de longe pra ti
o sertão que nos fez amantes,
a literatura que nos aproximou tão de imediato.
Sou grato para sempre ao Rosa.”

Numa Hilda Hilst:
“ Tua poesia e a dela são casadas.
Me apaixonei pelas duas.”

Num Herman Hesse:
“ Por tuas febres, por tua fome de mais vida,
por tudo que dói em você pleno de existência
e pela beleza que bota nas coisas através das palavras.
(Sei que esse cara é meu rival, mas faça bom proveito.)”

Num Gabriel Garcia Márquez:
"Cem Anos de Solidão...uma declaração de amor às avessas..."

No livro de uma autora contemporânea desconhecida:
“Para o homem que me ensinou a escrever ( e viver) romances
quando eu só sabia tecer dramas."
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Marla de Queiroz
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P.S.:
Esse post nasceu de uma situação que vivi. Estava voltando pra casa a pé e, como é de praxe, entro em todos os sebos que encontro pelo caminho e fico algum tempo fuçando livros...sou viciada naquele cheiro doce das páginas velhas.Em um deles, com um título que dizia algo sobre histórias de amor entre meninas, li uma dedicatória de uma moça tão apaixonada por outra, tão delicada, tão cheia de segredos íntimos de alguém entregue a uma história recém-descoberta e, pelo que parecia, recíproca, que fiquei pensando naquele livro ali, vendido pra um sebo com tanto amor pulsando vivo naquelas palavras adolescentes.Lembrei dos livros que ganhei, das dedicatórias que me escreveram, das coisas lindas que posso relembrar toda vez que os revisito. Fiquei pensando no desapego de quem se desfaz assim, não só de um livro, mas de uma história.Porque têm dedicatórias que compensam a leitura das páginas que nem sempre tocam fundo.
Esse texto nasceu do que posso imaginar quando pago por algum livro num sebo e trago pra casa uma dedicatória alheia.E, apesar do meu apego às minhas dedicatórias, já me conformei com a perda de vários livros que emprestei, porque ainda acredito que são eles quem procuram seus donos.

quinta-feira, junho 21, 2007

Da chegada do inverno

Foto: Ana Meireles
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Manhã de outono, tarde de inverno:
duas estações repartem ao meio o dia.
O fôlego renovado do vento faz dançar folhas órfãs.
A força retocada do frio faz tremer nuas árvores.

Enquanto a noite suspira neblinas,
estrelas pendem de cansaço e sono.

Antecipados poentes romanceiam encontros,
e o sol seduz uma lua encabulada:
_De-cifra-me que eu te melodio...
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Marla de Queiroz
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Tem poema meu no MANUFATURA

quarta-feira, junho 13, 2007

Sobre o amor

Foto: Maria Flores
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Amar você é ter vontade de ir a lugares que não conheço e me expor de um jeito que me ilumina. É transgredir a ordem das coisas, transmutar medos antigos e cantarolar canções novas.Amar você é passear por entre haicais, sonetos e trovas.

Amar você é descobrir que alguns mergulhos são desnecessários, que algumas coisas existem para se conhecer só na superfície, dispensando dicionários, porque elas são simplesmente aquela estrada rasa feita pra se caminhar por cima e a esmo.É eu saber teu colo e você a minha mão quente. É esse nosso afago relembrar a euforia das paixões adolescentes. É poder ouvir exatamente o que foi dito sem procurar uma mensagem oculta, uma palavra mágica dissolvida no contexto ou outros indícios. É respeitar tuas vontades, tua inconstância, tuas dificuldades. É saber que uma meia-verdade pode ser a verdade mais sincera de cada um...

Amar você é também mergulhar nos meus textos, e ficar submersa observando as coisas por dentro porque a densidade delas é o essencial, é o meu centro. É entender tuas limitações porque me olho e vejo as minhas, é conceber minhas mudanças porque também vejo as tuas. É não deixar que nada corrompa nossas essências, porque nos queremos melhorar para o mundo, porque queremos embelezar nosso universo, porque queremos ser além das aparências. É saber que cada passo que dou será na direção que escolhi e que só terei o conforto da sua companhia se, por acaso, quiser seguir o mesmo rumo. Porque somos unos, múltiplos, imensos, nunca os mesmos, sempre os únicos, os mais intensos.
É encontrar leveza nas emoções que nos transbordaram porque estávamos prontos. É escrever um dicionário de palavras distraídas. E adentrar o corpo de um poema recente, ainda disforme. É falar de amor usando a metáfora mais inocente. É também experimentar a simplicidade com que tudo pode ser vivido, até àquela hora em que o desejo dorme. É vir à tona e, sem sustos, te deixar ser e me vir refletida, pedra bruta antes de ser polida, até a hora da próxima fome.
Amar você é amar aquilo que, de outra forma, jamais faria sentido: é abraçar teu passado, teus traumas, teus vazios, tuas confusões e angústias existenciais como quem abraça a um amigo.
É agradecer profundamente, ao acordar, por esta pessoa inteira, que jamais será uma metade e que me escolheu para a soma, e que com todas as alternativas que teve, preferiu seguir comigo.
(Amar você me fortalece.)
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Marla de Queiroz

domingo, junho 10, 2007

Sobre a perda

Foto: Paulo Medeiros


Eu te prometo que um dia, o mundo vai amanhecer sem violência, pura poesia...e que vários passarinhos vão acalentar tua alma angustiada. Um dia a vida vai ser tão suportável que você vai achar bom abrir os olhos pela manhã. (A minha poesia anda muito machucada pela sua ausência.Ainda não sei quantos colos serão necessários pra reparar a perda de uma pessoa inteira. Você, que se lançou aos céus acreditando que poderia voar com suas asinhas de vidro, minha menina ingênua, perdoe a inutilidade do meu abraço atrasado).

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Marla de Queiroz

domingo, junho 03, 2007

Nú ar-dor


Foto: Maria Flores
Ainda arde na memória
a gérbera vermelho-língua:
germinando versos orgásticos,
desabrochando paixões,
e consumindo corpos
num mar de fogo.

Brisa de brasas
espalhando incêndios
pelas peles, pêlos, púbis.

Carnes exauridas pela febre,
fremem.
Pólvora.
Explosão.
Ruptura.
Cacos, caos e fim.

(Passos ágeis tropeçam agora
em pétalas de suor, sal e sangue.)


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Marla de Queiroz

sábado, junho 02, 2007

Mal-me-quis


Foto: Ivone Peoples
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Lágrimas:
pétalas de água e sal.

Pranto:
flor de mar
(no olhar.)
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Marla de Queiroz

terça-feira, maio 29, 2007

TALVEZ...ou repensando a minha vida*

Foto: Thiago Soares


Talvez a verdadeira intimidade eu só tenha buscado com as palavras, e tenha me entupido delas no momento em que poderia estar aprendendo alguma coisa com alguém. (Faço um muro de palavras entre mim e as pessoas. Sou autoexplicativa só pra confundir.)


Talvez eu tenha nascido para uma vida desapaixonada e culta. Talvez eu nunca tenha olhado verdadeiramente o outro, e só tenha visto o texto pronto que criei pra ele. Talvez eu não conheça o que julgava conhecer. E isso me entupiu de certezas que eu não soube abandonar ao longo do caminho.


Uso palavras para não sofrer, para plagiar uma dor, pra fingir que sou leve e que está tudo bem. Uso palavras pra falar de uma chuva que talvez eu não conheça porque não me permiti ficar encharcada dela. E ela virou a metáfora de um relacionamento_ o que pode ser tristemente poético.


Talvez eu só tenha sentido saudade pra falar de outras coisas. Pra usar a palavra "saudade" mesmo, que eu adoro. Acho que estou muito cansada. Falei demais das coisas e , no entanto, não toquei verdadeiramente em nada. Observei e descrevi, cheia de filtros semânticos. Dentro da minha limitação eu interpretei o Universo para que eu coubesse nele, em mim. E alienei as pessoas dentro de conceitos. E arranjei um sentimento pra cada coisa. E pensei que assim, tudo estaria em ordem, sob controle.Eu que me julgava não julgadora, me considerava livre, agora tendo que empurrar as grades dessa prisão de certezas que criei pra mim. Sem poder culpar ninguém. Usando um discurso de alguém que não quer magoar o outro pra descobrir que no fundo só me importei comigo mesma e com os meus medos. Não deixei que o outro experimentasse o que havia de melhor ou de pior em mim. Não deixei que ele escolhesse.Mantive o muro de palavras e o meu discurso pronto pra continuar a salvo do outro lado. Eu que sempre falei de pontes...


Talvez eu seja uma farsa. Talvez eu seja virtualmente inacessível. Alguém que se entope de adjetivos pra entender as coisas e dizer que não se preocupa em entender nada. Eu que sempre falei de amor, não amei o outro em toda a dimensão da pessoa que ele é. Talvez eu tenha me preocupado mais com as vírgulas que não usei nas cartas de amor que escrevi, que com as pessoas que as receberam e que se julgaram amadas.


Talvez eu só tenha dançado pra fingir que gostava de música. Talvez eu só tenha bebido pra fazer parte de um círculo social. Talvez eu só tenha aceitado certas coisas pra poder ser chamada de amiga_ e usei levianamente a palavra amizade.Talvez eu tenha me apaixonado diversas vezes pra fazer parte do círculo de pessoas que sorriem diferente porque estão amando_ e sofri as carências que intercalam as paixões como se fossem reais. Talvez eu tenha rompido relações pra escrever cartas de despedida e mostrar como eu dominava a dor ao escrevê-las. Talvez eu só tenha experimentado as relações dentro da literatura.


Acho que estou realmente cansada. Falei demais sobre tudo e continuo no escuro. E a minha recusa em tocar nas coisas me impede de sair tateando em direção à luz. E mais uma vez eu uso palavras pra tentar me defender de algo, de mim.(Talvez eu precise parar de ler Clarice Lispector... )


Talvez eu devesse escrever uma carta em branco pra dizer que quero silenciar: que se o silêncio ainda estiver esperando por mim, eu aceito. Preciso esquecer as palavras, preciso me despedir delas para começar a experimentar a vida com honestidade. Talvez silenciando eu consiga ser mais honesta com você. Eu que precisei escrever tanto pra dizer isto: que preciso silenciar.


(Talvez eu só tenha escrito isso tudo pra conseguir chorar... E usar a palavra "talvez" pode ser o início do abandono de tantas certezas; o início do uso mais corriqueiro da frase “eu não sei".)


Talvez isso seja um começo de alguma coisa.

Talvez isso seja um fim.

Talvez sejam apenas hormônios...

Mas isso tudo se parece muito com tristeza...

EU NÃO SEI.

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EU SOU ESTAS RETICÊNCIAS ENTRE PARÊNTESES: (...)

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Marla de Queiroz

*Texto republicado

domingo, maio 27, 2007

Vislumbrando complementos


Foto:Pedro Gomes


Palavras compõem bilhetes, cartas, textos...citações que confessam antíteses.Músicas compõem reticências.Aspas comportam parágrafos. Trechos em itálico, lirismo.Parênteses de livros,citações.Violinos confessam saudades.Sentimento amarrotado habita pessoa.Um ponto final ou uma vírgula. Você quem sabe, poesia. Interrogação?
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Marla de Queiroz

sexta-feira, maio 25, 2007

Vislumbres

Tanto tempo engasgada com o próprio silêncio que necessitou procurar palavras. Poderia escrever um bilhete, caso nascesse a primeira frase. Quem sabe, uma carta. Ou algum texto longo, cheio de vírgulas, reticências e coisas bem ditas, até o ponto final. Sem parágrafos. Um bloco de confissões com muitas antíteses pra descartar as obviedades. E o que estivesse mais à flor da pele, colocaria entre parênteses pra não parecer dramática. Talvez aproveitasse pra usar aspas, intercalando trechos de músicas que tivessem relação com o momento. Pensando bem, preferiria o itálico: porque as letras ficam deitadas umas sobre as outras, bem mais romântico. Se revisitasse alguns livros, poderia aproveitar também uma daquelas citações. E, se as palavras se entrelaçassem coesas, poderia até ser profunda. E lírica.

(Foi o que pensou enquanto esticava o vestido no corpo como quem desamarrota um sentimento.Porque a saudade que sentia não era a mesma: dessa vez, vinha com um solo de violinos ao fundo.
E doía tanto mais).

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Marla de Queiroz

segunda-feira, maio 21, 2007

Visita clandestina



Foto: João Lourenço


Eu passeio por tua estrada quando você não está, porque não quero mais vê-lo ou tocá-lo.Eu passeio por tua casa quando você não está,mas não vasculho tuas gavetas, teus segredos, a intimidade repousada no silêncio dos teus bolsos, dos armários: contemplo os móveis, os livros, os discos e tudo o que está exposto__só quero a experiência. Eu passeio por tuas coisas quando você não está, pra aprender com tua casa, tua estrada e o teu mundo a suportar a tua ausência.


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Marla de Queiroz
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P.S.: Hoje tem poema meu no Manufatura.

quarta-feira, maio 16, 2007

Sobre resgates

Foto: Rafael Soledade Matos


Não aprendi a empinar pipas, mas a empilhar frases. E tive que me familiarizar com desmoronamentos. Por isso, procuro palavras regeneradas que façam algum traço de cor no céu. Eu não aprendi a desenhar fatos novos, mas a restaurar letras encontradas em entulhos e paisagens adoecidas pelo tempo. Às vezes, entre os destroços, eu descubro paradoxos como um mar de águas-vivas mortas. Às vezes, entre os escombros, eu recupero uma alegria virando pelo avesso a tristeza empoeirada. Um dia, eu reconstruí um poema apenas com os detritos de uma flor. E ressuscitei uma metáfora que estava dentro de uma frase irrecuperável...

Minha poesia nada mais é do que a tentativa de resgatar
essas emoções soterradas.
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Marla de Queiroz
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Ganhei um presente do meu amigo querido, Lelê Teles.

domingo, maio 13, 2007

Domingos



Domingos têm a brochura de um "Ulisses" de James Joyce:
são dias eternos, lentos, arrastados pelas suas mal-contadas horas.
Têm resquícios de amores passados, ensopando manhãs.
Têm arestas de indecisão ampliando seu quebra-cabeça incompletável
pra esticar as tardes.
Têm desejos de alguma novidade.
Têm contradições e desperdícios,
não têm conclusões, só indícios.
Domingos adiam suas noites pra causar impacto.
E quando nos acostumamos depois de ter andado entre sonhos,
entre livros, entre bares, entre tédios, entre ansiedades,
entretenimentos, entrelinhas,...
Domingo, tal qual o mar, anuncia sua ressaca:
uma segunda-feira vingará.
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Marla de Queiroz

quarta-feira, maio 09, 2007

Canção



Foto: Rosalina Afonso
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Há tempos meus versos são teus,talvez todos, quem sabe.
Há tempos são meus teus escritos,poemas roubados de um pressentimento.
E a poesia que virá,qual história contará que ainda não conheço?

Eu já fui ferida, feri e curei.
Eu já fui amada, amei e perdi.

O que há de tão grave na dor para que se tema tanto, sempre?
O que há de tão nobre no amor,para que se queira insistentemente?
E o que há em comum entre os dois para que, vezenquando, se complementem?

A falta de emoção é que me deixa inóspita.
A inapetência é o que nos inquieta.

Não preciso saber pra onde vou, apenas com quem.
(Eu sei seguir só,também.)

O que pode ser tão frágil que precisa ser guardado numa caixa de silêncios?
O que pode ser tão forte que precisa ser exposto nessa vitrine de gritos?
O que pode ser tão raro que não possa ser incluso na lista dos desapegos?

(Sei que maio desliza entre as pernas nos convidando a apressar o passo.)

Então canta no teu violão aquela canção tão antiga, filha das nossas tardes.
E eu repito com você o refrão em que dizes:

Não consigo recordar
em qual beira de rio
você me beijou um dia,
mas inda arde em mim
essa saudade...
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Marla de Queiroz

domingo, maio 06, 2007

Entre-vistas

Foto: Luis Calado


_O que você faz quando está muito triste e cansada,

mas não consegue dormir?

_Eu componho um pranto.
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Marla de Queiroz

quarta-feira, maio 02, 2007

A Vida Tem Dessas Coisas...



Foto: Geisa


Pronunciou várias vezes o nome dele como quem diz: “meu amor”.
(Desses recursos que os amantes esbanjam)
Porque amar mesmo só se sabia assim: largo, dentro, na parte mais vasta,
com todas as esperanças castas e os gestos despidos de qualquer resquício de medo.
(Dessas sabedorias que o perdão nos dá)
Permitir-se tanto era como se a casa do seu corpo fosse visitada todos os dias pela alegria.
(Dessas coisas que um corpo sabe escrever no outro)
Ele, o mesmo, o de sempre, de repente, revelando-lhe belezas tão inéditas e
sensualidades que não estavam submetidas à posse.
(Desses encontros que duram)
Tinha tanta alvura naquele sentimento como quando os anjos da guarda de um casal

também se apaixonam.
(Dessas magias)
E o sol que provavelmente estaria lá fora, ela via nascer por dentro.
(Dessas coisas que acordam o dia mais cedo)
Foi didática enquanto o amava.
(Dessas gramáticas do corpo)
Era uma querência já sem desespero, mas intensa.

Vontade de dedilhar num violão aquele sorriso até encontrar o melhor dos adjetivos.
(Dessas coisas que viram música)
Estavam felizes sem modéstia ou culpa,como se as flores fizessem aniversário.
(Desses momentos que esmagam antigas tristezas)

Eles, o dia, inteiros,a noite,intensos, a madrugada, nus:
e o experienciar de todas aquelas emoções sem títulos.
(Dessas coisas que não se abrevia, que se eternizam)

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Marla de Queiroz

quinta-feira, abril 26, 2007

Quando o MUITO vira APENAS



Eu não estava triste, estava atenta.
Eu não estava alegre, estava irônica.
Eu quis que a vida me mostrasse
todas as outras reais possibilidades.
E esfreguei os olhos pra desembaçar
o que, antes, era só neblina.
E precisei de muito tempo pra estar junto
e entender o que era só distância.
Eu tive muito tempo pra saber
que já era a hora da mais completa desistência.
E, reavaliando desde o início,
foi que descobri:
o que eu chamava de amor,
era só rima.
O que eu chamava de poesia,
era só vício.

(Saber a hora de ir embora é coisa que só o tempo aprimora.)

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Marla de Queiroz

domingo, abril 22, 2007

Encarcerada



A paixão cortou minhas asas.

Sigo esbarrando em pedras, antes fossem nuvens.

Emburrecida de querência,enlouquecida de ardores

eu rezo por um bocado de sono

e um punhado de paz.

Porque a respiração chia

feito vinil antigo e mal guardado.

E os olhos que miram tudo

só vêm o mesmo rosto.

Não importa que eu esteja ao ar livre,

a paixão me aprisiona ao pé da coisa.


Eu só queria um amor que acendesse em mim exuberâncias novas.

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Mala de Queiroz

terça-feira, abril 17, 2007

Abraço Refeito


Foto: Paulo Cesar

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Vem caminhar ao meu lado, amor.
Nesse tapete dourado
de folhas despencadas das amendoeiras.
Vamos tocar nas flores
suadas de orvalho e perfumadas pelo sol.
Vem caminhar ao meu lado
até que seja estendido
o varal de estrelas na cabeceira da noite
ou que possamos beber
desse trecho de chuva que amadurece ao relento,
na madrugada.
Vem caminhar ao meu lado, braço dado,
deixando esquecidas no vento
nossas palavras machucadas.
Vamos refazer a solidez
daquele início do capítulo
em que éramos tão lúdicos e líricos.

Eu escrevi uma narrativa de tanto amor,
por favor,
não rasure a minha docilidade.

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Marla de Queiroz

sexta-feira, abril 13, 2007


Passou o dia pensativa juntando coragem na saliva até encorpar a voz.
Aproveitou o ápice da sua agonia e, num impulso, disse tudo numa sensação só:
“A partir de hoje, não sou mais tua mulher, decidi gostar de outro”.
No início ele riu da ousadia, mas o silêncio que ela fez em seguida preencheu
de sinceridade aquela novidade.
“Você ficou maluca, de onde tirou isso?”
“ É que você nunca gostou de mim no grosso mesmo do sentimento...sempre foi essa coisinha aguada e mal-cuidada,água parada esperando doenças...”
“ Mas ninguém decide que vai gostar de outro de repente e, simplesmente, começa a gostar!”
“ Ah, mas eu decidi...Ele vai realizar um sonho que tenho comigo desde menina:
ele disse que vai gostar de mim bem do jeitinho que eu gosto de você.
A diferença, é que eu sei merecer essas coisas...”
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Marla de Queiroz

segunda-feira, abril 09, 2007

Inundação


Foto: Ricardo Calha


Fazia tempo eu não dissimulava uma briga sabendo que ele acha tão engraçado quando eu fico emburrada.
Reclamei meia-dúzia de coisas,suspirei um sono mentiroso e deitei afastada e imóvel pra ele achar que era verdade.
Mas fui amolecendo até ceder porque ele tinha argumentos irrefutáveis na quentura das mãos, dessas que sabem quando um corpo foi feito pra dormir junto.
Miudinha como chuva fina que cai só pra serenar os olhares e aumentar febres, fui despejando a minha pele em todos os poros dele, naquele oceano de fomes.

Luz amena e sussurros de Cazuza numa gravação doméstica antiga.
E a gente se misturando conforme a música, enquanto a lua se esvaziava no primeiro parágrafo do outono...

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Marla de Queiroz

quinta-feira, abril 05, 2007

Desvario


Foto: Carla Salgueiro


Em noites de lua cheia
eu oscilo doida,desvairada.
Coração desata em peito-ardências
um desejo de correr e de ficar,
urgências.

Poesia escorregadia
esperando um descuido da tensão.
E eu aflita, tão afoita
trocando meu reino
por qualquer bocadinho de razão.

Em noites de lua cheia,
a vontade do grito.
Arma em punho,posição de ataque
à espera do conflito.

Reações exageradas
descompensações fatais,
versos afogados,
antecipando finais.

(E essa insônia perpétua fazendo curvas nos cílios das horas)

Em noites de lua cheia
tudo que há de calmo em mim,
se deteriora.

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Marla de Queiroz

quarta-feira, abril 04, 2007

Próximo passo


Foto: Ana Red

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Tanta coisa mudou e ele ainda não sabe que
um ponto desfeito no meio do casaco de tricô
é prenúncio de inverno antecipado,
campanha de coração novo
arrecadando (outros) agasalhos...

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Marla de Queiroz