quinta-feira, junho 28, 2012

Sobre adicionar e remover


Foto: Bruno Fagotti


Tenho tentado não agir por impulso. E vejo com clareza, após pensar, repensar e estudar os vários ângulos possíveis de uma situação, o que devo remover e acrescentar na minha vida. Infelizmente, isto também inclui pessoas. E pessoas que, em determinado momento, tiveram uma importância primordial na minha existência. Mas eu mudei, elas mudaram. E não foram apenas as idiossincrasias que nos afastaram, mas simplesmente, ter valores que não se casavam mais, desconfortos maiores que alegrias, disputas estéreis, uma necessidade insaciável de despertar emoções negativas, e um vácuo enorme onde havia abraço. Onde havia amor (?).
Não foi fácil, não tem sido, mas tenho me sentido mais coerente com as coisas que me propus a viver. Com as coisas que eu tenho para dar e derramar. Com o espaço que abro para o tipo de relações de trocas reais, de afetos sinceros, de atitudes maduras, de comportamentos honestos. Não quero amar apenas quem é amorável, quero amar quem merece ser amado. Por causa e apesar de. E eu brindo o que é recíproco mesmo que não seja idílico. Tenho plena consciência de que na diferença que o Outro me traz é que aprendo, mas que venha com transparência. Eu prezo pessoas de verdade, estas me são caras. Os fakes eu respeito e deixo que sigam. Não há problema nenhum em nada e ninguém, desde que eu saiba que sobre a minha vida, a mim me cabem as escolhas. E eu dou o meu melhor e mereço receber o melhor também.
E todo este meu trabalho interno poderia ser resumido assim: eu quero crescer para mim mesma.

Marla de Queiroz

terça-feira, junho 05, 2012

Viagem




Não encontrei o mar revolto em Pessoa, mas vi em Hilda Hilst seu jeito destemido de ser tão obscena e obcecada. Não fui moça casadoira como Adélia Prado, eu me inseri na babilônia da lascívia de Anais Nin, entre a loucura, a delícia e a razão fantasiada. Eu quis salvar a vida de Ana C. que virou passarinho em Manoel de Barros. Estive com Clarice, Caio e Mia Couto, mas quis que Guimarães me amasse qual neblina Diadorim: faltou meu Riobaldo, um rio nosso, terra seca e a boca molhada de neologismos pra mulher amada.
 (Fui quase injusta em desejar que as coisas tivessem sempre um real tamanho, que as fomes fossem saciadas sempre pelo melhor gosto, que a chuva só desabasse em tempos de matar a sede.) Tranquei meus dias ruins nas cores de um Miró aceso. Fui tão constrangedora não sendo infeliz como escritora, preferindo de qualquer maneira a incerteza da existência da verdade inteira. Se quase sucumbi num poço de tristeza, me reergo até hoje, constante e amiúde, fazendo o meu melhor_ fiz o maior que pude. Mas não me preservei: ainda sou lanhada pelos galhos de matas fechadas que são o meu altar, minha estrada.
Engulo o amargo da saudade sem fazer careta, absorvo o azedo da rejeição sem me achar menor, abro os braços para a escuridão contando estrelas, gasto cada gota de suor e sangue nas minhas entregas. E não economizo gargalhadas, mas pago o preço alto do inconveniente de viver no mundo paralelo e metafísico onde vivem as palavras.
Estive em muitas páginas. Grifei muitos parágrafos. Sorvi tantas inglórias e orgasmos e vitórias.
E estive com você além de mim. Fui burra, mas foi bom. Fui pura, mas fui tola. E toda a malícia vinda na hora inadequada me fez desconfiada por tudo, por nada.
Eu tenho um jeito enorme de amar pra sempre, mas sou desajeitada.
Eu tenho um jeito imenso de ser comovente, mas sempre concluo as histórias na hora errada.

Marla de Queiroz

terça-feira, maio 08, 2012

Celebro a Ação

 Foto: Eu mesma!


Meus dias têm sido de celebração: celebro a ação de me pôr em movimento ao encontro daquilo que almejo, celebro a ação de resolver minhas questões internas que me afastam de quem me incomoda, mas que ainda me importa. Celebro a ação de me causar bem-estar estando com as pessoas que me amam e em lugares que amo. Celebro a ação de ser grata por ter todas as minhas faculdades perfeitas e um bocado de loucura para ousar nas mudanças que preciso e crescer por dentro. Celebro a ação de não competir com ninguém, pois tenho tudo o que preciso e saber que o que tenho foi conquistado por mim. Celebro, diariamente, a ação de ter criatividade_ de criar atividades que me tirem da estagnação espiritual, emocional, pessoal. Celebro a ação de renovar meus valores para que eles sejam justos. Celebro a ação de não ocupar meu coração com desesperança e preconceitos ou coisas que aprisionem minha alma na limitAÇÃO. Celebro a ação de me importar primeiro com as pessoas, depois com as coisas. Celebro a ação de ser profunda nos meus devaneios, celebro a ação de ser superficial em alguns desejos e poder me permitir ou rir deles. Celebro a ação de mudar de ideia, de certeza, de narrativa, de estado de espírito, de aparência, de preferências, de vida!
CelebrAÇÃO não é lamentAÇÃO, por isso, celebro!

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Marla de Queiroz

sábado, abril 28, 2012

Sobre Vazios


Na foto: Eu mesma! rsrsrsrs

Passei muito tempo tentando “suprir meus vazios” até descobrir que o que apertava o meu peito era a quantidade de entulhos emocionais que eu carregava. Eu precisava era do vazio para me sentir internamente arejada e com bastante espaço para crescer. A angústia não é um vazio, é uma corrente que se arrasta. O vazio é uma possibilidade, uma lacuna a ser preenchida, um espaço para uma decoração nova. Precisamos de páginas em branco para que nasçam poemas, de recipientes disponíveis, de um coração espaçoso, de uma alma livre, de uma mente aberta. O vazio só existe para os desapegados, para os que suportam e celebram o silêncio que possibilita-nos ouvir os sussurros da intuição e não os gritos infantis dos desejos imediatos. O vazio é uma esperança maciça. Ele não é apenas a falta que nos move e motiva, mas a lembrança mais genuína de que somos seres inacabados e que precisamos nos construir diariamente, incansável e eternamente. O vazio não é um abandono de si, é um reconhecimento do eu, um convite para o Outro, algo que deve ser preenchido temporariamente, dentro do mesmo movimento humano de acordar sempre um desconhecido. O vazio é uma curiosidade que ainda não foi desvendada. É ter braços livres para o abraço que acabará daqui a pouco, mas que ecoará constantemente na lembrança mais bonita. Porque no toque intenso, o afeto estava leve.
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Marla de Queiroz

quarta-feira, abril 18, 2012

Reflexões sobre “algumas amizades”



Foto: desconheço o autor

Há tempos minha vida deu uma guinada após um longo processo de depressão e exílio voluntário. Estive muito fragilizada e, inicialmente, fui amplamente acolhida por “alguns amigos”. Como a minha situação emocional se agravava cada vez mais, eles foram se afastando e, naquele momento, o contato com as pessoas também parecia não me apetecer mais, pois, provavelmente, eu não estava sendo uma boa companhia: queria viver o meu fundo de poço, sozinha. O que aconteceu, é que depois de muito sofrimento, enjoei daquela dor e daquele abandono de mim mesma_ resolvi reagir e procurar ajuda_ espiritual, profissional e etc. E, da mesma forma que me entreguei àquela situação deplorável e me permiti vivenciá-la até a total vontade de desistência da vida, renasci INTENSA e INTEIRA, com uma disposição absoluta para ser feliz.
Tem sido assim desde então. Não há um dia sequer que eu não faça algo que me permita gargalhar por um bocado de tempo. Não há um minuto em que eu não entre em contato com a minha essência, que é de alegria. Não há momento algum em que eu não me permita brincar para aprender a ser leve, ou pelo menos, estar leve! E resgatar essa minha sede de vida me encheu de uma gratidão profunda e me fez olhar para as minhas conquistas e não apenas para os meus desamparos.
Por muito tempo me deixei ser acompanhada pela angústia e me abracei a ela. Nesta fase, meus “alguns amigos” se sentiam “úteis” porque estavam “superiores” quando “cuidavam” de mim. Mas o que eu não sabia é que insuportável seria minha ascensão, minha alegria. Se antes eles estavam disponíveis, hoje eles apenas sentem saudade. Se antes eles eram o meu bálsamo, hoje eles são uma lembrança bonita. Se antes eram presença, hoje são mais um avatar no facebook que não têm tempo para um encontro real... É por isso que me pergunto: e se não houver o amanhã? Todos andam muito conectados, mas absurdamente indisponíveis... E falam do amor de uma maneira incrível, mas não conseguiram transcender à palavra a ponto dela se tornar uma verdadeira experiência.
Refletindo sobre tais situações, percebo que por determinado tempo, é preciso que exerçamos o amor e a gratidão pelo amparo que nos foi dado no momento mais difícil e que tentemos compreender por que, consciente ou inconscientemente, o Outro ficou tão desconfortável por eu ter me tornado uma pessoa saudável, viável, produtiva. Mas é preciso também, após o tempo dado para que o Outro se resolva, dar-se o mesmo para refletir: como me sinto em relação às atitudes dele?E é isso que tem me importado.
Sei que amar o Outro abrange uma dimensão muito mais complexa do que apenas compreender as idiossincrasias, mas amar-se abrange também um universo muito maior que aceitar que o outro só ame o que há de mais frágil em você... E, se eu gosto de conviver com a força que habita em mim, a escolha desta alternativa faz com que eu prefira que o Outro se afaste ao meu autoabandono novamente. 
Não é fácil, mas eu tive que aprender a tornar isto simples.

Marla de Queiroz

domingo, abril 01, 2012