domingo, julho 17, 2011

Um novo retrato 3 por 4


Minha foto by Lua Leça

Talvez eu nunca tenha sentido as coisas assim, tão genuinamente: a raiva, o amor, a alegria, a tristeza, a ansiedade, o afeto, o sexo. As minhas emoções têm emergido sem qualquer filtro, sem qualquer disfarce. E pela primeira vez eu me permito ficar com elas dando a cada uma a importância que me pedem, porque elas não me governam, são apenas emoções, são a minha transparência.

Sempre confundi a espiritualidade com um estado de bom-humor contínuo, uma expressão caridosa constante e a compaixão sempre presente. Talvez por isso, até a alegria me doesse às vezes, pois no fundo, eu queria esconder que dentro de mim havia também certo egoísmo, uma maldade latente, uma força para machucar que é nada além de uma forma humana de defender-se da ilusão de que algo possa feri-lo fundamente. Não respeitava meus instintos quando queria ser a melhor companhia para os outros o tempo todo. E errei muitas vezes na tentativa de acertar. E me feri em diversos momentos dando aquilo que eu não tinha ou queria. Sendo alguém que eu não estava.

A aceitação que eu buscava vinha de uma falsa compreensão que eu oferecia ao outro. Quantas foram as vezes em que eu simplesmente estava entediada com o drama alheio e me fiz prestativa e disponível no instante em que eu só queria respeitar minha vontade de solitude e ficar absorta nos meus próprios devaneios. Quanto tempo foi gasto procurando coisas e pessoas que preenchessem minhas lacunas quando eu apenas precisava do vazio; de estar comigo na feiúra e na beleza que carrego.

Como me arrependo do choro engolido, do elogio economizado, do insulto recebido sem me posicionar, da trepada sem afeto, do poema forçado, do colo que não pedi, do conselho que dei quando eu mal sabia de mim mesma, da ferida que causei por um motivo qualquer, da ferida que me fizeram e que não curei com o perdão.

Quantas palavras foram gastas para falar do silêncio. Quantos abraços foram aceitos impregnando o meu campo energético com um peso denso, e quantas vezes me protegi de uma carícia sincera. Quantas vezes suguei e fui sugada chamando isto de bondade. Quanto mais adequada eu tentava ser, mas eu me perdia do que eu era. E abafei minha loucura no peito comprimido para ser socialmente agradável. E escrevi coisas otimistas quando estava sofrendo de tanto medo. E ninguém sabia que aqui do outro lado eu estava chorando. E deixei que me julgassem sábia quando sou apenas mais uma buscadora tateando no escuro à procura da luz que pretendo beber a grandes goles.

Sou tão humana, Meu Deus! E no processo de lapidação, joguei fora algumas das minhas arestas, que talvez fossem o que eu tinha de mais valioso. Sou apenas alguém que escreve, que oscila, que anseia, que sofre, que ama, que acorda de madrugada pra pensar e tem inveja dos que dormem tão profundamente àquela hora. Não tenho nada que outra pessoa não possa desenvolver também. Não há limite que eu não possa superar. E se você me encontrar por aí, ou por aqui dizendo coisas e mais coisas, duvide de mim também. Sou apenas mais uma na multidão que, enquanto caminha, vai deixando pra trás certezas, adereços, endereços...

Sou apenas mais alguém que.

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Marla de Queiroz

P.S.: Lembrem-se de votar no selinho no canto direito, TOP BLOG 2011, categoria variedades.

sábado, junho 25, 2011

Flores de Inverno


Foto: desconheço o autor

Talvez haja muita acidez na lucidez, talvez haja a percepção de detalhes das belezas que nunca reparamos. Quando estamos num turbilhão emocional, as imagens turvas pedem anestesias e a gente acha que obtém algum controle sobre as coisas, porque pensamos que podemos deixar pra cuidar da nossa vida amanhã. Mas à medida que protelamos nossa transformação, à medida que adiamos nossa mudança, adiamos também uma forma nova de sentir outras alegrias. E fechamos os olhos pra quem está ao lado, ou banalizamos um possível encontro que poderia desencadear uma história mais bonita. Ter a felicidade como um propósito, é a coisa mais difícil que conheço. Estamos sempre fugindo de nós mesmos e nos julgamos espertos demais com a porção de pequenas mentiras que nos inventamos. Mas a angústia que vem disso não nos deixa esquecer que só estamos adiando um processo precioso e delicado demais já que podemos continuar nos anestesiando. É preciso estar pronto, mas estar pronto também é transitório. E é preciso lucidez e coragem pra enfrentar o nosso pior inimigo: nós mesmos. Admitir que estamos nos fazendo mal com alguns hábitos ou relacionamentos destrutivos é assustador. E muitas vezes a sensação de impotência é o que impera. Somos imediatistas demais e não queremos sentir dor. Camuflamos nossa infelicidade da forma mais adequada que podemos. E passamos boa parte da vida sendo quem não somos. Até que nos esquecemos de quem somos e vivemos aquela máscara social por tempo demais, mas sempre com aquela sensação de que alguma coisa está fora do lugar, nutrindo relações vazias e breves com medo de sermos descobertos.

Quando entrei em reclusão para organizar o que estava fora do lugar, tive uma das piores sensações da minha vida: era uma espécie de crise de abstinência e a bagunça estava tão arraigada que eu não sabia por onde começar a arrumar as coisas. Foram noites e dias enfrentando a vida de peito aberto, e sangrava. Eu chorava baixo e pedia paciência. E tinha pesadelos todas as noites. Acordava cansada e com o olhar mais triste que já tive.Até que tudo foi se ajeitando aos poucos, dentro do meu tempo e dos meus limites. Eu estava num processo de cura e não percebia.Mas estava buscando avidamente ser quem eu realmente era, ou pelo menos, melhor.

Hoje, eu consigo olhar pro meu passado como uma espectadora. E apontar cada detalhe e cada erro e acerto e cada instante e sensação e fuga. As projeções que fiz, as dependências que criei, as compulsões que tive, hoje são um presente de maturidade e otimismo. Porque comecei a atrair pessoas, histórias e assuntos mais leves, saudáveis. E criei pra mim uma rotina de paz, e deixei de admirar muita gente e a apreciar outras.E vivi muita solidão, muita solitude, muito aconchego também.

Hoje sou tão grata por tudo que doeu, por tudo que sangrou, pelo sono perdido. Retomei o controle da minha vida e estou sendo amada de uma maneira que me deixa mais segura. Perdi meus medos, sobrou apenas a minha fobia de altura. E, por menos que eu tenha escrito, a poesia sempre esteve em mim.

Brindo com vocês esta fase nova em que ,finalmente, conheci a tranqüilidade. Se eu tinha esquecido desta frase, hoje eu posso repetir com o coração cheio de certeza: TUDO VAI DAR CERTO SEMPRE, porque a vida se encarrega das coisas e ela nos compensa com ela mesma.

Obrigada a vocês, ao Universo e a todos os amigos que respeitaram minhas etapas com compreensão e paciência. E obrigada também a mim, que tive coragem e escolhi sobreviver a tudo.
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Marla de Queiroz

segunda-feira, maio 30, 2011

Quando dói


Foto:Paulo Redondo


Não grite sua dor aos quatro ventos, procure ajuda. Não exponha demais suas mazelas, respeite seu luto e o silêncio que vem junto. A vida é cíclica e tudo faz sentido, mesmo que demore muito.E não deixe nunca de confiar no seu poder de superação: é a maior dádiva que a Vida nos deu. A melhor fase ainda virá, acredite. Fale do seu íntimo com as pessoas certas e não banalize sua “esquizofrenia”: ninguém precisa acordar e ir dormir com o mesmo humor. E se achar que está enlouquecendo, experimente a loucura, pode até ser divertido. O tédio do mundo está na falta de cor das pessoas aparentemente “normais”, mas ele também precisa delas para funcionar. Ninguém é tão feliz o tempo todo e a vida não é linear assim: cinismo é diferente de otimismo. Seja alguém de verdade. E se deixe tocar pelas coisas que se comunicam com você lá dentro. Se não encontrar amparo do outro, dê-se. Não queira que sintam pena de você: não sentimos pena de quem admiramos. Reflita, reflita, agasalhe-se de bons pensamentos, funciona em algum momento. E pare de falar mal dos outros: todo réu teve sua oportunidade dada pela “tal vítima”.

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Marla de Queiroz

P.S.: Este texto nasceu por causa dos tantos e tantos e-mails de lamentações que tenho recebido. Sei que muitos escreveram porque perceberam que eu também estava fechando ciclos. Agradeço a confiança, mas adoraria que vocês (re)tomassem novamente a rédea dos teus destinos e determinassem um tempo pra esses lutos. Há vida demais lá fora....bora?

Obrigada por tudo e me ajudem no Top Blog VOTANDO no selinho ali no canto direito!!!!!!!

quarta-feira, maio 18, 2011

"Tudo novo de novo..."

Foto: Jonnygitti


O choro secou. Um outono doce impera com seu aconchego de amor e lucidez, suaves. E esse abraço aveludado que chegou repentinamente, num calorzinho de cuidados e curas. Não restam mais feridas. A dor perdeu seu lugar na minha rotina e foi procurar outros rumos. Tenho novos sonhos e um sono novo e profundo. Suavemente tudo mudou de ritmo e celebrei o tempo de cada novo passo. A princípio tive tanta ansiedade, porque tudo parecia um turbilhão, mas de que adianta tentar pular aprendizados? Se é de poesia que o poeta precisa, vamos a ela e não mais à repetição de uma melancolia eterna e bem aprimorada. Chuva e sol, calor e frio: eis o equilíbrio da vida. Se eu nasci com o sorriso mais largo do mundo, não vou entristecer o meu olhar nem anestesiar minha alegria. O choro secou. Já era tempo de prestar mais atenção em outras cores, promover como prediletas outras flores e entrar no mar sem medo, furando a onda com respeito e repetindo a cena com entrega e confiança. Nada ficou fragmentado. Saí inteira e o amor em mim transborda: pele aceitando carícia, olhar brilhando com a menor das delícias. O toque é novo e a respiração tranqüila. Às vezes ainda ofego um pouco, mas quem disse que artista nasceu para sentir pouco? Importante agora é que o choro secou. Antes o meu pranto era cego. Tive que olhar longamente no espelho pra saber o que ainda poderia resgatar de mim. Não quis nada do que restou, quis o meu sorriso novo, minhas portas abertas e a vontade de saltar novamente no desconhecido. E hoje eu só choro se for de alegria.

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Marla de Queiroz

P.S.: Grata a vocês por absolutamente tudo!



sexta-feira, maio 06, 2011

Alguns detalhes

Foto: Hugo Miguel Marques

Toda loucura, quando canalizada para a arte, vira sensibilidade exacerbada. Mas, queria dizer a vocês que tenho entristecido pessoas e que nunca agi como estou agindo... Não tenho sido grosseira, mas tenho precisado tanto refletir sobre o meu novo ciclo que me tornei indisponível e intolerante para a dor do outro. Estou ressecada por dentro, não tenho o que dar agora, e quem sempre teve de mim os melhores frutos, fica magoado por esta ausência. Sou tão humana quanto vocês e , às vezes, preciso de porres homéricos pra sobre-viver. Ou de silêncios intactos. Ou de muita abstinência.

A única coisa que sei é que dias ensolarados virão. Mas enquanto eu sentir dor no peito, terei muito respeito por esta dor no peito, sem apegos, só por pura consciência de que a vida é cíclica e de que senti-la é a única forma de entender a dor alheia (matéria de poesia é isto também). E que eu tenho a ajuda de que preciso. Mas preciso sentir. Então, enquanto eu não arrumar minha casa de dentro, não escreverei aqui minha tristeza, minhas angústias: estas estão em mim, mas ainda não se organizaram em palavras.

Então, apenas respeitem meu processo. Eu adoraria escrever um texto por dia. Mas isto não depende de um estado emocional, mas de palavras que se oferecem.

P.S.: Que delícia de abraço vocês têm...não economizem qualquer manifestação de afeto.

Marla de Queiroz

segunda-feira, abril 18, 2011

(MU)danças...

Foto: Irina


Agora somos apenas eu e minha página em branco. E a minha página tem expectativas de palavras... Mas o que escrever quando se tem tanto a dizer? Posso contar das mudanças incríveis que vêm me ocorrendo, mas leitores gostam de alguma melancolia. Posso falar do que tive que descartar ou incluir na minha vida para que as mudanças ocorressem, mas mesmo que algo tenha doído, ainda assim, eu falaria do amor de uma maneira cheia de gratidão. Porque sou grata a mim mesma quando me permito viver um romance com toda a minha entrega, transparência e honestidade. Principalmente, com o que tenho de fundamental, que é a minha prosa poética ou poesia: tornar alguém meu muso e derramar meus sentimentos mais piegas, mas inéditos e particulares. E é por isso que consigo sair deles com dignidade.

O que importa é a verdade, não a metáfora. O que importa é o amor, não as promessas feitas. É tudo muito silencioso e cheio de palavras que explicam por dentro. Você jamais conseguirá concatená-las da forma como elas vêm em forma bruta, quando ainda apenas um pensamento. Mas existirá sempre um jeito de olhar ou uma delicadeza no tratamento da relação que dispensará qualquer explicação.

Agora somos eu e a minha página escrita. Não contei nenhuma história importante, embora eu ande por aí cheia de assunto. No fundo, no fundo, eu só queria saber como vocês estão, porque eu posso sentir a presença de cada um que vem aqui. Eu pude sentir todos os afagos e colos que me foram dados. Tenho a alma povoada de pessoas com seus rostinhos desconhecidos.

Tenho apenas uma curiosidade:

Quando vamos tomar um chope?

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Marla de Queiroz