quinta-feira, outubro 25, 2012

DESPEDIDAS



Pessoas vão embora de todas as formas: vão embora da nossa vida, do nosso coração, do nosso abraço, da nossa amizade, da nossa admiração, do nosso país. E, muitas a quem dedicamos um profundo amor, morrem. E continuam imortais dentro da gente. A vida segue: doendo, rasgando, enchendo de saudade... Depois nos dá aceitação, ameniza a falta trazendo apenas a lembrança que não machuca mais: uma frase engraçada, uma filosofia de vida, um jeito tão característico, aquela peculiaridade da pessoa.
Mas pessoas vão embora. As coisas acabam. Relações se esvaem, paixonites escorrem pelo ralo, adeuses começam a fazer sentido. E se a gente sente com estas idas e também vindas, é porque estamos vivos.
Cuidemos deste agora. Muitos já se foram para nos ensinar que a vida é só um bocado de momento que pode durar cem anos ou cinco minutos. E não importa quanto tempo você teve para amar alguém, mas o amor que você investiu durante aquele tempo. 

Segundos podem ser eternidades... ou não. Depende da ocasião.

Marla de Queiroz

terça-feira, outubro 23, 2012

(INS)PIRE




Que venham as palavras: nocivas, indecisas, despudoradas, vestidas de dores, de mágoas, de raivas. Que venham como quiserem, que se ofereçam delicadas ou urgentes, despidas de tudo, eloquentes, mas que sejam transparentes. Que venham sem falso moralismo, sem recalques, sem alegrias artificiais, sem entusiasmos opacos. Venham palavras: inocentes, indecentes, inexistentes. Componham frases, poemas, cartas, bilhetes, músicas. Venham livres, eufóricas e aladas, sem apego ao poeta-instrumento, à paisagem, ao sentimento, a nada. Venham vivas, mesmo que para falar, acidamente, dos mortos que ainda não foram enterrados.

Marla de Queiroz 

quinta-feira, outubro 04, 2012

Eu me perdoo




Eu me perdoo porque em vários momentos, fui injusta com vocês, comigo. Deixei que as minhas expectativas se tornassem exigências e julguei pessoas inteiras por causa de uma única atitude. Eu me perdoo porque na tentativa diária de acertar, cometi inúmeros erros por medo de errar. Fui áspera quando estava assustada e precisava pedir abraço, ajuda. Fui dócil por interesse, por necessidade de ser aceita para minha falsa completude. Eu me perdoo porque, não estando inteira para mim, doei fragmentos do que eu tinha, fui cínica com a minha poesia, falei de amor quando o que eu sentia era carência. Eu me perdoo por tantas vezes, não perdoar tua displicência, invadir tua individualidade, reclamar tua ausência. Eu me perdoo pela falta de compreensão e paciência com as minhas limitações e com as suas. Eu me perdoo por tirar a roupa quando você queria me sentir emocionalmente mais explícita, não apenas me ver nua. Eu me perdoo por ter me anestesiado tanto tempo e desrespeitado minha angústia, negligenciado qualquer aprendizado que trouxesse sofrimento. Eu me perdoo por rasurar com minhas autocríticas, os meus melhores momentos. Eu me perdoo porque sou imperfeita e humana, mas já pretendi a perfeição do Outro, mesmo não havendo importância ou a possibilidade disto. Por querer receber aquilo que nem eu tinha para dar. Por insultar querendo que a mudança fosse alheia porque julgava ser do Outro o medo de transcender, de transmutar. 

Eu me perdoo por ter vivido por tantos anos sem me perdoar.

Marla de Queiroz

terça-feira, outubro 02, 2012

Agora jaz





Eretas tuas palavras,
imponente teu discurso
viril todo o teu porte.
E o tempo estendido
empregado em discorrer
sobre as tuas qualidades
e sobre o meu decote.

Foi forte a sedução
desse teu corpo quente,
pegada obstinada.
A argúcia e a certeza
de que eu era a
tua presa adequada.

Mas bem na hora exata
da entrega insensata
em que me fiz constante,
fiel àquele instante...
Tua fala feito faca
soberba, inesperada.

Desisto na hora certa
mesmo te parecendo errada:
pois transo com pessoas,
pra estas eu me entrego.
Não trepo com seus egos.

Marla de Queiroz

sexta-feira, setembro 21, 2012

No mais, não mais.




É porque você se acostumou com o afeto que tenho pelos meus amigos e imaginou que quando eu estivesse com você não seria áspera em momento algum. Mas acho que se a poeta se fundiu com a pessoa em sua cabeça, você não estava totalmente errado, mas esqueceu de ler algum texto em que falo da minha incoerência e das minhas fúrias súbitas. Sim, eu sou muito dura às vezes e separo muito bem amor de sexo. Não acredito que ofegâncias sejam indícios de paixões, desculpe. E me irritou você se apaixonar por exatamente o que viu em mim, por esta nudez exposta aqui e, depois ficar ditando como eu deveria agir, posto que a sua sensibilidade é exacerbada demais para as minhas ironias. O que adiantaria dizer que eu estava apenas brincando se você perde todo o senso de humor para se magoar e ficar rancoroso para o resto da vida? Penso como deve ser pesado aprisionar na lembrança tantos defeitos pessoais que não sejam seus, carregar as pessoas nas costas (imaginariamente) para depois devanear sobre alguma vingancinha pueril.
Então deixa eu te contar uma coisa: eu sou coberta de defeitos. Eu sou a pessoa mais estranha que conheço. E a mais amorosa também. Mas me posiciono acidamente quando me sinto invadida: eu não sou fofa, meiga ou doce. Não me preocupo com o que pensam de mim, mas se estou sendo justa e sincera. Eu prezo pela transparência e não seduzo levianamente. Talvez este meu modo de agir e de deixar tudo às claras tenha te decepcionado. Infelizmente, isto não me incomoda de maneira alguma, porque acho que fiz o que deveria ser feito. Mas eu nem sempre estou certa. Eu não tenho a pretensão de estar sempre certa. Eu nem acredito em certezas, acho.
No mais, você é alguém que eu indicaria para as minhas amigas mais “meigas”, mas o teu lado “chateado-com-o-tom-do-seu-bom-dia” não me comove, incomoda. A minha suposta esquizofrenia pode não ser um defeito, mas minha característica. Você esqueceu que sou humana demais mesmo quando, emocionado, leu “Poema em Linha Reta” do Fernando Pessoa dizendo que estava farto de semideuses. Sou “a gente deste mundo”. Sou disponível, mortal, na maioria das vezes indiscreta e exageradamente espontânea. Eu não sou convencional. E gosto de homens que bancam esta excentricidade. Descobriu onde acabou a nossa eletricidade? Então fiquemos por aqui. Impossível continuar tateando no escuro em busca de alguma saída. Não agora. Eu tenho um par de asas: existe um céu imenso... lá fora.
*
*
Marla de Queiroz

terça-feira, setembro 11, 2012

Parem tudo!


Voltando para casa depois de um dia, mais um dia. Parem tudo! A noite nasceu e as estrelas se exibem no céu. Os carros transitam normalmente e as pessoas olham para o chão! Parem tudo! Existe alguém morrendo de saudade num quarto qualquer.
Existe alguém tendo o melhor orgasmo da sua vida no chão de uma sala comum. Existem Alguéns. Parem tudo! O dia acabou, mas o tempo continua sua jornada, mais uma ruga nas horas do relógio inventado, mais uma cicatriz na lembrança da história quase acabada. Parem tudo! Um amor principia com um simples tocar de ombros no metrô. Uma semente abraçada por um solo fértil se prepara para virar flor. Parem tudo! Uma pessoa em fase terminal acaba de se curar! Uma estrela riscou o breu, mas não caiu no mar. Parem tudo! Guardem um pensamento bom, toquem nisto que é tão abstrato, mas que chamamos de vida e durmam tranquilos com aquela esperança de ter mais que este momento, de poder dormir e acordar!
Parem tudo, ainda é hoje! Temos apenas este agora! Vamos nos abraçar?

Marla de Queiroz

segunda-feira, setembro 10, 2012

AINDA


Ainda arfa o peito, a lembrança intensa da tua boca úmida em meu seio. Ainda pulsa quente, teu apetite penetrando a fome do meu ventre. Ainda o teu cheiro em meus cabelos, tua mordida em meu pescoço. Ainda o teu olhar no meu, nossa saudade escandalosa, a eternidade do beijo que vai durar pra sempre... agora. Ainda tua risada da minha gargalhada, a piada sem graça, este estado de graça, o bem-estar de estarmos juntos. E este enrosco espalhando digitais por todo o corpo. Ainda estas vontades sem freios porque são teus meus anseios. Ainda este sussurro gostoso, ao pé do ouvido, depois do gozo. Ainda o mundo lá fora, o vento levando a cidade embora e o nosso passeio no espaço... sem tempo. Ainda é meu, seu, nosso este momento.

Marla de Queiroz

terça-feira, agosto 21, 2012

Apenas algumas divagações




O corretor do word nunca aceita a minha construção de frases e tenta me convencer de que tenho uma maneira errada de dizer as coisas. Brigamos constantemente porque sei que ele não entende muito de licenças poéticas. Mas me incomoda o sublinhado embaixo de fases inteiras. Por que não posso escrever no contrafluxo dos sentimentos?
O corretor de imóveis nunca entende ou encontra o tamanho do lugar em que eu consigo caber. Eu não posso abandonar meus livros e abrir mão de acordar com a luz do dia. Eu só durmo em paz na minha cama box e preciso de um guarda-roupas grande. Por que não posso querer as coisas do tamanho que eu acho devam me acolher?
O corretor de confusões mentais leia-se terapeuta, nunca conseguiu me convencer de que eu precisava me desvencilhar do caos. É dentro dele que eu encontro força para me equilibrar. É dentro desta desorganização absoluta que eu consigo encontrar o ineditismo da criação. Por que não posso ser diagnosticada como autêntica, em vez de complicada?
O corretor de rasuras, “liquid paper”, nunca me pareceu útil. Gosto das palavras riscadas como um “ato falho”, o dito que não pretendia dizer nada... Por que não se pode desabotoar num texto aquilo que não se pretendia explícito?
Sempre achei que o papel da poesia era apenas desencadear emoções ou socorrê-las. Nunca corrigi-las. Mas fico relendo o que escrevi nas minhas narrativas e procurando equilíbrio no meu jorro de palavras. Como domar a escrita instintiva, intuitiva?
O moço que me amava e não era correspondido, dizia que tenho medo de amar. Expliquei que não era medo, mas desinteresse. Por que algumas pessoas não conseguem escutar exatamente o que foi dito pra tentar corrigir nossa recusa catando ilusões nas entrelinhas?
Por que essa tentativa de resgatar o que já nasceu desperdiçado?

Marla de Queiroz

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domingo, agosto 19, 2012

RECUSA


“Tudo que eu queria era estar dentro de você agora, neste domingo, às 07h da manhã”, me diz ao telefone. Respondo com voz sonolenta e um tanto sarcástica: “veja como a vida é irônica: estou a 16 km do seu desejo e a 100 anos-luz da minha vontade de satisfazê-lo... O amor da minha vida está a 1.873 formas que inventei de dizer EU TE AMO e, neste momento, deve estar dormindo com outra. Seria maravilhoso se só quiséssemos o inevitável, não?”.  Sei que meus comentários o aborrecem, mas o seu desejo o emburrece, e mesmo sendo inteligente, não aceita minhas recusas nem quando elas são feitas com todas as normas da Nova Reforma Ortográfica.

Desligo, tento voltar a dormir. Tarde demais, o dia anuncia muito sol, pretendo praia, desisto, escolho um filme, assisto, mas ainda é muito cedo para ser tarde demais. Algumas lembranças começam a perturbar, eu não precisava lembrar o amor-da-minha-vida-com-outra para ser cruel com o Outro. Repenso o que eu disse: “seria muito bom se só quiséssemos o inevitável, não o impossível”. Seria.

Marla de Queiroz

quinta-feira, agosto 16, 2012

SEXO E AMIZADE



Era desconcertante, mas me excitava a forma como me ele olhava: era um misto de quem procura poesia na poeta e espera algo mais misterioso na mulher que se despe a sua frente. Mas eu sou falante, risonha e brinco demais na maior parte do tempo. Ele ria, alcançava o raciocínio dos meus comentários e rebatia lindamente. Apenas parecia não esperar que eu me despisse com tanta praticidade sem fazer muitos rodeios, pois eu sabia que faríamos sexo, tinha ido visitá-lo para isto. Claro que a poeta também estava em ação, não resisto: sempre acabo sussurrando alguma coisa erótica nos ouvidos, durante o ato ou enquanto me prolongo nas carícias. 

Ele era interessante, interessado. Mas não seria nada além de um parágrafo na minha “autobiografia não autorizada”. Não era uma questão de quem estava “usando” quem, seria só uma noite de sexo para mim, talvez para ele também. Sexo com alguém excitante e viril, inteligente, atencioso, mas que parecia mitificar demais a poeta que escreveu o livro. Leu a minha flor de dentro mais explícita, mas esta não tinha sido inspirada nele.

As coisas se sucederam como se sucedem as noites de sexo bom. Apenas isto. E eu continuei ilesa, mas com mais uma lembrança bonita. Não é frieza, não é desacato ao romantismo ou falta de lirismo, é só uma forma lúcida de expor a realidade: “sexo e amizade, topa?”

E eu poderia ter me apaixonado, assim como ele: nunca saberemos. Mas o fato de ter sido muito bom não foi o suficiente. Talvez eu me apaixonasse mesmo que não tivesse sido. (Eu me apaixono pela pessoa antes do sexo, eu me apaixono por um detalhe anticonvencional, às vezes pelos defeitos ou pelo aspecto considerado mais banal).

De qualquer forma, ele não me telefonou no dia seguinte, e eu já sabia: não dei a ele meu contato... Foi apenas mais um romance desses que são eternos... durante um dia, durante o ato.

Marla de Queiroz


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segunda-feira, agosto 06, 2012

Inadequação



Percebi que, na maioria das vezes em que sofro, é por causa de uma sensação de inadequação. É como se eu não conseguisse cuidar direito da minha vida, do meu mundo, da minha rotina, de mim mesma. E passo o dia esperando que chova ou faça sol porque pode ser “culpa” do cenário que não está combinando com o meu estado de espírito naquele momento. Tolice... Logo amanhece e fica tão claro que o Universo não tem absolutamente razão ou possibilidade alguma de se adequar a mim. Eu tenho que me adequar às mudanças constantes_ enormes, bruscas ou sutis e pequenas_ mas sempre relevantes, contínuas.
Hoje eu acordei mais adequada, excentricamente adequada. E passei o dia me divertindo com a minha exuberância emocional. E leve, leve, porque tudo é tão breve. E o dia acabou, e no sábado fez sol, e no domingo choveu e a segunda-feira, para muitos, foi mais um dia preguiçoso, e para mim, uma semana em branco começando. Tudo tão irresistível, dias versáteis com calor e frio e a possibilidade de mudar de figurino para me adequar ao cenário.
Hoje eu senti muito amor pelas coisas, pelas pessoas. E senti saudades sem apegos, eu estava inteira no meu dia. Percebi que sofro, quando me doo em fragmentos, desalinhada, em conta-gotas. Quando não existe entrega no que faço, uma parte de mim fica em algum lugar desconhecido e eu perco muito tempo em busca dessa parte. Quando eu me desconecto da fé e da confiança na vida, eu sinto medo de existir. Por isso, quando sofro, eu me investigo. Porque o sofrimento, definitivamente, sente-se inadequado em quem aprendeu a gargalhar com o corpo todo.

Marla de Queiroz 

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quarta-feira, julho 25, 2012

DIA DO ESCRITOR



Gosto de muitas coisas,  faço diversas outras e tento otimizar o meu tempo da melhor maneira possível. Mas escrever é minha essência, minha inquietação, meu alívio. É o que me move, salva, aprimora. As palavras são pessoas que abraço com toda a candura do meu coração. Com elas aprendi a ter compreensão (porque nem sempre se disponibilizam quando quero e da forma que idealizo) e paciência (para esperar o momento em que haja uma comunhão, uma reciprocidade neste meu namoramento com elas). As palavras cobram de mim honestidade e nudez, não há como ser leviana com um amor tão bonito (sim, aqui cabe esta redundância). E é nesta minha tentativa de achar conforto dentro do caos, que alguns corações acabam encontrando acolhimento nos meus textos. Porque, às vezes, eles são uma bronca, ou um incentivo, ou a tentativa de mostrar um ângulo novo do mundo, um sopro de esperança, mas, sobretudo, meu jeito de tentar cumprir minha missão nesta existência. Sei que esta identificação dos meus leitores é consequência da minha humanização: falo sobre coisas universais, coisas pelas quais eu passei ou passo como amor, separação, reconstrução da autoestima, etc... Eu não saberia superar um dia se eu não pudesse ter algum contato com a palavra. Esta é a minha co-dependência. Esta é a minha insônia. Esta é a minha renovação, minha alegria. E sou grata ao Universo por, às vezes, apenas uma frase ser o antídoto das minhas emergências.

Obrigada por fazerem este trajeto comigo.
*
Marla de Queiroz