quinta-feira, julho 19, 2007

Uma paisagem


Foto: CAV


No mirante do Leme um silêncio espreita a menina com o grito guardado nos olhos.À espera de trovões, nuvens se aninham ao norte, escuras e solidárias. O oceano berra a impossibilidade do mergulho, mas surfistas confiam na maternidade das águas. (Há tempos o sol deslizou pelas costas do morro e mordeu a isca do mar, feito peixe ingênuo).A areia sem pegadas, dia anoitecido, ventania arrastando histórias e páginas de algum livro. E uma solidão tão exata.
O poeta dispensa a caneta pra contemplar. E, como quem se ilumina por uma alegria secreta e sem barulho, levanta da pedra e, súbito, segue à procura do Tempo que se desinteressou pelas horas.
(Agora, só um caderno abandonado completa a paisagem).

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Marla de Queiroz
P.S.: Confiram essa BONITEZA!

quarta-feira, julho 18, 2007

Luto

Foto:José Gama




Faz um mês e meio que perdi a minha irmã Inês. Eu estava em processo de recuperação, não quis passar isto nos meus textos porque a morte sempre me falou de vida. Da vida que tenho, que preciso viver com integridade, com totalidade. E cuido pra não machucar minha poesia, sei da responsabilidade que tem quem escreve e publica.Mas hoje eu perdi um dos meus melhores amigos, o Dani Boy. E a dor que sinto é absurda.A respiração fica massacrada pela mão do luto. O sofrimento se materializa no corpo causando um desconforto físico. A alma fica estilhaçada, tentando reunir forças pra amparar o corpo.O descompasso das lágrimas, o grito pelo alívio. E nada cura, nada resolve, nada ampara. Nada me faz acreditar nessa perda.Ele tinha a minha idade e seu coração parou. Simplesmente parou de bater. Coisas de gente que vive com muita intensidade.Mas ao contrário de achar que a vida é injusta, isso me dá pressa de viver.Uma pressa tremenda de ser mais feliz, de desenvolver o meu potencial amoroso,de publicar meu livro, de perdoar e pedir perdão. Uma pressa tão grande de ser uma pessoa melhor.E de viver com tanta honestidade.

Nem sei se deveria compartilhar isso com vocês.Mas os que me acompanham a tanto tempo, sabem que a vida não é feita só de nascimentos.Sei que o Dani cumpriu sua missão lindamente e que já está sendo orientado e preparado pro seu grande processo de evolução espiritual pelos Guias de Luz. Peço a Deus que me dê sabedoria para desapegar-me da saudade que sinto e que sentirei sempre. Para que eu não seja egoísta querendo-o no meu cotidiano presente e ativo como sempre foi. Que eu saiba simplesmente agradecer ao fato de ter podido conviver intensamente com um passarinho tão livre e leve. Meu amigo mais fanfarrão, a companhia mais deliciosa e generosa.

Um dia escrevi um depoimento pra ele no orkut, logo no início da nossa amizade. Fica aqui minha despedida.
E que venha a vida com todas as suas polaridades e maiores belezas.


Dani Boy é a intensidade materializada. As histórias dele são fantásticas e ele é todo hiperbólico para enfatizá-las. Lindo, engraçado, e um boêmio em toda a acepção da palavra. O álcool selou nossa inimizade. É o único com quem me arrisco a beber na segunda-feira pra ficar com raiva dele no dia seguinte. E a gente tenta fazer as pazes a semana inteira bebendo cerveja no Léo. Dani Boy conhece tudo do Chico Buarque e não tem inibição nenhuma em cantar um samba todo desafinado...Ele é leonino. E joga capoeira sem se alongar depois de tomar todas. E dá tanto valor à amizade que faz cada um se sentir o mais especial do planeta. Dani Boy é o fanfarrão mais carinhoso e divertido que conheço. E faz a posição da rã como ninguém...hehehehe...Ele é um folgado, mas meu melhor companheiro. E, pensando bem, com um inimigo desses, quem precisa de amigos?


Eu preciso entender que o sol se põe, às vezes, no auge de um dia de praia. E que nada detém a noite. Perder alguém muito querido, é como perder o controle de todas as situações. A gente sempre acha que poderia ter tomado mais um chope junto, que poderia ter estado mais presente, que poderia ter feito algo mais incrível. Mas a gente se esquece é da fragilidade das coisas e de que alguém cheio de vida jamais vai inspirar a morte. A gente não tem como saber qual será a perda ou a vitória dos próximos dias.
É preciso seguir, confiante de que a escolha que fizemos é a melhor. E que a incerteza é o que nos impulsiona ainda, mesmo que cause tanto desconforto.

Me perdoem o desabafo, é que uma sucessão de perdas é muito pesado mesmo e sempre usei a palavra como uma das fontes de salvação e amparo. Não se impressionem com nada...isso faz parte da vida e quero acreditar que nem é a parte mais importante.
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Marla de Queiroz

quinta-feira, julho 12, 2007

Sobre meninas

Foto: sweetcharade


Meninas passeiam seus vestidos de mãos dadas. Despertam curiosidades nos olhares salivantes dos moços viris e das boquiabertas senhorinhas. Bailarinas da sedução, borboleteiam imaginações alheias porque desabitaram as convenções do amor público pra se libertarem da camisa-de-força com etiqueta.

Meninas são líquidas de águas temperadas. Ultrapassaram os epílogos do prazer pra mergulhar na emergência do ardor com afeto.E, delicadas na carícia sem ingenuidade, confundem-se no abraço das pernas enveredadas pela malícia da fome.E, na dança dessas deusas líricas,o roçar de seios e o beijo de todos os lábios.
Meninas passeiam por aí, lúdicas, exalando o feromônio doce do segredo.

(E vagueiam pelo lume sem fardos... porque são fadas.)
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Marla de Queiroz

sábado, julho 07, 2007

Um Par

Foto: Ana Meireles


Parecendo que o dia principiava uma ponta de nostalgia, mas já era um outro alguém chegando. A voz não tava clara, pressentimentos são confusos como violão que desconhece a melodia. Era como se precisasse elaborar antes de tudo, o sentimento que ela ia trazer, aquela voz.Então, ela determinou com a convicção de alguém que quer parar de beber, de sofrer, de fumar, de comer carne ou de qualquer coisa que incomode de algum jeito, que seria apenas saudável e recíproco.Tava cansada dos olhos afogados na ausência de um perfume ou de uma espécie de lirismo estúpido, como sempre.(Percebeu o final do sufoco na mudança do foco). O que o dia queria dela, trazendo as cores do olhar do passado? Não queria mais aquilo.Tava cansada.Ficou lembrando cenas que nem quis contar porque deu raiva. Que se assim o fim, melhor que assim o fosse.Mas sabia mesmo é que o verde que viria, reflorestaria aqueles olhos de imensas esperanças.Achou boa a sensação que a imagem trouxe e guardou num gesto: fez um movimento de mãos no ar e trouxe pro peito.Sorriu e calou. (E os olhos permeados do mistério bom).

Subitamente, a sensação de chegada de um outro alguém já era presença.Foi custoso pra ela entender o que uma pessoa podia trazer de novidade e poesia só por sorrir daquele jeito de quem se entrega à risada. Tinha bonitezas demais naquele interesse dele: arregalava o corpo pra ouvir a frase que ela dizia, sem precisar escolher o tema_ era só elogiar o céu ou o mar, ou a cor dos dois.

(E, na soberania dessa simplicidade, a coisa toda se deu.)

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Marla de Queiroz

domingo, julho 01, 2007

Manual de Instruções

Foto: Pedro Gomes
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Pode chegar mais perto e se aconchegar no meu colo.Vou escolher palavras-sussurro porque quando quero me fazer ouvir eu falo tão baixo:
Se for pra ser breve, que seja plenamente breve_ esse furacão que desacata a sensação de eternidade. Mas se for pra ser eterno, que seja ele mesmo, na carícia dos olhares que se demoram em silêncio pra dizer mais.Eu não temo nem dor, nem amor_ eu entro no barco e vou rio abaixo sem salva-vidas. Se a canoa virar, aprendo a nadar ou me afogo_eu sofro de excesso de fôlego.Por isso, não tema minha poesia: onde está minha força é também onde exponho minhas fraturas. (Palavra é moça cortejada demais e não admite desdém, quando ela flerta comigo, me entrego).Têm textos que causam febres, desenterram mágoas, reforçam a prisão na lembrança da história finda. Mas se eu propuser uma melodia mais doce, eles podem trazer pra perto da escrita a emoção indefinida e alfabetizar dores que ignoram curas, ensinar metáforas que dissolvem agonias, plantar um pouco de tolerância onde a raiva devastou.(Têm também textos que não dizem nada, que só conseguem macular o branco da página).

Eu sei que o que aprendi com a vida eu descobri que sabia ao escrever.
(Isso não deveria assustar pelo que tem de sagrado.)
Por favor, não tema minha poesia:
eu, definitivamente, não nasci pra me divertir
com a pessoa errada.
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Marla de Queiroz

terça-feira, junho 26, 2007

Poesia catada num sebo



Encontrou nas prateleiras de um sebo, pilhas de livros
com suas histórias despejadas nas dedicatórias.
Fragmentos de amores amarelecidos, vestiam palavras sem data:

Num Milan Kundera,
(um guardanapo e uma flor esmagada entre as páginas:)
“ A Insustentável Leveza do Ser”...só o título.

Num Manoel de Barros:
“Que teus-olhos-meus percorram estas páginas
ressarcidos das linhas que foram roubadas
pelos caminhos que os cupins traçaram.
E que te fizeram chorar feito menina,
com a cabeça apoiada entre as mãos,
antes de nos amarmos pela primeira vez.”

Num Jorge Luis Borges:
“ Uma lembrança discreta
(literária)
de noites que,
(amiúde)
entre farrapos de sono,
perdemos nossos corpos
nas cores de um mapa mundi.
Com carinho.
P.”

Numa Clarice Lispector:
“ Desfaço-me de tua musa,
porque os mistérios de Clarice
foram feitos pra tua curiosidade.
Sei que passeará teus olhos atentos
em cada grito abafado dessa mulher,
e que cada grifo teu trará pros nossos dias,
reflexões lindas e intermináveis.
Em tuas mãos agora:
meu livro dela,
meu amor teu."

Num Caio Fernando Abreu:
“Que te faça companhia nas noites
em que estarei ausente.
(Já sinto ciúmes dele)
Saudade já se faz presença.
Te amo (com erro sintático).
Volto logo.”

Num Guimarães Rosa:
“ Você é minha Diadorim.
Trouxe de longe pra ti
o sertão que nos fez amantes,
a literatura que nos aproximou tão de imediato.
Sou grato para sempre ao Rosa.”

Numa Hilda Hilst:
“ Tua poesia e a dela são casadas.
Me apaixonei pelas duas.”

Num Herman Hesse:
“ Por tuas febres, por tua fome de mais vida,
por tudo que dói em você pleno de existência
e pela beleza que bota nas coisas através das palavras.
(Sei que esse cara é meu rival, mas faça bom proveito.)”

Num Gabriel Garcia Márquez:
"Cem Anos de Solidão...uma declaração de amor às avessas..."

No livro de uma autora contemporânea desconhecida:
“Para o homem que me ensinou a escrever ( e viver) romances
quando eu só sabia tecer dramas."
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Marla de Queiroz
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P.S.:
Esse post nasceu de uma situação que vivi. Estava voltando pra casa a pé e, como é de praxe, entro em todos os sebos que encontro pelo caminho e fico algum tempo fuçando livros...sou viciada naquele cheiro doce das páginas velhas.Em um deles, com um título que dizia algo sobre histórias de amor entre meninas, li uma dedicatória de uma moça tão apaixonada por outra, tão delicada, tão cheia de segredos íntimos de alguém entregue a uma história recém-descoberta e, pelo que parecia, recíproca, que fiquei pensando naquele livro ali, vendido pra um sebo com tanto amor pulsando vivo naquelas palavras adolescentes.Lembrei dos livros que ganhei, das dedicatórias que me escreveram, das coisas lindas que posso relembrar toda vez que os revisito. Fiquei pensando no desapego de quem se desfaz assim, não só de um livro, mas de uma história.Porque têm dedicatórias que compensam a leitura das páginas que nem sempre tocam fundo.
Esse texto nasceu do que posso imaginar quando pago por algum livro num sebo e trago pra casa uma dedicatória alheia.E, apesar do meu apego às minhas dedicatórias, já me conformei com a perda de vários livros que emprestei, porque ainda acredito que são eles quem procuram seus donos.

quinta-feira, junho 21, 2007

Da chegada do inverno

Foto: Ana Meireles
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Manhã de outono, tarde de inverno:
duas estações repartem ao meio o dia.
O fôlego renovado do vento faz dançar folhas órfãs.
A força retocada do frio faz tremer nuas árvores.

Enquanto a noite suspira neblinas,
estrelas pendem de cansaço e sono.

Antecipados poentes romanceiam encontros,
e o sol seduz uma lua encabulada:
_De-cifra-me que eu te melodio...
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Marla de Queiroz
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Tem poema meu no MANUFATURA

quarta-feira, junho 13, 2007

Sobre o amor

Foto: Maria Flores
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Amar você é ter vontade de ir a lugares que não conheço e me expor de um jeito que me ilumina. É transgredir a ordem das coisas, transmutar medos antigos e cantarolar canções novas.Amar você é passear por entre haicais, sonetos e trovas.

Amar você é descobrir que alguns mergulhos são desnecessários, que algumas coisas existem para se conhecer só na superfície, dispensando dicionários, porque elas são simplesmente aquela estrada rasa feita pra se caminhar por cima e a esmo.É eu saber teu colo e você a minha mão quente. É esse nosso afago relembrar a euforia das paixões adolescentes. É poder ouvir exatamente o que foi dito sem procurar uma mensagem oculta, uma palavra mágica dissolvida no contexto ou outros indícios. É respeitar tuas vontades, tua inconstância, tuas dificuldades. É saber que uma meia-verdade pode ser a verdade mais sincera de cada um...

Amar você é também mergulhar nos meus textos, e ficar submersa observando as coisas por dentro porque a densidade delas é o essencial, é o meu centro. É entender tuas limitações porque me olho e vejo as minhas, é conceber minhas mudanças porque também vejo as tuas. É não deixar que nada corrompa nossas essências, porque nos queremos melhorar para o mundo, porque queremos embelezar nosso universo, porque queremos ser além das aparências. É saber que cada passo que dou será na direção que escolhi e que só terei o conforto da sua companhia se, por acaso, quiser seguir o mesmo rumo. Porque somos unos, múltiplos, imensos, nunca os mesmos, sempre os únicos, os mais intensos.
É encontrar leveza nas emoções que nos transbordaram porque estávamos prontos. É escrever um dicionário de palavras distraídas. E adentrar o corpo de um poema recente, ainda disforme. É falar de amor usando a metáfora mais inocente. É também experimentar a simplicidade com que tudo pode ser vivido, até àquela hora em que o desejo dorme. É vir à tona e, sem sustos, te deixar ser e me vir refletida, pedra bruta antes de ser polida, até a hora da próxima fome.
Amar você é amar aquilo que, de outra forma, jamais faria sentido: é abraçar teu passado, teus traumas, teus vazios, tuas confusões e angústias existenciais como quem abraça a um amigo.
É agradecer profundamente, ao acordar, por esta pessoa inteira, que jamais será uma metade e que me escolheu para a soma, e que com todas as alternativas que teve, preferiu seguir comigo.
(Amar você me fortalece.)
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Marla de Queiroz

domingo, junho 10, 2007

Sobre a perda

Foto: Paulo Medeiros


Eu te prometo que um dia, o mundo vai amanhecer sem violência, pura poesia...e que vários passarinhos vão acalentar tua alma angustiada. Um dia a vida vai ser tão suportável que você vai achar bom abrir os olhos pela manhã. (A minha poesia anda muito machucada pela sua ausência.Ainda não sei quantos colos serão necessários pra reparar a perda de uma pessoa inteira. Você, que se lançou aos céus acreditando que poderia voar com suas asinhas de vidro, minha menina ingênua, perdoe a inutilidade do meu abraço atrasado).

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Marla de Queiroz

domingo, junho 03, 2007

Nú ar-dor


Foto: Maria Flores
Ainda arde na memória
a gérbera vermelho-língua:
germinando versos orgásticos,
desabrochando paixões,
e consumindo corpos
num mar de fogo.

Brisa de brasas
espalhando incêndios
pelas peles, pêlos, púbis.

Carnes exauridas pela febre,
fremem.
Pólvora.
Explosão.
Ruptura.
Cacos, caos e fim.

(Passos ágeis tropeçam agora
em pétalas de suor, sal e sangue.)


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Marla de Queiroz

sábado, junho 02, 2007

Mal-me-quis


Foto: Ivone Peoples
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Lágrimas:
pétalas de água e sal.

Pranto:
flor de mar
(no olhar.)
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Marla de Queiroz

terça-feira, maio 29, 2007

TALVEZ...ou repensando a minha vida*

Foto: Thiago Soares


Talvez a verdadeira intimidade eu só tenha buscado com as palavras, e tenha me entupido delas no momento em que poderia estar aprendendo alguma coisa com alguém. (Faço um muro de palavras entre mim e as pessoas. Sou autoexplicativa só pra confundir.)


Talvez eu tenha nascido para uma vida desapaixonada e culta. Talvez eu nunca tenha olhado verdadeiramente o outro, e só tenha visto o texto pronto que criei pra ele. Talvez eu não conheça o que julgava conhecer. E isso me entupiu de certezas que eu não soube abandonar ao longo do caminho.


Uso palavras para não sofrer, para plagiar uma dor, pra fingir que sou leve e que está tudo bem. Uso palavras pra falar de uma chuva que talvez eu não conheça porque não me permiti ficar encharcada dela. E ela virou a metáfora de um relacionamento_ o que pode ser tristemente poético.


Talvez eu só tenha sentido saudade pra falar de outras coisas. Pra usar a palavra "saudade" mesmo, que eu adoro. Acho que estou muito cansada. Falei demais das coisas e , no entanto, não toquei verdadeiramente em nada. Observei e descrevi, cheia de filtros semânticos. Dentro da minha limitação eu interpretei o Universo para que eu coubesse nele, em mim. E alienei as pessoas dentro de conceitos. E arranjei um sentimento pra cada coisa. E pensei que assim, tudo estaria em ordem, sob controle.Eu que me julgava não julgadora, me considerava livre, agora tendo que empurrar as grades dessa prisão de certezas que criei pra mim. Sem poder culpar ninguém. Usando um discurso de alguém que não quer magoar o outro pra descobrir que no fundo só me importei comigo mesma e com os meus medos. Não deixei que o outro experimentasse o que havia de melhor ou de pior em mim. Não deixei que ele escolhesse.Mantive o muro de palavras e o meu discurso pronto pra continuar a salvo do outro lado. Eu que sempre falei de pontes...


Talvez eu seja uma farsa. Talvez eu seja virtualmente inacessível. Alguém que se entope de adjetivos pra entender as coisas e dizer que não se preocupa em entender nada. Eu que sempre falei de amor, não amei o outro em toda a dimensão da pessoa que ele é. Talvez eu tenha me preocupado mais com as vírgulas que não usei nas cartas de amor que escrevi, que com as pessoas que as receberam e que se julgaram amadas.


Talvez eu só tenha dançado pra fingir que gostava de música. Talvez eu só tenha bebido pra fazer parte de um círculo social. Talvez eu só tenha aceitado certas coisas pra poder ser chamada de amiga_ e usei levianamente a palavra amizade.Talvez eu tenha me apaixonado diversas vezes pra fazer parte do círculo de pessoas que sorriem diferente porque estão amando_ e sofri as carências que intercalam as paixões como se fossem reais. Talvez eu tenha rompido relações pra escrever cartas de despedida e mostrar como eu dominava a dor ao escrevê-las. Talvez eu só tenha experimentado as relações dentro da literatura.


Acho que estou realmente cansada. Falei demais sobre tudo e continuo no escuro. E a minha recusa em tocar nas coisas me impede de sair tateando em direção à luz. E mais uma vez eu uso palavras pra tentar me defender de algo, de mim.(Talvez eu precise parar de ler Clarice Lispector... )


Talvez eu devesse escrever uma carta em branco pra dizer que quero silenciar: que se o silêncio ainda estiver esperando por mim, eu aceito. Preciso esquecer as palavras, preciso me despedir delas para começar a experimentar a vida com honestidade. Talvez silenciando eu consiga ser mais honesta com você. Eu que precisei escrever tanto pra dizer isto: que preciso silenciar.


(Talvez eu só tenha escrito isso tudo pra conseguir chorar... E usar a palavra "talvez" pode ser o início do abandono de tantas certezas; o início do uso mais corriqueiro da frase “eu não sei".)


Talvez isso seja um começo de alguma coisa.

Talvez isso seja um fim.

Talvez sejam apenas hormônios...

Mas isso tudo se parece muito com tristeza...

EU NÃO SEI.

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EU SOU ESTAS RETICÊNCIAS ENTRE PARÊNTESES: (...)

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Marla de Queiroz

*Texto republicado

domingo, maio 27, 2007

Vislumbrando complementos


Foto:Pedro Gomes


Palavras compõem bilhetes, cartas, textos...citações que confessam antíteses.Músicas compõem reticências.Aspas comportam parágrafos. Trechos em itálico, lirismo.Parênteses de livros,citações.Violinos confessam saudades.Sentimento amarrotado habita pessoa.Um ponto final ou uma vírgula. Você quem sabe, poesia. Interrogação?
*
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Marla de Queiroz

sexta-feira, maio 25, 2007

Vislumbres

Tanto tempo engasgada com o próprio silêncio que necessitou procurar palavras. Poderia escrever um bilhete, caso nascesse a primeira frase. Quem sabe, uma carta. Ou algum texto longo, cheio de vírgulas, reticências e coisas bem ditas, até o ponto final. Sem parágrafos. Um bloco de confissões com muitas antíteses pra descartar as obviedades. E o que estivesse mais à flor da pele, colocaria entre parênteses pra não parecer dramática. Talvez aproveitasse pra usar aspas, intercalando trechos de músicas que tivessem relação com o momento. Pensando bem, preferiria o itálico: porque as letras ficam deitadas umas sobre as outras, bem mais romântico. Se revisitasse alguns livros, poderia aproveitar também uma daquelas citações. E, se as palavras se entrelaçassem coesas, poderia até ser profunda. E lírica.

(Foi o que pensou enquanto esticava o vestido no corpo como quem desamarrota um sentimento.Porque a saudade que sentia não era a mesma: dessa vez, vinha com um solo de violinos ao fundo.
E doía tanto mais).

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Marla de Queiroz

segunda-feira, maio 21, 2007

Visita clandestina



Foto: João Lourenço


Eu passeio por tua estrada quando você não está, porque não quero mais vê-lo ou tocá-lo.Eu passeio por tua casa quando você não está,mas não vasculho tuas gavetas, teus segredos, a intimidade repousada no silêncio dos teus bolsos, dos armários: contemplo os móveis, os livros, os discos e tudo o que está exposto__só quero a experiência. Eu passeio por tuas coisas quando você não está, pra aprender com tua casa, tua estrada e o teu mundo a suportar a tua ausência.


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Marla de Queiroz
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P.S.: Hoje tem poema meu no Manufatura.

quarta-feira, maio 16, 2007

Sobre resgates

Foto: Rafael Soledade Matos


Não aprendi a empinar pipas, mas a empilhar frases. E tive que me familiarizar com desmoronamentos. Por isso, procuro palavras regeneradas que façam algum traço de cor no céu. Eu não aprendi a desenhar fatos novos, mas a restaurar letras encontradas em entulhos e paisagens adoecidas pelo tempo. Às vezes, entre os destroços, eu descubro paradoxos como um mar de águas-vivas mortas. Às vezes, entre os escombros, eu recupero uma alegria virando pelo avesso a tristeza empoeirada. Um dia, eu reconstruí um poema apenas com os detritos de uma flor. E ressuscitei uma metáfora que estava dentro de uma frase irrecuperável...

Minha poesia nada mais é do que a tentativa de resgatar
essas emoções soterradas.
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Marla de Queiroz
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Ganhei um presente do meu amigo querido, Lelê Teles.

domingo, maio 13, 2007

Domingos



Domingos têm a brochura de um "Ulisses" de James Joyce:
são dias eternos, lentos, arrastados pelas suas mal-contadas horas.
Têm resquícios de amores passados, ensopando manhãs.
Têm arestas de indecisão ampliando seu quebra-cabeça incompletável
pra esticar as tardes.
Têm desejos de alguma novidade.
Têm contradições e desperdícios,
não têm conclusões, só indícios.
Domingos adiam suas noites pra causar impacto.
E quando nos acostumamos depois de ter andado entre sonhos,
entre livros, entre bares, entre tédios, entre ansiedades,
entretenimentos, entrelinhas,...
Domingo, tal qual o mar, anuncia sua ressaca:
uma segunda-feira vingará.
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Marla de Queiroz

quarta-feira, maio 09, 2007

Canção



Foto: Rosalina Afonso
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Há tempos meus versos são teus,talvez todos, quem sabe.
Há tempos são meus teus escritos,poemas roubados de um pressentimento.
E a poesia que virá,qual história contará que ainda não conheço?

Eu já fui ferida, feri e curei.
Eu já fui amada, amei e perdi.

O que há de tão grave na dor para que se tema tanto, sempre?
O que há de tão nobre no amor,para que se queira insistentemente?
E o que há em comum entre os dois para que, vezenquando, se complementem?

A falta de emoção é que me deixa inóspita.
A inapetência é o que nos inquieta.

Não preciso saber pra onde vou, apenas com quem.
(Eu sei seguir só,também.)

O que pode ser tão frágil que precisa ser guardado numa caixa de silêncios?
O que pode ser tão forte que precisa ser exposto nessa vitrine de gritos?
O que pode ser tão raro que não possa ser incluso na lista dos desapegos?

(Sei que maio desliza entre as pernas nos convidando a apressar o passo.)

Então canta no teu violão aquela canção tão antiga, filha das nossas tardes.
E eu repito com você o refrão em que dizes:

Não consigo recordar
em qual beira de rio
você me beijou um dia,
mas inda arde em mim
essa saudade...
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Marla de Queiroz

domingo, maio 06, 2007

Entre-vistas

Foto: Luis Calado


_O que você faz quando está muito triste e cansada,

mas não consegue dormir?

_Eu componho um pranto.
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Marla de Queiroz

quarta-feira, maio 02, 2007

A Vida Tem Dessas Coisas...



Foto: Geisa


Pronunciou várias vezes o nome dele como quem diz: “meu amor”.
(Desses recursos que os amantes esbanjam)
Porque amar mesmo só se sabia assim: largo, dentro, na parte mais vasta,
com todas as esperanças castas e os gestos despidos de qualquer resquício de medo.
(Dessas sabedorias que o perdão nos dá)
Permitir-se tanto era como se a casa do seu corpo fosse visitada todos os dias pela alegria.
(Dessas coisas que um corpo sabe escrever no outro)
Ele, o mesmo, o de sempre, de repente, revelando-lhe belezas tão inéditas e
sensualidades que não estavam submetidas à posse.
(Desses encontros que duram)
Tinha tanta alvura naquele sentimento como quando os anjos da guarda de um casal

também se apaixonam.
(Dessas magias)
E o sol que provavelmente estaria lá fora, ela via nascer por dentro.
(Dessas coisas que acordam o dia mais cedo)
Foi didática enquanto o amava.
(Dessas gramáticas do corpo)
Era uma querência já sem desespero, mas intensa.

Vontade de dedilhar num violão aquele sorriso até encontrar o melhor dos adjetivos.
(Dessas coisas que viram música)
Estavam felizes sem modéstia ou culpa,como se as flores fizessem aniversário.
(Desses momentos que esmagam antigas tristezas)

Eles, o dia, inteiros,a noite,intensos, a madrugada, nus:
e o experienciar de todas aquelas emoções sem títulos.
(Dessas coisas que não se abrevia, que se eternizam)

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Marla de Queiroz

quinta-feira, abril 26, 2007

Quando o MUITO vira APENAS



Eu não estava triste, estava atenta.
Eu não estava alegre, estava irônica.
Eu quis que a vida me mostrasse
todas as outras reais possibilidades.
E esfreguei os olhos pra desembaçar
o que, antes, era só neblina.
E precisei de muito tempo pra estar junto
e entender o que era só distância.
Eu tive muito tempo pra saber
que já era a hora da mais completa desistência.
E, reavaliando desde o início,
foi que descobri:
o que eu chamava de amor,
era só rima.
O que eu chamava de poesia,
era só vício.

(Saber a hora de ir embora é coisa que só o tempo aprimora.)

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Marla de Queiroz

domingo, abril 22, 2007

Encarcerada



A paixão cortou minhas asas.

Sigo esbarrando em pedras, antes fossem nuvens.

Emburrecida de querência,enlouquecida de ardores

eu rezo por um bocado de sono

e um punhado de paz.

Porque a respiração chia

feito vinil antigo e mal guardado.

E os olhos que miram tudo

só vêm o mesmo rosto.

Não importa que eu esteja ao ar livre,

a paixão me aprisiona ao pé da coisa.


Eu só queria um amor que acendesse em mim exuberâncias novas.

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Mala de Queiroz

terça-feira, abril 17, 2007

Abraço Refeito


Foto: Paulo Cesar

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Vem caminhar ao meu lado, amor.
Nesse tapete dourado
de folhas despencadas das amendoeiras.
Vamos tocar nas flores
suadas de orvalho e perfumadas pelo sol.
Vem caminhar ao meu lado
até que seja estendido
o varal de estrelas na cabeceira da noite
ou que possamos beber
desse trecho de chuva que amadurece ao relento,
na madrugada.
Vem caminhar ao meu lado, braço dado,
deixando esquecidas no vento
nossas palavras machucadas.
Vamos refazer a solidez
daquele início do capítulo
em que éramos tão lúdicos e líricos.

Eu escrevi uma narrativa de tanto amor,
por favor,
não rasure a minha docilidade.

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Marla de Queiroz

sexta-feira, abril 13, 2007


Passou o dia pensativa juntando coragem na saliva até encorpar a voz.
Aproveitou o ápice da sua agonia e, num impulso, disse tudo numa sensação só:
“A partir de hoje, não sou mais tua mulher, decidi gostar de outro”.
No início ele riu da ousadia, mas o silêncio que ela fez em seguida preencheu
de sinceridade aquela novidade.
“Você ficou maluca, de onde tirou isso?”
“ É que você nunca gostou de mim no grosso mesmo do sentimento...sempre foi essa coisinha aguada e mal-cuidada,água parada esperando doenças...”
“ Mas ninguém decide que vai gostar de outro de repente e, simplesmente, começa a gostar!”
“ Ah, mas eu decidi...Ele vai realizar um sonho que tenho comigo desde menina:
ele disse que vai gostar de mim bem do jeitinho que eu gosto de você.
A diferença, é que eu sei merecer essas coisas...”
*
*
*
Marla de Queiroz

segunda-feira, abril 09, 2007

Inundação


Foto: Ricardo Calha


Fazia tempo eu não dissimulava uma briga sabendo que ele acha tão engraçado quando eu fico emburrada.
Reclamei meia-dúzia de coisas,suspirei um sono mentiroso e deitei afastada e imóvel pra ele achar que era verdade.
Mas fui amolecendo até ceder porque ele tinha argumentos irrefutáveis na quentura das mãos, dessas que sabem quando um corpo foi feito pra dormir junto.
Miudinha como chuva fina que cai só pra serenar os olhares e aumentar febres, fui despejando a minha pele em todos os poros dele, naquele oceano de fomes.

Luz amena e sussurros de Cazuza numa gravação doméstica antiga.
E a gente se misturando conforme a música, enquanto a lua se esvaziava no primeiro parágrafo do outono...

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Marla de Queiroz

quinta-feira, abril 05, 2007

Desvario


Foto: Carla Salgueiro


Em noites de lua cheia
eu oscilo doida,desvairada.
Coração desata em peito-ardências
um desejo de correr e de ficar,
urgências.

Poesia escorregadia
esperando um descuido da tensão.
E eu aflita, tão afoita
trocando meu reino
por qualquer bocadinho de razão.

Em noites de lua cheia,
a vontade do grito.
Arma em punho,posição de ataque
à espera do conflito.

Reações exageradas
descompensações fatais,
versos afogados,
antecipando finais.

(E essa insônia perpétua fazendo curvas nos cílios das horas)

Em noites de lua cheia
tudo que há de calmo em mim,
se deteriora.

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Marla de Queiroz

quarta-feira, abril 04, 2007

Próximo passo


Foto: Ana Red

*



Tanta coisa mudou e ele ainda não sabe que
um ponto desfeito no meio do casaco de tricô
é prenúncio de inverno antecipado,
campanha de coração novo
arrecadando (outros) agasalhos...

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Marla de Queiroz

sábado, março 31, 2007

Panorâmica

Foto: Pedro n s Costa


Os passos suaves porque os caminhos são de delicadezas:
Na borda do dia,uma gaivota atravessa a retina do sol.
Calor de vento mudo, temeroso de árvores alvoroçadas.
Lua abarrotada, leitosa, amamentando estrelas-bebês.
A maré cheia de poemas do Drummond sentado, no meio do caminho.
Um casal deitando poesia na areia.
Uma flor arrancada enfeitando o asfalto.
(Uma nuvem preta sozinha não faz temporal).
E uma joaninha descrevendo a paisagem pro poeta.
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*

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Marla de Queiroz

quarta-feira, março 28, 2007

SOL & CHUVA...(língua-de-fogo e olhos-d'água)

Foto: Pedro Moreira


I-SOL...ou língua-de-fogo

Embriagada de sol
danço feito labareda
nos teus braços-ventania.
Inquieta, lambo teu corpo
bordando incandescências
na tua pele-foco-da-minha-sede.
É quando cedes.
E gemes alto
com meu gozo caudaloso.
E consumado o ato,
nos consumimos doces
feito incenso.


Incautos,guardamos o perfume
da nossa febre
numa caixa de fósforos
molhados.






II-CHUVA...ou olhos-d’água

Embriagada de chuva
danço feito lágrima gorda
abrindo caminhos em teu rosto.
Trêmula, corro tua face
procurando colo em teus lábios.
E desenho uma emoção
nos teus olhos ausentes.
É quando sentes.
E gozas insubmisso
ao meu gemido abafado.
E confirmado o fato,
nos consumimos cáusticos

feito um veneno.

Cautos, guardamos o antídoto da picada
na caixa d’água da nossa casa.
*

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*


Marla de Queiroz

domingo, março 25, 2007

Mais do mesmo...ou frases sobre fases.



(Meu mestre é o Sol).
Já entrei em túneis, já nadei no fundo do poço e tive medo do mar.
Hoje,para mim, nada é tão mágico quanto uma nuvem.
O que uma borboleta faz num poema, me embasbaca.
O que uma estrela cadente pode trazer de esperança, me emociona.
Uma árvore enorme brotar de uma semente, me fascina.
O potencial que um afago tem de trazer vida prum corpo desanimado, faz de mim afetivamente ativa.
O que há de nirvana num gozo, sacraliza o sexo, o transforma numa comunhão com outro corpo.
(Tenho tendência ao erotismo).
O que há de escravidão num desejo, me faz construir mantras de libertação enquanto caminho.
Todos os dias deixo um poema nas mãos do Drummond de bronze, quem os colhe, no lugar, deixa uma flor.Nunca vi tanta sabedoria:
as flores falam tanto mais que as palavras...
Sou um ser de amor: hoje, andando por uma feira, me enamorei perdidamente pelo cheiro e pelas cores das frutas e folhas...mas tenho rejeição pelo peixe morto, imóvel e cru.
(Estou pateticamente apaixonada por um crisântemo laranja).
Doutrino meus pensamentos pra ser uma pessoa boa e positiva,
posto que sou tão humana e inacabada.
Às vezes desapareço da vida de alguém com a mesma intensidade com que surjo....Depois eu volto.
Eu não acho a lua mais importante que eu.
(O Sol é meu mestre).
Eu não acho ninguém menos importante que o Sol.
(Tenho muitos mestres).
Meus livros têm os vestígios dos passeios que fazem comigo:
principalmente grãos de areia entre as páginas.
Meus olhos têm os vestígios das vezes em que amei e fui muito amada:
principalmente um brilho.
Por isso eles sorriem quando a minha boca.
Um dia eu escrevi assim:
a partitura imóvel em cima do piano fechado...”
( Não sei que falta de emoção me trouxe esta imagem).
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*
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Marla de Queiroz

quarta-feira, março 21, 2007

Irreversível.




Quando terminei de falar, senti foi a dentada da tristeza em meu peito. Eu fui andando, andando, quase olhei pra trás e pedi que desconsiderasse aquilo tudo. Mas não dava pra desmanchar aquele ponto final. Não se remove um "adeus" com um "esqueça tudo que eu disse". É que eu pensava que nem ia doer. (Nem deixei que ele me tocasse, eu não tinha tempo pra arder).E foi com meu coração disparado que apressei o passo e ganhei estrada.Eu respirava fundo chamando a tranqüilidade de volta.Mas ela não veio.Enquanto me afastava, pensei que eu tava indo embora de tudo nele.E sei que fiquei como um ranço, algo que lateja até que se perdoe. Era ele aprisionado na lembrança do que eu havia sido. Só tive paz mesmo, quando o seu coração desmanchou o hematoma da saudade num choro compulsivo, no colo do melhor amigo. Porque nem calma eu tinha pra ajudar.A carne sempre fraca pra afagar, acabava indo mais longe e tudo voltava ao antigamente.Aí eu tive que ficar quieta no meu canto, toda lacerada pela falta.Foi um período solitário em que vivi o luto necessário.Ele nem desconfiou que eu também estava triste, talvez se sentisse melhor se soubesse.Mas eu tinha que fazer valer minha palavra, demorei muito tempo tomando coragem.Demorei muito tempo desparafusando aquela gaiola e, depois, reaprendendo a voar.

Tive ímpetos de escrever uma carta falando das qualidades dele, de tudo que havia me feito crescer. Mas quando fui escrever só consegui dizer: desculpe, não se pode negociar com a paixão.Porque eu também não entendo às vezes esses caminhos que a vida tece.E nós que morávamos um no outro, ficamos sem casa.
Perdoe a falta de abrigo, é que agora eu moro no caminho.

*

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Marla de Queiroz

domingo, março 18, 2007

Silêncio


Foto:Carlos Neto


Para: Marco Aurélio Guiotti
Tem dia o silêncio espetando por dentro.
E as emoções carcomidas pela falta de.
Fica um embrulho vazio na garganta, eu sei.
Uma bolha de angústia.
O corpo sem responder a qualquer resquício de otimismo.
Nenhuma palavra escorre pros dedos,
mas a mente inquieta.
Silêncio...
Se tem dor dormida dentro,
brasa acesa que não aquece.
Dormência fora, encontro de insônias.
Cansaço sem lugar pra encostar o corpo
por causa do vazio atrás e dentro.
Eu sei como é .
Só se encontra amparo onde há-braços.
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Marla de Queiroz

quarta-feira, março 14, 2007

Espelho

Foto: Ivone Peoples

Eu gosto tanto de você no derramar das coisas simples,
nas flores espargidas nos lençóis de algodão-doce,
jogando os travesseiros de nuvens-fora-cama,
fazendo do meu quarto-templo de quem ama.

Eu gosto tanto de você tocando o meu corpo
(quase sem seus dedos)
olhando nos meus olhos
(como quem captura um segredo)
Poeta procurando apelidos pro desejo.

Eu gosto tanto de você
com todos os seus dramas, vírgulas, quebras de páginas,
reiniciado em seus capítulos, revisitado em suas mágoas,
redescoberto no que há de tão melhor num SIM!

(Eu gosto tanto de você... quando você gosta de mim!)
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Marla de Queiroz

domingo, março 11, 2007

Brain Storm


Foto:João Viegas



Então eu fiquei segurando uma flor vermelha entre os dentes
pra desocupar os dedos e colorir uma frase com a cor toda.
Fiquei foi com o perfume na boca enquanto tamborilava no teclado
qualquer coisa assim, meio sem harmonia...
O sol que arregaçou o céu de azul deu uma trégua há pouco
pra destacar o colorido das borboletras...
(Esse é todo meu assunto de hoje).
Porque tem dia que o silêncio intercalando é como o céu que nubla
pra destacar o colorido das frases.

Vem, que tem beijo perfumado.

(Essa saudade trêmula).
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Marla de Queiroz
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sexta-feira, março 09, 2007

Eu e (alguns dos)meus homens...ou rapidinhas.


Foto: Fernando Figueiredo



Li Platão pra saber que não quero amores platônicos e que a vida real não está no mundo sensível, idealizado.
Aristóteles me ensinou que a metafísica de um relacionamento me seduz mais que a própria química ou o físico.
Descartes me deu a deixa do “gozo, logo existo”.
Quando Sartre me disse que o inferno era o outro, descobri também um paraíso ali.
E Nietzsche matando Deus, me deu permissão pra pecados deliciosos.
(A Igreja me ensinou a pecar).
Hegel era um chato.
Maquiavel me deu estratégias que não usei, não gosto de jogos de sedução, " canso, logo desisto"( Descartes de novo!).
Kant me ensinou que ser racional pode ser bem mais prático que romântico.
Schopenhauer me fez entender sobre a vontade insaciável que nos provoca o tédio.
Já me deitei com Kierkegaard.
Freud me apresentou Édipos, homens que me namoravam porque não podiam casar com suas próprias mães.
Wittgneistein eu abandonei antes de tentar entender.
Heidegger me falou da angústia que nos recolhe e renova.Aprendi muito sobre a autenticidade com ele.
Derrida desconstruiu tudo. Pra Foucault, sexo era phoder!

Mas foi um poeta, Manoel de Barros, que açucarou meu coração com açucenas.

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Marla de Queiroz

terça-feira, março 06, 2007

De-clara-ação de amor


Foto:Hugo Tinoco

De: Marlarida
Para: Leandro Jardim
Porque: Ele é meu parceiro de vida, boemia e poesia,companheiro de viagens (em toda a acepção da palavra) e amigo-mais-que-querido-de-todas-as-horas.

Tuas gotas e pétalas já se misturaram aos meus tantos outros livros favoritos.
Tuas sementes-dedicatórias ampliaram meu afeto pelo Barros.
Ainda, o lirismo do verde que o mar derramou no seu olhar de Jardim
e esse teu jeito de fazer a marla-ri-da risada alta de Irene que há em mim.
Nossos livros...Seremos no auge de uma primavera fértil de outubro, SIM?

Porque é sempre tão bom quando atravessamos o dia de mãos dadas
com a tarde-poesia ou com a noite-prosa
pra sussurrar nas orelhas dos livros da Travessa em Ipanema
nossos segredos-poemas.

(E entre as nossas gargalhadas, ensaios de sonhos e
devaneios alcóolicos em mesas de bar,
um tempo ,há mais:
nossos melhores abraços-abrigo-anti-nuclear!)

P.S.: Se Beber não dirija!

P.S.2: Obrigada por compartilhar tuas belezas comigo.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Batuque Final



Foto: Maria Flores

Não havia o desejo antecedendo o abraço dos corpos
havia apenas uns brindes, o tim-tim no bater de vários,
vários copos.
(Nada que não soterrasse um abismo antigo).
Não olhei pra baixo quando me lancei
da altura da nota que sua voz alcança
.
(Não gritei de medo por temer também o eco).
E, no rabisco de um passo de dança,

lançamos um tango,
e, no cigarro que acendo pra lembrar a cena,
te trago...comigo.


Nenhum drama, era carnaval:
me fantasiei de transgressora
pra me embrenhar nos teus cabelos com cheiro de banho
e desfrutar do que foi tão bom,
mas que já começou
no batuque final.
*
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Marla de Queiroz

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

CINZAS DE UM CARNAVAL

Foto: Maria Flores


Havia uma inquietação no ar.Alguma coisa misteriosa que impulsionava maus presságios.Vestígios da noite passada ainda compunham o cenário do quarto.A presença toda dele depois de tanta ausência.Os dois recém-saídos da mesma história, reféns de seus afetos, carências e, novamente aquela urgência de fome um do outro sendo consumada naquele espaço.Não sabia ao certo como foram parar ali, quem propôs o quê, quem pagou o táxi. Fora a quantidade de preservativos usados, pouca coisa tecia um detalhe ou outro.Olhou ao redor, o corpo afundado na cama, uma indisposição de retornar à rotina, a preguiça de fazer um café amargo pra curar a ressaca. Cortinas fechadas, um fiapo de dia recortava desenhos na parede azul.Em algum momento quis olhar pela janela: a paisagem cinza, não havia sol.E o passado instalado ao lado direito da cama, impregnando o lençol com o cheiro dele tão familiar, quase esquecido.

Relembrando o encontro na noite anterior,nem sabia que quando o viu ainda havia um pingo de saudade daqueles olhos bêbados.Estavam alegres no mesmo bloco, amigos perdidos na multidão. Fizeram-se companhia e depois do gole na cerveja quente, um beijo. Cansados, sentaram na areia contemplando o mar e dissertaram brevemente sobre suas vidas: tanto tempo, outros namoros terminados, referenciais desfeitos, uma ou outra paixão platônica, mas nada tão intenso, tão estável, duradouro.
“ Você encontrou, finalmente, a sua mulher ideal?”...” Sim, mas a perdi de vista quando não acreditei que eu a merecia”...” E você, amou alguém?”...”Talvez, parece que depois que acaba não se sabe mais ao certo o que nos uniu”.

Ele ainda dormia quando debruçou seus olhos naquela imagem e sentiu um restinho de saudade de abraçá-lo como antes, de encaixar-se naquele corpo, abandonada. Foi então que ele abriu os olhos.Aqueles olhos bêbados. Em seguida abriu um sorriso, os braços e a puxou pra perto. Beijou sua testa, seu rosto e disse um "bom dia" preguiçoso antes de vestir a roupa com uma expressão impune.” A gente se vê...”, disse juntando a chave, a carteira, o celular...” Te ligo qualquer dia desses...”fechando a porta atrás de si.Deixou-a com a frase evasiva ecoando, costurando desfechos.Deixou uma inquietação que se pensava superada.Agora restava recomeçar algo que parecia ter completado, teria que recomeçar a esquecê-lo.


Afundou a cabeça no travesseiro, cobriu o rosto com o lençol e tentou retomar a consciência de que os elementos que tinha não eram suficientes pra recompor um romance despedaçado.Talvez apenas lhe rendesse mais um desses poemas que doem.

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Marla de Queiroz.

P.S.: Texto escrito para revista DROPS RIO 2ª Edição.



quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Sofia De Lira (sobre a raiva)


Foto: Eduardo Carlos
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Ah, deixe-me reclamar um pouco de tudo e querer coisas absurdas como alfabetizar o sol! Eu sei quão bela é a vida, sei que as coisas que não são fáceis inda assim são simples.Mas quero berrar minhas angústias até fazer as pazes com meu silêncio novamente.
Ah, deixe-me experimentar essa ira e dar socos no ar até trincar o vento que vem de encontro aos meus passos dando mais peso e lentidão a minha caminhada.Meu grito ou choro não é falta de esperança, é um respeito profundo por mim quando me sinto fragilizada.Se estou dramática, ainda não cheguei aonde quero: quero ser trágica!

A inquietação tamanha desses dias todos me arrastou pra praia com papel, caneta e uma raiva enorme de tudo.Cheguei arrastando a cadeira, entediada, e o mar estava mais violento que eu, me redimindo. Tão agressivo, era capaz de engolir um corpo, uma gaivota e de cuspir cristais de sal na brisa doce.(Por que eu deveria estar mais calma que ele?) Fiquei foi com inveja do seu poder de arrebentar tudo com tamanha simplicidade e destreza.E de cuspir o lixo acumulado deixando na areia um retrato dos maus-tratos: restos de plástico, pombos e moscas sobrevoando a podridão.Porque, assim como ele, eu não engulo sapatos.

No meio de toda raiva sendo expulsa, pensei por que não se pode ser autobiográfica ou agressiva sem pedir desculpas com tanta antecedência. Quero só olhar, sem observar, sem absorver.Quero dizer sem atribuir juízos de valor, só pra desabafar.Quero poder sentir essa raiva sem ter que lidar com a indignação de quem me quer doce e positiva sempre porque se acostumou.E depois, quando a raiva for embora, não pretendo me resgatar, mas me reinventar e ficar o tempo que for necessário me redescobrindo...

Não queria ter de pedir licença pra honestidade neste espaço, mas seguindo a moral e os bons costumes, eu peço delicadamente:
Pra você que leu esse texto até aqui, por favor, se pretende comentá-lo ( não quero intimidar ninguém), não me deixe um consolo, um conselho ou termine com um "fique em paz".Não quero que me roubem um segundo dessa fase, desse instinto primitivo, ele é precioso.A paz eu conheço e ela não está ausente, só quero experimentar até aonde meu ser alcança, a totalidade. Eu quero estar plena de todas as emoções pra que elas não me governem, mas passem por mim. Quero me permitir cada segundo desse ranço, porque eu o sei tão transitório quanto o maior dos mais definitivos amores. E se ainda assim quiser deixar o seu rastro, me fale de tua dor, tua alegria, tua conquista, tua pendência, teus planos, tua raiva, me conte uma mania tua, compartilhe tuas belezas comigo para que eu possa aprender com elas.
E me deseje inspiração ....( a única coisa que quando falta, me tira a paz).

PS: Só lamento este texto ter sido escrito num dia de tanto sol.
PS2: Não lamento coisa alguma!
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sábado, fevereiro 10, 2007

Derramamento


Foto: Geisa
Dentro de mim, existe um Espaço Sagrado onde guardo minhas preciosidades.
Às vezes faço uma faxina lá e mudo tudo de lugar.Não é por maldade, é só vontade de ver um outro ângulo das coisas. Eu não gosto do olhar acostumado.Não gosto de ver um objeto num objeto, porque tudo pra mim tem entidade humana.E gente me tira o fôlego, vejo belezas demais quando amo, e amo sempre e tanto.
Às vezes eu desapareço mesmo, porque fico tão cansada.Fico tão cansada daquele cenário.Fico tão cansada daquele amor.Tão absurdada pelas coisas,me exaspero.Sempre é tanto.É que vivo num derramamento espesso de sentimento.Aí eu mudo o foco que é pra não cansar o outro também.Ou, às vezes eu não quero cuidar da ferida de ninguém, tão cansada que fico.Ou aquela alegria dele merece ser comemorada com outras pessoas porque estou no meu momento pleno de esvaziamento em que até a sedução me cansa.E só a solitude pode me acalmar.Por isso tão pouco escrevo.(Perdoe a carta não respondida).
Por isso durmo antes do sono.
Por isso, às vezes, tudo tão esquisito e ausente em mim.

Não sou sempre flor.
Às vezes espinho me define tão melhor.
Mas eu só espeto o dedo de quem acha que me tem nas mãos.
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Marla de Queiroz

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Sofia De Lira ( a personagem )... ou véspera de um Carnaval.

Gustav Klimt
Ela certamente poderá ser encontrada dentro de um quadro de Klimt,
nos bares com um Bukowski, num filme do Almodòvar,
numa música do Chico Buarque...
Seu despudor faria corar de vergonha Hilda Hilst,
sua sexualidade exacerbada encabularia Simone de Beauvoir.
Todas as tardes ela contempla o dia morrer na beira de um lago
namorando Narciso, esperando Godot.
Ela é aquela cujo sobrenome é verbo.

(Pode ser que alguma coisa dela fique entranhada até doer em você).

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

A eternidade de um breve instante.

Foto: Pedro Moreira

E, subitamente,

a chuva se desinteressou pela noite.

Num descuido de nuvens,

sobre o mar,

as estrelas encharcadas foram

rasgando um caminho

e uma lua menininha nasceu com cara de choro.

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Marla de Queiroz